TODOS OS QUE SÃO CONDUZIDOS PELO ESPÍRITO DE DEUS SÃO FILHOS DE DEUS

Pe. Raniero Cantalamessa, OFM cap

Terceira pregação quaresmal que o Pe. Raniero Cantalamessa OFM, pregador da Casa Pontifícia, dirigiu à Cúria Romana em 27/03/2009, na capela «Redemptoris Mater», sobre o capítulo 8 da carta de São Paulo aos Romanos, com o título «A lei do Espírito que dá vida em Cristo Jesus». 

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Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus

1. Uma era do Espírito Santo?

«De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo. A lei do Espírito de Vida me libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte… Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é dele. Ora, se Cristo está em vós, o corpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o Espírito vive pela justificação. Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós.»

São 4 versículos do capítulo 8 da Carta aos Romanos sobre o Espírito Santo e neles ressoa seis vezes o nome de Cristo. A mesma frequência se mantém no resto do capítulo, se consideramos também as vezes que há referências a Ele com o pronome ou com o termo Filho. Este fato é de importância fundamental, pois nos diz que para Paulo a obra do Espírito Santo não substitui a de Cristo, mas que a prossegue, cumpre e atualiza.

O fato de que o recém-eleito presidente dos Estados Unidos, durante sua campanha eleitoral, tenha aludido três vezes a Joaquim de Fiore, voltou a suscitar o interesse pela doutrina deste monge do medievo. Poucos dos que falam dele, especialmente na internet, sabem ou se preocupam por saber o que disse exatamente este autor. Toda idéia de renovação eclesial ou mundial se põe sob seu nome com desenvoltura, até a idéia de um novo Pentecostes para a Igreja, invocado por João XXIII.

Uma coisa é certa. Seja ou não atribuível a Joaquim de Fiore, a idéia de uma terceira era do Espírito que sucederia a do Pai no Antigo Testamento e de Cristo no Novo é falsa e herética, porque ataca o próprio coração do dogma trinitário. Bem distinta é a afirmação de São Gregório Nazianzeno, que distingue três fases na revelação da Trindade: no Antigo Testamento, revelou-se plenamente o Pai e se prometeu e anunciou o Filho; no Novo Testamento, revelou-se plenamente o Filho e foi anunciado e prometido o Espírito Santo; no tempo da Igreja, conhece-se finalmente por completo o Espírito Santo e se goza de sua presença [1].

Só por ter citado em um livro meu este texto de São Gregório, acabei também na lista dos seguidores de Joaquim de Fiore, mas São Gregório fala da ordem da manifestação do Espírito, não de seu ser ou de seu atuar, e em tal sentido sua afirmação expressa uma verdade incontestável, acolhida pacificamente por toda a tradição.

A tese chamada joaquimita é excluída por Paulo e todo o Novo Testamento. Para estes, o Espírito Santo não é senão o Espírito de Cristo: objetivamente porque é o fruto de sua Páscoa; subjetivamente porque é Ele quem o infunde na Igreja, como dirá Paulo à multidão no própria dia de Pentecostes: «Exaltado pela direita de Deus, havendo recebido do Pai o Espírito Santo prometido, derramou-o como vós vedes e ouvis» (Atos 2, 33). O tempo do Espírito é, por isso, co-extensivo ao tempo de Cristo.

O Espírito Santo é o Espírito que procede primariamente do Pai, que descendeu e «pousou» em plenitude em Jesus, «historificando-se» e acostumando-se n’Ele – diz Santo Irineu – a viver entre os homens, e que na Páscoa-Pentecostes a partir d’Ele é infundido na humanidade. Outra prova de tudo isso é precisamente o grito «Abba» que o Espírito repete no crente (Gál 4, 6) ou ensina a repetir ao crente (Rm 8, 15). Como pode o Espírito gritar Abba ao Pai? Não é gerado do Pai, não é seu Filho… Pode fazê-lo – observa Santo Agostinho – porque é o Espírito do Filho e prolonga o grito de Jesus.

2. O Espírito como guia na Escritura

Depois desta premissa, vamos ao versículo do capítulo oitavo da Carta aos Romanos, sobre o qual eu gostaria de me deter hoje: «todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus» (Rm 8, 14).

O tema do Espírito Santo-guia não é novo na Escritura. Em Isaías, todo o caminho do povo no deserto é atribuído à guia do Espírito. «O Espírito do Senhor os guiou a descansar» (Is 63, 14). O próprio Jesus «foi levado (ductus) pelo Espírito ao deserto» (Mt 4,1). Os Atos dos Apóstolos nos mostram uma Igreja que, pouco a pouco, é «conduzida pelo Espírito». O próprio projeto de São Lucas de fazer que os Atos dos Apóstolos siga os Evangelhos, tem o objetivo de mostrar como o mesmo Espírito que havia guiado Jesus em sua vida terrena agora guia a Igreja, como Espírito de «Cristo». Pedro vai para Cornélio e os pagãos? É o Espírito quem ordena (cf. Atos 10, 19; 11, 12); em Jerusalém, os apóstolos tomam decisões importantes? É o Espírito quem as sugeriu (15, 28).

A guia do Espírito se exerce não só nas grandes decisões, mas também nas coisas pequenas. Paulo e Timóteo querem pregar o Evangelho na província da Ásia, mas «o Espírito Santo o havia impedido»; tentam dirigir-se para Bitínia, mas «o Espírito de Jesus não o consentiu» (Atos 16, 6 s). Compreende-se depois o porquê desta guia tão importante: o Espírito Santo impulsionava deste modo a Igreja nascente a sair da Ásia e assomar-se a um novo continente, a Europa (cf. Atos 16, 9).

Para João, a guia do Paráclito é exercida sobretudo no âmbito da consciência. É Aquele que «guiará» os discípulos até a verdade completa (Jo 16, 3); sua unção «ensina tudo», até o ponto que quem a possui não precisa de outros mestres (cf 1 Jo 2, 27). Paulo introduz uma importante novidade. Para ele, o Espírito Santo não é só «o mestre interior»; é um princípio de vida nova («os que são guiados por Ele são filhos de Deus»!); não se limita a indicar o que se deve fazer, mas também dá a capacidade de fazer o que manda.

Nisso, a guia do Espírito se diferencia essencialmente da da Lei que permite ver o bem que deve ser cumprido, mas que deixa a pessoa a sós com o mal que não quer (cf. Rm 7, 15 ss). «Se, porém, vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a lei» (Gál 5, 18).

Esta visão paulina da guia do Espírito, mais profunda e ontológica (enquanto toca o próprio ser do crente), não exclui a mais comum de mestre interior, de guia no conhecimento da verdade e da vontade de Deus, e nesta ocasião é precisamente disso que eu queria falar.

Trata-se de um tema que teve um amplo desenvolvimento da Igreja. Se Jesus Cristo é «o caminho» (odos) que leva ao Pai (Jo 14, 6), o Espírito Santo – diziam os Padres – «é o guia ao longo do caminho» (odegos) [2]. «Este é o Espírito – escreve Santo Ambrósio –, nossa cabeça e guia (ductor et princeps), que dirige a mente, confirma o afeto, atrai-nos onde quer e orienta para o alto nossos passos» [3]. O hino Veni creator recolhe esta tradição nos versos: «Ductore sic te praevio vitemus omne noxium»: convosco como guia todo mal evitaremos. O Concílio Vaticano II se compreende nesta linha quando fala «do Povo de Deus, movido pela fé, que o impulsiona a crer que quem o conduz é o Espírito do Senhor» [4].

3. O Espírito guia através da consciência

Onde se explica esta guia do Paráclito? O primeiro âmbito ou órgão é a consciência. Há uma relação muito íntima entre consciência e Espírito Santo. O que é a famosa «voz da consciência», senão que uma espécie de «repetidor à distância» através do qual o Espírito Santo fala a cada homem? «Minha consciência me testifica no Espírito Santo», exclama São Paulo, falando de seu amor pelos conacionais israelitas (cf. Rom 9, 1).

Através deste «órgão», a guia do Espírito Santo se estende também fora da Igreja, a todos os homens. Os pagãos «mostram ter a realidade dessa lei escrita em seu coração, testificando sua consciência» (Rm 2, 14s). Precisamente porque o Espírito Santo fala em todo ser racional através da consciência – dizia São Máximo o Confessor –, «vemos muitos homens, também entre os bárbaros e os nômades, orientar-se a uma vida decorosa e boa, e desprezar as leis violentas que desde as origens os haviam governado» [5].

A consciência também é uma espécie de lei interior, não escrita, diferente e inferior com relação à que existe no crente pela graça, mas não em desacordo com ela, dado que provém do mesmo Espírito. Quem não possui mais que esta lei «inferior», mas a obedece, está mais perto do Espírito que quem possui aquela superior que vem do batismo, mas não vive de acordo com ela.

Nos crentes, esta guia interior da consciência está como potenciada e elevada pela unção que «ensina acerca de todas as coisas – e é verdadeira, não mentirosa» (1 Jo 2, 27), ou seja, guia infalivelmente quando se lhe presta atenção. Precisamente comentando este texto, Santo Agostinho formulou a doutrina do Espírito Santo como «mestre interior». O que quer dizer – ele se perguntava – «não necessitais que ninguém vos instrua»? Talvez que o cristão sozinho já sabe tudo por sua conta e que não precisa ler, formar-se, escutar ninguém? Mas se assim fosse, com que fim teria escrito o apóstolo esta carta sua? A verdade é que há necessidade de escutar mestres externos e pregadores externos, mas só entenderá e se aproveitará do que dizem aquele a quem lhe fala no íntimo o Espírito Santo. Isto explica por que muitos escutam a mesma pregação e o mesmo ensinamento, mas nem todos compreendem de igual forma [6].

Que consoladora segurança de tudo isso! A palavra que um dia ressoou no Evangelho: «O mestre está aqui e te chama!» (Jo 11, 28), é verdadeira para cada cristão. O próprio mestre de então, Cristo, que fala através de seu Espírito, está dentro de nós e nos chama. Tinha razão São Cirilo de Jerusalém ao definir o Espírito Santo como «o grande didascalo, isto é, mestre, da Igreja» [7].

Neste âmbito íntimo e pessoal da consciência, o Espírito Santo nos instrui com as «boas inspirações» ou as «iluminações interiores», das quais todos tivemos alguma experiência na vida. São impulsos a seguir o bem e a rejeitar o mal, atrações e propensões do coração que não se explicam naturalmente, porque com frequência vão em direção contrária ao que a natureza queria.

Baseando-se neste componente ético da pessoa, precisamente alguns eminentes cientistas e biólogos da atualidade chegaram a superar a teoria que contempla o ser humano como resultado casual da seleção da espécie. Se a lei que governa a evolução é só a luta pela sobrevivência do mais forte, como se explicam certos atos de puro altruísmo e até de sacrifício de si mesmo pela causa da verdade e da justiça? [8].

4. O Espírito guia através do magistério da Igreja

Até aqui, o primeiro âmbito no qual se exerce a guia do Espírito Santo, o da consciência. Existe um segundo, que é a Igreja. O testemunho interior do Espírito Santo se deve conjugar com o exterior, visível e objetivo, que é o magistério apostólico. No Apocalipse, ao término de cada uma das sete cartas, ouvimos a advertência: «Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas» (Ap 2, 7ss).

O Espírito fala também às Igrejas e às comunidades, não só aos indivíduos. São Pedro, em Atos, reúne ambos os testemunhos – interior e exterior, pessoal e público – do Espírito Santo. Acaba de falar às multidões de Cristo entregue à morte e ressuscitado, e aquelas se sentiram «compungidas» (cf. Atos 2, 37); o mesmo faz diante dos chefes do sinédrio, e estes se enfureceram (cf. Atos 4, 8ss). Mesmo tema, mesmo pregador, mas efeito completamente diferente. Como é isso? A explicação se encontra nestas palavras que o Apóstolo pronuncia nessa circunstância: «Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que o obedecem» (Atos 5, 32).

Dois testemunhos devem unir-se para que possa brotar a fé: o dos apóstolos, que proclamam a palavra, e o do Espírito que permite acolhê-la. A mesma ideia se expressa no Evangelho de João quando, falando do Paráclito, Jesus diz: «Ele dará testemunho de mim e também vós dareis testemunho» (Jo 15, 26).

É igualmente fatal pretender prescindir de uma ou de outra das duas guias do Espírito. Quando se descuida do testemunho interior, cai-se facilmente no legalismo e no autoritarismo; quando se descuida do exterior, apostólico, cai-se no subjetivismo e no fanatismo. Na antiguidade, os gnósticos rejeitavam o testemunho apostólico, oficial. Contra eles, Santo Irineu escrevia as conhecidas palavras:

«À Igreja se confiou o Dom de Deus, como o sopro à criatura modelada… Dele não são partícipes os que não seguem a Igreja… Separados da verdade, agitam-se em cada erro deixando-se sacudir por ele; segundo o momento, pensam cada vez de modo diferente sobre os mesmos temas, sem ter jamais um critério estável.» [9]

Quando tudo se reduz à escuta pessoal, privada, do Espírito, abre-se o caminho a um processo irrefreável de divisões e subdivisões, porque cada um crê que tem razão; e a própria divisão e multiplicação das denominações e das seitas, com frequência em oposição entre si em pontos essenciais, demonstra que não pode ser em todos o mesmo Espírito de verdade o que fala, porque de outra forma Ele estaria em contradição consigo mesmo.

Isso, como se sabe, é o perigo ao qual está mais exposto o mundo protestante, tendo erigido o «testemunho interno» do Espírito Santo como único critério de verdade, contra todo o testemunho externo, eclesial, a não ser a Palavra escrita [10]. Alguns grupos extremos irão tão longe como para separar a guia interior do Espírito Santo também da palavra da Escritura; existirão então os diversos movimentos de «entusiastas» e de «iluminados» que atravessaram a história da Igreja, tanto católica como ortodoxa e protestante. O ponto de chegada mais habitual desta tendência, que concentra toda atenção no testemunho interno do Espírito, é que inadvertidamente o Espírito… perde a maiúscula e termina por coincidir com o simples espírito humano. É o que ocorreu com o racionalismo.

Mas devemos reconhecer que existe também o risco oposto: o de absolutizar o testemunho externo e público do Espírito, ignorando o individual que se exerce através da consciência iluminada pela graça. Em outras palavras, o de reduzir a guia do Paráclito ao único magistério oficial da Igreja, empobrecendo assim a variada ação do Espírito Santo.

Prevalece facilmente, neste caso, o elemento humano, organizativo e institucional; favorece-se a passividade do corpo e se abre a porta à marginalização do laicado e à excessiva clericalização da Igreja. Sem contar com que também por esta rota, pode recair no subjetivismo e no sectarismo, assumindo, da tradição e do magistério, só a parte que corresponde à própria escolha ideológica ou política.

Igualmente neste caso, como sempre, devemos voltar a encontrar a totalidade, a síntese, que é o critério verdadeiramente «católico». O ideal é uma sã harmonia entre a escuta do que o Espírito me diz, singularmente, e o que diz à Igreja em seu conjunto e, através da Igreja, a cada um.

5. O discernimento na vida pessoal

Vamos agora à guia do Espírito no caminho espiritual de cada crente. Situa-se sob o nome de discernimento de espíritos. O primeiro e fundamental discernimento de espíritos é o que permite distinguir «o Espírito de Deus» do «espírito do mundo» (cf. 1 Co 2, 12). São Paulo dá um critério objetivo de discernimento, o mesmo que havia dado Jesus: o dos frutos. As «obras da carne» revelam que certo desejo vem do homem velho, pecaminoso; «os frutos do Espírito» revelam que vem do Espírito (cf. Gál 5, 19-22). «A carne, de fato, tem desejos contrários ao Espírito e o Espírito tem desejos contrários à carne» (Gál 5, 17).

Contudo, às vezes este critério objetivo não basta, porque a eleição não é entre o bem e o mal, mas entre um bem e outro bem, e se trata de ver o que é que Deus quer em uma circunstância precisa. Sobretudo para responder a esta exigência, Santo Inácio de Loyola desenvolveu sua doutrina sobre o discernimento. Convida a olhar sobretudo uma coisa: as próprias disposições interiores, as intenções (o «espírito») que estão detrás de uma escolha.

Santo Inácio sugeriu os meios práticos para aplicar estes critérios [11]. Um é o seguinte. Quando se está diante de duas possíveis opções, é útil deter-se primeiro em uma, como se tivesse que segui-la sem dúvida; permanecer em tal estado durante um ou mais dias; então avaliar as reações do coração frente a tal eleição: se dá paz, se harmoniza com o resto das próprias eleições, se algo em você o alenta nessa direção, ou, ao contrário, se o tema deixa um pouco de inquietude… Repetir o processo com a segunda hipótese. Tudo em um clima de oração, de abandono à vontade de Deus, de abertura ao Espírito Santo.

Uma disposição habitual de fundo a realizar, em qualquer caso, a vontade de Deus, é a condição mais favorável para um bom discernimento. Jesus dizia: «meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou» (Jo 5, 30).

O perigo, em algumas formas modernas de entender e praticar o discernimento, é acentuar até tal ponto os aspectos psicológicos, que se esquece que o agente primário de todo discernimento é o Espírito Santo. Há uma profunda razão teológica nisso. O Espírito Santo é, Ele mesmo, a vontade substancial de Deus, e quando entra em uma alma «se manifesta como a própria vontade de Deus para aquele em quem se encontra» [12].

O fruto concreto desta meditação poderia ser uma renovada decisão de confiar-se em tudo e para tudo à guia interior do Espírito Santo, como em uma espécie de «direção espiritual». Está escrito que «quando a nuvem se elevava de cima da morada, os israelitas levantavam o acampamento. Mas se a nuvem não se elevava, eles não levantavam o acampamento» (Ex 40, 36-37). Tampouco nós devemos empreender nada se não é o Espírito Santo – de quem a nuvem, segundo a tradição, era figura – quem nos move e sem tê-lo consultado antes de cada ação.

Temos o exemplo mais luminoso disso na própria vida de Jesus. Jamais empreendeu nada sem o Espírito Santo. Com o Espírito Santo foi ao deserto; com o poder do Espírito Santo regressou e iniciou sua pregação; «no Espírito Santo» escolheu seus apóstolos (cf. Atos 1, 2); no Espírito orou e se entregou a si mesmo ao Pai (cf. Hb 9, 14).

São Tomás fala desta condução interior do Espírito como de uma espécie de «instinto próprio dos justos»: «Como que na vida corporal o corpo não é movido mais que pela alma que o vivifica, assim na vida espiritual cada movimento nosso deveria provir do Espírito Santo» [13]. É assim como atua a «lei do Espírito»; é o que o Apóstolo chama de «deixar-se guiar pelo Espírito» (Gál 5, 18).

Devemos abandonar-nos ao Espírito Santo como as cordas da harpa aos dedos de quem as toca. Como bons atores, ter o ouvido atento à voz do apontador escondido, para recitar fielmente nossa parte no cenário da vida. É mais fácil do que se pensa, porque nosso apontador nos fala dentro, ensina-nos todas as coisas e nos instrui em tudo. Basta às vezes um simples olhar interior, um movimento do coração, uma oração. De um santo bispo do século II, Meliton de Sardes, lê-se este belo elogio que desejo que pudesse se repetir sobre cada um de nós depois de morrer: «Em sua vida fez tudo movido pelo Espírito Santo» [14].

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[1] Cf.  S. Gregorio Nazianzeno, Discorsi,  XXXI, 26 (PG 36, 161 s.).

[2] S. Gregorio Nisseno, Sulla fede (PG 45, 1241C): cf. Ps.-Atanasio, Dialogo contro i Macedoniani, 1, 12 (PG 28, 1308C).

[3] S. Ambrogio, Apologia di  David, 15, 73 (CSEL 32,2, p. 348).

[4] Gaudium et spes, 11.

[5] S. Massimo Confessore, Capitoli vari, I, 72 (PG 90, 1208D).

[6] Cf. S. Agostino, Sulla prima lettera di Giovanni, 3,13; 4,1 (PL 35, 2004 s.).

[7] S. Cirillo di Gerusalemme, Catechesi, XVI, 19.

[8] Cf. F. Collins, The Language of God

[9] S. Ireneo, Contro le eresie, III, 24, 1-2.

[10] Cf. J.-L. Witte, Esprit-Saint et Eglises séparées, in Dict.Spir. 4, 1318-1325.

[11] Cf. S. Ignazio di Loyola, Esercizi spirituali, quarta settimana (ed. BAC, Madrid 1963, pp. 262 ss).

[12] Cf. Guglielmo di St. Thierry, Lo specchio della fede, 61 (SCh  301, p. 128).

[13] S. Tommaso,  Sulla lettera ai Galati, c.V, lez.5, n.318; lez. 7, n. 340.

[14] Eusebio di Cesarea, Storia ecclesiastica, V, 24, 5.

[Traduzido por Zenit]

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