A POLÍTICA ALÉM DO VOTO

Por Roger Pereira Valim (Missionário da Comunidade Católica Shalom em Fortaleza/CE)

Artigo Extraído da Revista Shalom Maná – Setembro 2010

Assinaturas: www.edicoesshalom.com.br

La Ultima Cima_4

Você acha que Deus se importa com os rumos políticos do Brasil? As decisões políticas que acontecem no país e no seu estado influenciam de alguma forma a sua vida? Como você escolhe seus representantes políticos? Que critérios você usa na hora de votar?

Estes são questionamentos que geralmente surgem durante um período eleitoral, como o que vivenciamos atualmente. Torna-se quase inevitável conversar sobre política. Observamos que as pessoas se posicionam de diversas formas diante do tema. Algumas sentem uma verdadeira aversão, outras são indiferentes ou superficiais em seus pensamentos e colocações, outras tem um desejo de maior participação, mas não sabem o que fazer, e somente uma pequena minoria tem uma vida política realmente atuante.

Há um consenso sobre a importância da política, mas há também um enorme distanciamento em relação a ela. Por que encontramos este cenário? Achamos a política uma realidade exclusiva dos políticos? Será um assunto de importância secundária? Não seria a política apenas uma "invenção" humana para manipular as pessoas e os povos?

A Igreja, mãe e mestra, através do seu Compêndio de Doutrina Social, é categórica em afirmar que a política na vida humana é "uma dimensão essencial e incancelável" (CDSI 384). Sendo essencial, pertence à nossa natureza, foi desejada e criada por Deus. Sendo incancelável, é, no mínimo, muito importante para nossa felicidade e santidade.

A Igreja também nos ensina que: "Os indivíduos, as famílias e os diferentes grupos que constituem a sociedade civil têm consciência da própria insuficiência para realizar uma vida plenamente humana e percebem a necessidade de uma comunidade mais ampla, no seio da qual todos conjuguem diariamente as próprias forças para cada vez melhor promoverem o bem comum. E por esta razão, constituem, segundo diversas formas, a comunidade política. A comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum: nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição" (Gaudium et spes, 74).

As decisões que acontecem na esfera política, independente da nossa vontade ou participação efetiva, influenciam de forma concreta aspectos relevantes da vida humana, como a expressão da fé, a liberdade religiosa, os valores morais da família, o ideal de sociedade, as relações econômicas e sociais.

Para melhor contextualizarmos este assunto, vejamos exemplos recentes desta influência na América Latina:

A Igreja Católica na Venezuela, nestes últimos meses, tem sido perseguida de forma violenta por algumas autoridades políticas nacionais, que tentam silenciá-la, ameaçando deportar os bispos e tentando fechar as instituições católicas, como o Canal Católico de Televisão e as escolas católicas no país.

No México, recentemente um governador foi multado por pedir ajuda a Deus em um pronunciamento, numa interpretação equivocada da Justiça sobre o princípio da laicidade.

Na Argentina, mesmo contrariando a vontade da maioria da população, aprovou-se em julho último uma lei que nega o lugar e o valor da família, constituída pela união entre o marido e a mulher, como base e célula-mãe da sociedade, e tenta lançar outros fundamentos.

No Brasil, a recente aprovação de uma lei que permite a manipulação de seres humanos no seu período embrionário passou a influenciar toda uma política de ensino e pesquisa, levando a uma cultura de instrumentalização da vida humana.

Assistimos também no Brasil a ações políticas articuladas, sorrateiras e persistentes de um grupo político que tenta legalizar o aborto a todo custo, inclusive impedindo a manifestação de políticos favoráveis à vida, através de ameaças e punições.

Não menos grave é a tentativa do atual governo de aprovar, sem discussão ou clareza, um programa de desenvolvimento humano autoritário e equivocado. Este programa tenta impor um modelo social que exclui a religião e suas práticas do ambiente público, tenta controlar a imprensa e submeter todas as instituições ao pensamento do Estado. Este projeto radical atinge diretamente as famílias e igrejas cristãs, pois restringe a pregação e o ensino dos nossos valores morais e de fé. Estes são apenas alguns exemplos da gravidade do momento histórico e de como a dimensão política deve ser encarada por todos nós como uma realidade "essencial e incancelável".

Surge então uma pergunta que nos faz tremer: Como chegamos a este ponto? Será que muitos dos graves problemas sociais, como corrupção, violência, desigualdade social, desrespeito à vida humana, não foram e são causados diretamente pela falta dos valores cristãos na vida política? Pela escolha errada dos nossos representantes políticos? Se existe tanta treva, podemos nos perguntar onde colocamos a luz do mundo? (Mt 5,14-16). Realidade preocupante. Sim! Mas jamais podemos perder a esperança.

A Igreja mais uma vez nos ampara: "Perante as graves formas de injustiça social e econômica e de corrupção política, que gravam sobre povos e nações inteiras, cresce a reação indignada de muitíssimas pessoas oprimidas e humilhadas nos seus direitos fundamentais e torna-se sempre mais ampla e sentida a necessidade de uma radical renovação pessoal e social capaz de assegurar justiça, solidariedade, honestidade, transparência" (Veritatis Splendor, 98).

O início desta radical renovação pessoal e comunitária é urgente. Precisamos abrir as portas e janelas da nossa alma e das nossas instituições para que o Espírito Santo aja poderosamente, transformando, iluminando, santificando, dando sabedoria e coragem para uma atitude política madura e eficaz. Não podemos permanecer com uma vida política morna (Ap 3,16). Não podemos adiar ou transferir nossa responsabilidade diante de Deus e dos povos do nosso tempo.

João Paulo II nos exorta e ensina dizendo: "Os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na ‘política’, … todos e cada um têm o direito e dever de participar da política, embora em diversidade e complementaridade de formas, níveis, funções e responsabilidades. As acusações de arrivismos, idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o ceticismo nem o absenteísmo dos cristãos pela coisa pública. Pelo contrário, é muito significativa a palavra do Concílio Vaticano II: "A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, a serviço dos homens" (Christifidelis laici, 42).

Em maio deste ano, o Papa Bento XVI, no discurso de abertura da Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para os Leigos, que teve como tema "Testemunhas de Cristo na comunidade política", destacou: "Os tempos que vivemos nos colocam diante de grandes e complexos problemas, e a questão social tornou-se, ao mesmo tempo, questão antropológica. [ … ] A propagação de um confuso relativismo cultural e de um individualismo utilitarista e hedonista enfraquece a democracia e favorece o domínio dos poderes fortes. É necessário recuperar e revigorar uma autêntica sabedoria políticà".

"Ecoando as expressões de meus predecessores, posso também eu afirmar que a política é um âmbito muito importante do exercício da caridade. Ela convida os cristãos a um forte compromisso com a cidadania, para a construção de uma vida boa nas nações, bem como uma presença eficaz nos serviços e programas da comunidade internacional. Precisamos de políticos autenticamente cristãos, mas acima de tudo, de fiéis leigos que sejam testemunhas de Cristo e do Evangelho na comunidade civil e política. Essa exigência deve estar bem presente nos itinerários educativos das comunidades eclesiais e exige novas formas de acompanhamento e apoio por parte dos Pastores. A pertença dos cristãos às associações de fiéis, movimentos eclesiais e novas comunidades pode ser uma boa escola para esses discípulos e testemunhas, sustentados pela riqueza carismática, comunitária, educativa e missionária própria dessas realidades."

A escolha dos representantes políticos, em outubro próximo, através do voto, assume neste momento eleitoral um aspecto central. "É preciso, contudo, estar atento para votar bem. Isso significa selecionar os candidatos nos quais vamos votar. Isso significa conhecer o candidato, seu partido, sua vida pregressa, suas propostas de governo, sua atuação, seu trabalho, sua competência, sua honestidade, sua personalidade. Queremos um governo justo, honesto e competente. Um governo com visão e preocupações não apenas imediatas e locais, que obviamente são necessárias, urgentes e imprescindíveis, mas também visão e plano de alcance maior na direção do futuro. Queremos um governo que apoie os valores morais para a juventude, leve a sério os valores familiares, defenda para todo ser humano o direito à vida, desde a concepção até a morte natural" (Dom Cláudio Hummes, Diálogo com a cidade, pp. 189-190).

Infelizmente, num país de maioria católica, muitos tentam direcionar e adaptar seus discursos a este eleitorado através de maquiagens publicitárias. Com posicionamentos evasivos, dúbios e relativistas, tentam ludibriar o eleitor que tem valores evangélicos. Precisamos aprimorar nossa capacidade de identificar e votar nos verdadeiros políticos comprometidos com Cristo, e não votar nos lobos revestidos de cordeiro.

Há alguns anos numa viagem a outro país, ao sair da missa, recebi dos paroquianos um questionário elaborado pela conferência episcopal daquele país, com perguntas objetivas sobre pontos de interesse para o eleitor católico e as respostas oficiais, detalhadas e com registro legal dos candidatos a presidente naquela época. Algo simples, mas elucidativo.

Que os cristãos que sentem uma vocação ao serviço político passem por um período de discernimento e amadurecimento do seu chamado. "Os que são ou podem tornar-se aptos para exercer a difícil e muito nobre arte da política, preparem-se para ela e procurem exercê-la sem pensar no interesse próprio ou em vantagens materiais. Procedam com inteireza e prudência contra a injustiça e a opressão, contra o arbitrário domínio de uma pessoa ou de um partido, e contra a intolerância. E dediquem-se com sinceridade e equidade, e mais ainda com caridade e fortaleza políticas, ao bem de todos" (Gaudium et spes, 75). ”A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos homens" (Gaudium et spes, 75).

Cheios de esperança, assumamos o dever que nos bate à porta. Sejamos, no nosso ambiente familiar, de trabalho, comunitário, "construtores da Paz" (Mt 5,9), tanto com a conversão do "coração", como com a ação em favor da verdade, da liberdade, da justiça e da caridade que são os fundamentos irrenunciáveis da paz" (Christifidelis laici, 42).

Precisamos nos posicionar com coragem e sabedoria no mundo da política, sabendo que "Os cristãos não buscam a hegemonia política ou cultural, mas, em toda a área em que se empenham, são movidos pela certeza de que Cristo é a pedra angular de toda construção humana" (Bento XVI).

Devemos discernir, com responsabilidade e profundidade, os candidatos que escolheremos votar. Devemos apoiar concretamente os projetos políticos que portam os valores cristãos. Devemos interceder fervorosamente por uma intervenção divina, pois sabemos da dimensão espiritual que cerca o mundo da política. Devemos acompanhar aqueles que nos representarão no cenário político.

"Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo" (Jo 16,33) .

PARA VOTAR BEM

Os Bispos Católicos do Regional Sul1, da CNBB [Estado de São Paulo] no cumprimento de sua missão pastoral, oferecem as seguintes orientações aos seus fiéis para a participação consciente e responsável no processo político eleitoral deste ano:

1 – O poder político emana do povo. Votar é um exercício importante de cidadania, por isso, não deixe de participar das eleições e de exercer bem este poder. Lembre-se de que seu voto contribui para definir a vida política do País e do nosso Estado.

2 – O exercício do poder é um serviço ao povo. Verifique se os candidatos estão comprometidos com as grandes questões que requerem ações decididas dos governantes e legisladores: a superação da pobreza, a promoção de uma economia voltada para a criação de postos de trabalho e melhor distribuição da renda, educação de qualidade para todos, saúde, moradia, saneamento básico, respeito à vida e defesa do meio ambiente.

3 – Governar é promover o bem comum. Veja se os candidatos e seus partidos estão comprometidos com a justiça e a solidariedade social, a segurança pública, a superação da violência, a justiça no campo, a dignidade da pessoa, os direitos humanos, a cultura da paz e o respeito pleno pela vida humana desde a concepção até à morte natural. São valores fundamentais irrenunciáveis para o convívio social. Isso também supõe o reconhecimento à legítima posse de bens e à dimensão social da propriedade.

4 – O bom governante governa para todos. Observe se os candidatos representam apenas o interesse de um grupo específico ou se pretendem promover políticas que beneficiem a sociedade como um todo, levando em conta, especialmente, a camadas sociais mais frágeis e necessitadas da atenção do poder público.

5 – O homem público deve ter idoneidade moral. Dê seu voto apenas a candidatos cor "ficha limpa", dignos de confiança, capazes de governar com prudência e equidade e de fazer leis boas e justas para o convívio social.

6 – Voto não é mercadoria. Fique atento à prática da corrupção eleitoral, ao abuso do poder econômico, à compra de votos e a uso indevido da máquina administrativa na campanha eleitoral. Fatos como esses devem ser denunciados imediatamente, com testemunhas, às autoridade competentes. Questione também se os candidatos estão dispostos a administrar ou legislar de forma transparente, aceitando mecanismos de controle por parte da sociedade. Candidatos com um histórico de corrupção ou mal gestão dos recursos públicos não devem receber nosso apoio nas eleições.

7 – Voto consciente não é troca de favores, mas uma escolha livre. Procure conhecer os candidatos, sua história pessoal, suas idéias e as propostas defendidas por eles e os partidos aos qua estão filiados. Vote em candidatos que representem e defendam depois de eleitos, as convicções que você também defende.

8 – A religião pertence à identidade de um povo. Vote em candidatos que respeitem liberdade de consciência, as convicções religiosas dos cidadão, seus símbolos religiosos e a livre manifestação de sua fé.

9 – A Família é um patrimônio da humanidade e um bem insubstituível para a pessoa. Ajude a promover,com seu voto, a proteção da família contra todas as ameaças à sua missão e identidade natural. A sociedade que descuida da família destrói as próprias bases.

10 – Votar é importante mas ainda não é tudo. Acompanhe. depois das eleições, as ações e decisões políticas e administrativas dos governantes e parlamentares, para cobrar deles a coerência para com as promessas de campanha e apoiar as decisões acertadas.

Aparecida, 29 de junho de 2010

Dom Nelson Westrupp (presidente do CONSER)

Dom Benedito Beni dos Santos (vice-presidente)

Dom Airton José dos Santos (secretário-geral)

Artigo Extraído da Revista Shalom Maná – Setembro 2010

Assinaturas: www.edicoesshalom.com.br

Postado em: https://carloslopesshalom.wordpress.com

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