JOÃO PAULO II E O SACERDOTE

Por Frei Patrício Sciadini, ocd

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– Nestes últimos tempos é difícil ter uma estatística certa de quantos sacerdotes, por vários motivos, abandonaram o sacerdócio, por iniciativa própria ou foram convidados pela mesma Igreja a deixar o exercício do ministério sacerdotal. Na verdade o sacramento da Ordem, como a mesma teologia ensina, “imprime caráter”, isto é, uma vez que alguém é ordenado sacerdote será sempre e “in eternum” sacerdote. Quem de nós não conhece a frase “tu és sacerdote in eternum”? Portanto ninguém pode “despadrar” e ninguém pode “desbatizar” ou “descrismar” ou “desbispar”. Não tem como. A grandeza de Deus e a pobreza do mesmo Deus estão nisto: ele é Senhor de tudo, pode tudo, mas não pode ser infiel à sua fidelidade e à palavra dada.

Se por hipótese alguém que deixou de exercer o ministério sacerdotal, ou a mesma Igreja lhe proibiu de exercer este ministério, decide por exemplo, consagrar o pão e o vinho e celebrar a missa, Cristo se faz presente no altar. Os sacramentos não se realizam pela força da santidade de quem os ministra, mas sim pela força que lhe é conferida pelo mesmo Cristo Jesus. Estas pequenas explicações nos ajudam bastante para podermos compreender a grandeza do sacerdote e como ele deve viver com esforço, e não pouco. É tesouro recebido pela pura graça de Deus mas que carregam “em vasos de barro”, frágeis.

Ouvi com os meus ouvidos e portanto não relato o que outros me disseram porque lhe foi dito que alguém ouviu dizer. Não faz muito tempo estava em Fortaleza, na Comunidade Shalom, e estava lá o famoso e grande pregador do evangelho “Daniel Ange”, que publicou livros belíssimos sobre Santa Teresinha, editados pela Editora Loyola. Ele, falando do Papa João Paulo II de quem era grande amigo e que visitava de vez em quando, relatou este fato.

Um dia os membros de sua comunidade estavam andando pelas estradas de Roma e um dia depois seriam recebidos em audiência pelo Papa João Paulo II. Um pobre se apresentou diante deles e pediu uma esmola. Sentiram tocados profundamente e deram para este pobre anônimo uma pequena esmola. Ele agradeceu e depois, olhou-os fixamente. Eles trazem hábito, portanto é mais fácil identifica-los como religiosos. Disse-lhes: “por favor, rezem muito para mim, precisos muito de suas orações”. Prometeram orações e alguém, cheio de alegria, contou que amanhã seriam recebidos em audiência pelo Papa João Paulo II. Os olhos do pobre se iluminaram e chorando disse: “Peçam ao Papa que reze muito para mim. Mas que ele reze mesmo para mim”.

A curiosidade é uma virtude que faz parte do ser humano e não falta nas fileiras clericais. Curiosos por esta insistência de oração e do Papa perguntaram: por que? E o mendigo disse: “vejam, eu sou sacerdote, deixei o sacerdócio, casei-me e depois me separei e casei de novo e me separei de novo e estou abandonado por todo, obrigado a pedir esmola nas estradas de Roma porque não tenho nem sensibilidade de voltar para a minha terra. Sinto-me destruído, abandonado, dizei ao Papa que peço perdão e que reze para mim”. E o pobre se distanciou do grupo.

No dia seguinte, quando se encontraram na frente do Papa João Paulo II não resistiram e falaram do caso para o Papa. O Papa João Paulo II lhes disse: “Ide correndo e chamai aqui este padre. Quero falar com ele. Mas vão logo. ”O grupo de religiosos visitantes disseram para o Papa: “Santo Padre, como é possível encontrar este pobre mendigo nas estradas de Roma? É quase que uma empreitada impossível de ser realizada”. O Papa, conhecedor dos costumes dos pobres disse: “não é difícil encontra-lo porque pobre não anda muito longe, está sempre mais ou menos no mesmo lugar”.

Foram e depois de algum trabalho encontraram de novo o pobre que era sacerdote. E disseram-lhe: “o Papa te chama. Quer falar com você e nos mandou para que o possamos levar até ele”. O pobre se recusou a ir, não se sentia digno e nem em condição de ver o Papa. E não queria ir. Mas os jovens insistiram tanto que aceitou ir até o Papa. Quando entrou na presença do Papa, o Papa João Paulo II se levantou de sua cadeira e foi ao encontro do sacerdote vestido de mendigo e lhe abraçou com um forte abraço e disse lhe: “meu irmão, eu te devolvo o poder de confessar, o teu sacerdócio. Agora você em confessa”… Este pedido espantou a todos. Deixaram o Papa sozinho com o sacerdote…

Este fato eu ouvi com meus ouvidos e confesso que um grande nó de choro me tomou na garganta e os meus olhos se encheram de lágrimas.

Às vezes a Igreja se tem demonstrado dura e desumana com os irmãos que têm deixado o exercício sacerdotal. Mas este fato me tem feito e obrigado a reconhecer que as leis podem até ser duras e quem sabe é necessário que sejam duras, mas o encontro com as pessoas que erram deve ser cheio de ternura e de misericórdia. Este fato é tão bonito, tão enobrecedor, que na verdade é digno de ser contado para todos os sacerdotes e colocado em todos os boletins de todas as dioceses para que todos os sacerdotes se sintam a animados e encorajados a viver com mais entusiasmo o seu sacerdócio.

Para mim o Papa João Paulo II, com este fato, se ergue como um gigante diante de mim e é sem duvida um grande santo que tem o coração de Cristo. É o momento de abrir os nossos braços e acolher a todos, amar e só amar. Não nos resta mais nada que fazer diante de determinadas situações a não ser amar. Não podia guardar este fato para mim. Eu o ouvi com meus ouvidos da boca de Padre Daniel Ange. E esta alegria é os parabéns que quero dar à madre Igreja e nela a todos o sacerdotes, bispos e especialmente ao Papa pelo dia do sacerdote. O dia do Padre, o amor cura as feridas e redoa a coragem de continuar o caminho. E nunca um sacerdote, seja qual for sua situação, deve perder a esperança no amor infinito de Deus e nunca poderá se esquecer que é “sacerdote in eternum”.

Fonte: http://www.comshalom.org/formacao/exibir.php?form_id=582

Postado em: https://carloslopesshalom.wordpress.com/

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