A PEQUENEZ DE APARECIDA

A pequenez de Aparecida
Padre José Fernandes de Oliveira, SCJ  (Pe. Zezinho)

NOSSASENHORA APARECIDA

A mística da pequenez da qual fala Bento XVI no seu livro “Sal da Terra”, consiste em saber ser pequeno e buscar a profundidade do existir, não no tamanho, nem na quantidade, mas no conteúdo. Penso na teoria do Big Bang que diz que o Universo começou como se fosse uma casca de noz, com um poder de explosão quase infinito. Estaria tudo comprimido numa quase bolinha de pingue-pongue. Inimaginável? Pois não foi exatamente isso que Steve Jobs perseguiu com suas maquinetas cada dia menores, a ponto de caberem na palma da mão e lembrarem uma folha de papel? No entanto, quantos terabytes de informação cabem naqueles minúsculos instrumentos? O mundo persegue, sem o saber, o resumo e a pequenez. Talvez a perfeição esteja mesmo no simples e não no complexo. Vale uma tese!…

Jesus tocou no assunto, quando afirmou que o Reino dos Céus era qual semente de mostarda, quase invisível a olho nu. Mas esconde uma das maiores hortaliças que se conhece. É a pequenez a hospedar milhões de vezes o próprio tamanho… Então não é o tamanho, nem os números vendidos, nem o alarde do marketing que faz uma obra. É sua profundidade e sua capacidade de gerar vida e pensamentos. Pequeno não é o mesmo que óbvio. Dê tempo a ele e verá do quanto ele é capaz.

Agora, falemos de Maria. De mística e de pequenez ela entendeu. Nunca se propôs ser maior do que era. Diz Lucas que ela se proclamou serva admitindo que a bendiriam, mas que a grandeza dela vinha de outra fonte. Maria estava lá, mas raramente apareceu. Os evangelhos falam pouco a seu respeito. Mas o que foi dito marcou. Foi sua biografia compacta. As imagens pequenas de Maria cabem muito bem neste conceito. Fátima é pequena: não chega a um metro. Lurdes é pequena, Guadalupe, Nazaré e Aparecida nenhuma dessas imagens ou pinturas passam de 60 centímetros. São imagens de pequenez.

Como seu filho falara do “pequeno rebanho” e dera um sentido aos “goels” que eram os pequeninos e apequenados da sorte e da política do seu tempo, e, como ele mesmo não veio com pompa e poder, deve haver algo na sua pobreza e na sua proposta de pequenez… Seguidor dele não persegue nem riqueza nem o primeiro lugar…Se as perseguir, é porque deixou de o seguir. A mãe dele permaneceu pequena. Mas Maria, pequena até nas imagens de suas manifestações, tornou-se um grande nome entre nós, não apenas pelo seu ventre que hospedou Jesus, mas também pela sua cabeça pensante que refletia sobre tudo o que se passava. E deve ser por isso que ela cresceu tanto no conceito dos povos…

APARECIDA E RECONSTRUÍDA 

Os devotos que deram a Maria o nome de Aparecida poderiam também tê-la chamado de Nossa Senhora Restaurada, Reencontrada, Refeita ou Reconstruída. Mas como a imagem jogada na lama do rio Paraíba foi reencontrada em pedaços e apareceu numa rede, deram-lhe o nome de Aparecida, não porque Maria apareceu lá, mas porque sua imagem emergiu do esquecimento e da lama.

Hoje podemos dar a ela dezenas de nomes que lembrem uma pequena imagem refeita, limpa, purificada, tirada do quase nada. Se alguém a jogou no lixo do rio é porque não mais servia. Cabeça e tronco não estavam mais juntas. Pode ter sido uma imagem vinda de Portugal ou de alguma outra representação de Maria. O fato é que perdera sua utilidade. Por isso, acabou no rio.

Pequenos e pobres pescadores, sempre eles…, como os que seguiram Jesus na Galiléia deram um jeito na imagem encontrada. Acharam um sentido para a sua descoberta. Hoje, séculos depois, sabemos no que deu. Trata-se de esperança, de fé, de pessoas aflitas a buscar a casa da mãe e, nela, alguma resposta para sua vida. O povo sabe o sentido que dá àquela pequena imagem. Ao colocá-la quase fora do templo, em local de difícil acesso, os líderes da Igreja deixaram claro que não é preciso tocar na imagem restaurada para conseguir restaurar a própria vida. Passem por lá, olhem e depois voltem ao templo e orem e comunguem.

Aparecida tem um altar no centro, um sacrário na mini-igreja ao lado e Maria lá no fundo. É o jeito de dizer que sabemos o lugar da mãe e do Filho e que, de um plano mais alto, ela aponta para aquele centro que é o altar. Os fieis levam a imagenzinha nas mãos e procuram o altar. Em vida ela fez o mesmo: apontou para o filho.

Aprende-se muito em Aparecida, Lurdes, Fátima e Guadalupe. Passa-se pelas imagens, mas não se fica nem se toca nelas. Não é preciso. São para ser pensadas e contempladas. Em Aparecida as palavras são reconstrução, restauração, resgate, reencontro, redescoberta.

Os maiores milagres de Aparecida são espirituais. Nós, padres, o sabemos. Tenho visto poucas pessoas jogarem muletas no chão e saírem triunfantes. É mais templo de oração do que de prodígios. Também não vejo os padres e pregadores a incentivar isto. Mas os confessionários estão sempre cheios. Outra vez, vale a expressão de Romano Guardini, repetida pelo papa Bento XVI: “essencializar a vida”. O que seria o essencial em Aparecida? Penso que aqueles olhares e aquelas conversas de povo simples, dirigidos a Jesus e à sua mãe. O espetáculo de Aparecida e que ali nada é espetacular. Os fiéis não vão lá para ver milagres. Vão lá para orar.

Padre José Fernandes de Oliveira, SCJ  (Pe. Zezinho)

Postado em: https://carloslopesshalom.wordpress.com

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