ORAÇÃO EM LÍNGUAS “UM DOM QUE LEVA OS FIÉIS A GLORIFICAR A DEUS”

Por Dom Alberto Taveira

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Em nome da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sou o Assistente Espiritual do Conselho Nacional da Renovação Carismática Católica, um dos mais significativos Movimentos Eclesiais existentes em nosso tempo. Algumas interrogações me foram feitas por Dom Rafael Llano Cifuentes, Bispo de Nova Friburgo-RJ, proporcionando-me levar ao Conselho Permanente da CNBB alguns esclarecimentos, que podem servir a tantos irmãos e irmãos da RCC ou que desejam conhecê-la mais de perto. Eis o texto escrito que apresentei à 58ª Reunião do Conselho Permanente da CNBB:

Esclarecimentos sobre alguns pontos da RCC

Foi-me pedido para fazer uma breve comunicação a respeito de alguns pontos sobre a Renovação Carismática Católica. Escolhi dois caminhos, sendo o primeiro uma consulta feita aos coordenadores nacionais da RCC, aos quais encaminhei as perguntas feitas, com respostas que me foram apresentadas por Reinaldo Beserra, do Escritório Nacional da RCC e membro do Conselho Internacional da RCC – (ICCRS). Tais respostas correspondem e são plenamente assumidas por mim, por corresponderem ao que penso e às orientações que costumo oferecer à RCC. Em seguida, desejo apresentar algumas propostas.

I – Esclarecimentos solicitados pelo CONSEP, a pedido de Dom Rafael:

1. "Benefícios" da oração em línguas:

Os carismas, sejam extraordinários ou humildes, são graças do Espírito Santo que têm, direta ou indiretamente, uma utilidade eclesial, ordenados como são à edificação da Igreja, ao bem dos homens e às necessidades do mundo." Carismas são "manifestações do Espírito para proveito comum". São dons úteis, instrumentos de ação, para servir à comunidade.

Conceituação:

a) "É um dom de oração cujo valor, enquanto ‘linguagem de louvor’, não depende do fato de que um lingüista possa ou não identificá-lo como linguagem no sentido corrente do termo". É uma linguagem a-conceitual, que se "assemelha" às línguas conceituais. Não supõe absolutamente um estado de "transe" para praticá-la, não corresponde a um estado "extático", e nem a uma exagerada emoção, permanecendo aquele que a pratica no total domínio de si mesmo e de suas emoções, pois o Espírito Santo jamais se apossa de alguém de modo a anular-lhe a personalidade.

b) É um dom que leva os fiéis a glorificar a Deus em uma linguagem não convencional, inspirada pelo Espírito Santo. É uma forma de louvar a Deus e uma real maneira de se falar e se entreter com ele. Quando o homem está de tal maneira repleto do amor de Deus que a própria língua e as demais formas comuns de se expressar se revelam como que insuficientes, dá plena liberdade à inspiração do Espírito, de modo a "falar uma língua" que só Deus entende.

2. O "falar em línguas", consignado nas Escrituras comporta três modalidades:

a) a oração em línguas, de caráter usualmente particular, pessoal, e que portanto não requer interpretação . Embora de caráter pessoal , ela pode ser exercitada também de modo coletivo, o que acontece nas assembléias onde todos exercem o "dom particular de orar em línguas", ao mesmo tempo; obviamente, não supõe interpretação.

No entanto, Deus – que ouve a oração que milhares de fiéis lhe dirigem concomitantemente de todos os cantos da Terra – por certo entende. Vale a intenção que está em nosso coração.

b) Essa oração também pode ser expressa em modalidade de canto, uma oração com uma melodia que não foi pré-estabelecida. Também essa modalidade não requer interpretação. A diferença em relação à modalidade anterior, é que aqui se trata de orar em línguas, mas num ritmo não falado, de expressão e cadência musical, de notas que se sucedem improvisadamente, numa modulação lírica com que se celebra as maravilhas de Deus. São cânticos que brotam geralmente nos momentos de louvor e adoração da assembléia, do grupo de oração, e que pouco tem em comum com os cânticos eclesiásticos tradicionais, ou também com os cantos de "composição artística" .

Santo Agostinho, comentando as palavras do Salmo "Cantai ao Senhor um Cântico novo", adverte que o cântico novo não é coisa "de homens velhos". "Aprendem-no os homens novos, renovados da velhice por meio da graça, pertencentes ao Novo Testamento, que já é o Reino dos Céus. Por ele manifestamos todo o nosso amor e lhe cantamos um canto novo. Quando podes oferecer-lhe tamanha competência que não desagrade a ouvidos tão apurados?… Não busques palavras, como se pudesses dar forma a um canto que agrade a Deus. Canta com júbilo! Que significa cantar com júbilo? Entender sem poder explicar com palavras o que se canta com o coração. Se não podes dizer com tuas palavras, tampouco podes calar-te. Então, resta-te cantar com júbilo, se modo que te entregues a uma alegria sem palavras e a alegria se dilate no júbilo" .

c) Uma terceira modalidade do dom das línguas é aquela de uso essencialmente público, que quando é acompanhado do seu complemento, o dom da interpretação, tem como seu propósito a edificação dos fiéis e a convicção dos descrentes . Aqui o falar em línguas não assume o caráter de  oração, mas de uma mensagem em línguas, dirigida à assembléia e não a Deus, como é o caso da oração, e que portanto requer o exercício do outro dom apontado por Paulo, o dom da interpretação. O Espírito dá a alguém a inspiração de "falar em línguas" em alta voz. Suas palavras contém uma mensagem espiritual para um ou mais ouvintes. A mensagem permanece incompreensível, enquanto não for interpretada . A mensagem interpretada assume, regularmente, as características de uma profecia carismática, que, segundo S. Paulo , edifica, exorta e consola a assembléia. Autores há que, em vista de maior clareza, dão outro nome a esta forma de falar em línguas. Chamam-na de "mensagem em línguas", ou ainda de "profecia em línguas". Em oposição ao "falar em línguas" durante a oração, este dom não está livremente à disposição da pessoa. Exige-se uma inspiração peculiar. Muitas vezes, ela está acompanhada de outra inspiração, a saber, num dos ouvintes que então "interpreta" a mensagem e a traduz em linguagem comum, para a comunidade. O dom de "falar mensagem em línguas" é um dom transitório manifestado vez ou outra nas reuniões de oração; e o Senhor pode servir-se ora deste, ora daquele, enquanto que o dom da interpretação geralmente é considerado permanente; é dom que pode ser pedido na oração.

3. Quando se deve orar em línguas? Só em atos próprios da RCC? Na TV para todos? Pode ser utilizada durante a Santa Missa, como parece ter acontecido na Oração dos fiéis nas missas de TV?

a) Sendo um dom do Espírito e um dom de oração, ele deveria ser permitido onde sempre é permitido orar. Nos atos próprios da RCC, o Documento 53, n. 25 da CNBB, já o levou em consideração.

b) Se a TV está transmitindo um ato próprio da RCC, não é possível "encenar" um comportamento que anule a identidade do Movimento. O exercício do carisma de orar em línguas é parte constitutiva da RCC. De nossa parte – os "carismáticos" – não temos de que nos envergonhar dessa prática, e nem temos nada a esconder. Somos assim. Nossos Grupos de Oração estão sempre com as portas abertas, e qualquer um pode conferir lá o que somos e o que praticamos.

c) Na Santa Missa: Se são missas celebradas em atos específicos da RCC, parece-nos que sim, desde que se exercite essa oração nos momentos ditados pelo bom senso e pela orientação do celebrante, de modo respeitoso, profundamente oracional, não exibitório, especialmente como glorificação a Deus, como expressão de contrição, como petição, e como ação de graças.

d) A RCC tem clara consciência de que a Igreja, durante muito tempo, não se abriu à essa forma de se exercitar os carismas. Por isso ela sabe que, esse reavivamento de perfil pentecostal que se colocou em marcha no último século – especialmente a partir de Helena Guerra, que motivou Leão XIII a escrever uma Encíclica sobre o Espírito Santo, passando por João XXIII, que pediu um novo Pentecostes para a Igreja e a "renovação dos sinais e prodígios da aurora da Igreja", bem como pelo Concílio Vaticano II, onde Deus, providencialmente, lançou as bases e os fundamentos que tornaram possível o surgimento e a fundamentação do Movimento Pentecostal Católico , até João Paulo II, com sua Dominum et Vivificantem, e a inspirada exortação pronunciada na celebração de Pentecostes de 29 de maio de 2004, que dizia: "Desejo que a espiritualidade de Pentecostes se difunda na Igreja como um impulso renovado de oração, santidade, comunhão e anúncio. […] Abram-se com docilidade aos dons do Espírito Santo! Recebam com gratidão e obediência os carismas que o Espírito não cessa de oferecer!" – precisa ser acolhido com abertura de espírito e destemor, mas também com bom senso, com humildade, com respeito pelas diferentes opções de engajamento na pastoral orgânica da Igreja, em absoluta adesão à doutrina da Igreja Católica, não escandalizando por falta de decoro litúrgico ou religioso, dentro da ordem, mas também não deixando de ser fiel à vocação que Deus nos faz, de, nesses tempos, contribuir para "revelar à Igreja aquilo que já lhe é próprio: sua dimensão carismática".

e) No rito do Sacramento da Crisma, ao final da Oração dos fiéis, o Bispo reza: "Ó Deus, que destes o Espírito Santo a vossos apóstolos e quisestes que eles e seus sucessores o transmitissem aos outros fiéis, ouvi com bondade a nossa oração e derramai nos corações de vossos filhos e filhas os dons que distribuístes outrora no início da pregação apostólica".

f) É de se esperar que, recebendo tais dons, possamos exercitá-los, pois "da aceitação desses carismas, mesmo dos mais simples, nasce em favor de cada um dos fiéis o direito e o dever de exerce-los para o bem dos homens e a edificação da Igreja e do mundo, na liberdade do Espírito Santo, que "sopra onde quer" e ao mesmo tempo na comunhão com os irmãos em Cristo, sobretudo com seus pastores, a quem cabe julgar sobre a  autenticidade e o uso dos carismas dentro da ordem, não por certo para extinguirem o Espírito, mas para provarem tudo e reterem o que é bom".

g) "Na lógica da originária doação donde derivam, os dons do Espírito Santo exigem que todos aqueles que os receberam os exerçam para o crescimento de toda a Igreja, como no-lo recorda o Concílio".

4 – Repouso no Espírito:

O Documento 53, no número 65, aborda o tema e diz a respeito: "Em Assembléia, grupos de oração, retiros e outros reuniões evite-se a prática do assim chamado "repouso no Espírito". Essa prática exige maior aprofundamento, estudo e discernimento".

a) O Cardeal Suenens, que escreveu muito sobre a RCC e a apoiou, foi muito cauteloso em relação à prática do repouso no Espírito, recomendando reserva.

b) Pe. Robert De Grandis foi quem muito a divulgou aqui pelo Brasil e tem um livro sobre o assunto.

c) Pe. Antonello, da Arquidiocese de S. Paulo, pratica-o com bastante freqüência e também escreveu sobre o assunto.

d) Não há fundamentação bíblica consistente sobre ele, embora sua prática remonte aos grupos qualificados de entusiastas, especialmente nos grupos de reavivamento nos Estados Unidos entre os séculos XVII e XIX.

e) "O Espírito Santo, ao confiar à Igreja-Comunhão os diversos ministérios, enriquece-a com outros dons especiais, chamados carismas. Podem assumir as mais variadas formas, tanto como expressão da liberdade absoluta do Espírito que os distribui, como em resposta às múltiplas exigências da história da Igreja" . Em muitas ocasiões – especialmente quando praticado em atendimentos pessoais, em clima de oração – , de modo especial em atendimentos de oração por cura interior, essas manifestações se revelam perceptivelmente legítimas, sem componentes de perfil patológico, gerando em quem a experimenta profunda paz e bem estar, com conseqüente reavivamento ou novo compromisso, com os compromissos relativos à fé. Pe. Isaac Isaias Valle, por exemplo, de Porto Feliz, na Arquidiocese de Sorocaba, sacerdote muito estudioso e preparado doutrinariamente, atende as pessoas utilizando-se dessa prática.

f) Em muitas ocasiões – especialmente em grandes encontros – há um visível descontrole emocional da parte de muitos nos quais se manifesta tal fenômeno, chegando-se mesmo a identificáveis casos de histeria, seja por desequilíbrio de cunho psicológico. Como diz João Paulo II, "na verdade, a ação do Espírito Santo, que sopra onde quer, nem sempre é fácil de se descobrir e de se aceitar. Sabemos que Deus atua em todos os fiéis cristãos e estamos conscientes dos benefícios que provém dos carismas, tanto para os indivíduos como para toda a comunidade cristã. Todavia, também temos consciência da força do pecado e as confusões na vida dos fiéis e da comunidade."

g) Assim, não é oportuno incentivar tal prática. Mas há vezes em que, sem que ninguém estimule, ocorre tal manifestação. Então, surge a oportunidade para cumprir o que determina o Documento 53, buscando aprofundar o entendimento sobre a matéria, pela observação com um estudo do caso, até perguntando à pessoa como é que ela está se sentindo, se aquilo lhe gerou paz, se o seu é um histórico sem comprometimentos outros, etc, para chegar a um discernimento sobre as características que possam nos ajudar a identificar a legitimidade do repouso.

5 – Sobre as inspirações particulares: Em geral a liderança da RCC tem tido bastante bom senso no exercício dessas chamadas inspirações, ou moções. Junto com os dons da Palavra de Ciência e a Palavra de Sabedoria, a RCC se esmera em fazer uso do Dom do Discernimento Carismático. Podem ocorrer exageros e afoitas condutas? Claro que sim.

Mas a realidade dos fatos logo "traz para a terra" aqueles espíritos mais atabalhoados, e que agem por impulsos meramente humanos, e de maneira até irresponsável. Na observância dos resultados práticos e dos frutos produzidos por tais inspirações é que a RCC busca aprender a deixar-se conduzir pelo Espírito, que – segundo a Apostolicam Actuositatem – distribui também aos leigos dons e carismas para capacitá-los a anunciar o Reino, com poder . É possível encontrar-se falsas moedas. Mas não vamos, com elas, jogar fora as legítimas, as verdadeiras. Em 2003, o Pontifício Conselho para os Leigos convidou a RCC a dar sua contribuição no Colóquio Internacional sobre a Oração para pedir de Deus a cura, realizado em Roma, sob os auspícios daquele Conselho, reconhecendo nela essa prudência.

II – Propostas:

a) Ao acompanhar a RCC, percebo que existe seriedade, busca de maior conhecimento teológico em suas lideranças e docilidade. Sugiro que a Comissão Episcopal de Doutrina promova um estudo sobre os Carismas e as práticas da RCC,com seus representantes. Pode até surgir uma nova e mais atualizada orientação pastoral.

b) Sugiro que os senhores bispos verifiquem em suas Dioceses os eventuais problemas, proporcionando uma orientação segura, através de um assistente diocesano que possa acompanhar de perto.

c) Nos Congressos Estaduais da RCC, seria muito oportuno que o Bispo do local em que o mesmo se realiza se fizesse presente com a apresentação de um tema de formação.

Penso que "adotando a criança", poderemos orientar melhor e os membros da RCC não se sentirão marginalizados, mas membros vivos das Igrejas particulares.

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A SUCESSÃO APOSTÓLICA

por São Clemente de Roma
Papa de 90 a 100 aproximadamente – Carta aos Coríntios, 42-44

Sucessão apostólica

A sucessão apostólica

Os apóstolos receberam do Senhor Jesus Cristo, para nós, a Boa Nova; Jesus, o Cristo, foi enviado por Deus. O Cristo vem pois de Deus, os apóstolos de Cristo. Estas duas missões procedem ordenadamente da vontade de Deus. Providos de instruções, cheios de segurança pela ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo, reforçados pela palavra de Deus, eles partiram, com a garantia do Espírito Santo, a anunciar que o Reino de Deus estava próximo. Pregavam nos campos e nas cidades, onde estabeleceram as suas primícias, a quem nomearam, com a ajuda do Espírito Santo, bispos e diáconos dos futuros fiéis. […] É de admirar que os homens que Deus investiu de uma tal missão em Cristo tenham, por sua vez, estabelecido os ministros que acabo de invocar? […] Os nossos apóstolos também souberam por nosso Senhor Jesus Cristo que haveria litígios quanto às funções do bispo. Foi essa a razão pela qual, na sua correcta previsão, estabeleceram os ministros acima citados e instituíram que, após a sua morte, outros homens, devidamente provados, lhes sucedessem.

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O SÍMBOLO TAU

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Quando vier o Espírito Santo da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudoo que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras.  (Jo 16,13)

As duas línguas bíblicas originais, hebraico e grego, possuem nos seus alfabetos a letra "Tau" (T). Este sinal gráfico adquiriu ao longo dos séculos conteúdos enigmáticos e ocupou um lugar de destaque na vida e atitudes de São Francisco de Assis, que o usou frequentemente e, mais ainda, tributou-lhe uma espécie de culto.

1 – Emblema e assinatura de São Francisco

O uso do Tau por São Francisco certificado pela testemunha ocular, Frei Tomás de Celano, que assim escreve na sua obra: "…Frei Pacífico começou a ter consolações que nunca tivera. Viu, diversas vezes, coisas que ninguém mais via. Pouco tempo depois, viu São Francisco marcado na fronte com um grande Tau, que tinha a beleza de um pavão, por seus círculos multicores." (2 cel, Nº 106). O sinal do Tau era-lhe preferido acima de todos os outros: ele o utilizava como única assinatura para suas cartas e pintava-lhe a imagem nas paredes de todas as celas.

A escolha do Tau como carimbo e como emblema para a nascente Ordem dos menores indica a importância que São Francisco atribuía a este sinal. Além disso, este costume assumiu rapidamente o aspecto de culto, e isto é um fenômeno revelador, pois desvenda toda a riqueza de uma certa espiritualidade.

A dimensão devocional, quer dizer afetivo e religioso, destacou um outro biógrafo de Francisco: São Boaventura, que fala do uso do sinal em caráter de assinatura: "O tau era um sinal muito querido do Santo. Recomendava-o muitas vezes, fazia-o sobre si mesmo antes de iniciar qualquer trabalho e o escrevia de próprio punho no final das cartas que ele enviava, como se quisesse pôr todo seu empenho em imprimir esse tau, segundo a palavra do profeta (Ez 9,4), sobre a frente daqueles que gemem e choram seus pecados, de todos os verdadeiros convertidos a Cristo Jesus" (Leg. Men. Cap. 2, Nº 9).

Sintetiza-se neste pequeno escrito, ao mesmo tempo simbólico, toda a orientação do apostolado de São Francisco: "Ele mesmo o recomendava muitas vezes por palavras e o escrevia (…), como se sua missão consistisse, conforme a palavra do profeta Ezequiel. Posteriormente explicaremos o que esta frase de Ezequiel possa significar para Francisco."

Para São Francisco o Tau não era apenas a assinatura pessoal. Frei Tomás de Celano informa que o santo usava-o como marco nas portas e muros das celas dos frades. Fazendo-nos pensar no Livro do Êxodo, segundo o qual o sinal da salvação era o sangue do Cordeiro nos portais. Para nós e para São Francisco, o sangue do cordeiro é o sangue do Cristo crucificado que nos remiu.

A informação de Celano, referente às inscrições nas paredes das celas é confirmada pelas descobertas arqueológicas. Durante a renovação da Capela de Santa Madalena, em Fonte Colombo, foi encontrado, na abertura da janela, um Tau pintado em cor vermelha, ao lado do Evangelho. A pintura é dos tempos de São Francisco.

Uma rápida revista a respeito da letra Tau na vida de São Francisco seria incompleta sem mencionar um milagre depois da sua morte, operado por São Francisco. Falam disso a "Legenda Áurea", e Tomás de Celano no "Tratado dos milagres", mostrando o culto do santo para com o "sinal da salvação": "Na cidade de Cori, na diocese de Óstia, um homem tinha perdido completamente o uso da perna, e não conseguia de modo algum caminhar e mover-se. (…) Comovido com tais implorações, lembrando os favores recebidos, apareceu de repente o Santo ao homem, que nem podia dormir. Disse-lhe que veio a seu chamado trazer-lhe remédio para a cura. Tocou a parte doente com uma varinha, que portava sobre si o sinal Tau. Logo se rompeu a úlcera e, recuperada a saúde, ficou impresso naquela parte o sinal do Tau" (nº 159).

2 – Influências diretas

a – O concílio Lateranense IV

Durante o Concílio Ecumênico, realizado em Roma no ano 1215, o papa comunicou a todos os prelados ter concedido a Francisco e aos que quisessem imitá-lo, a aprovação da vida e da Regra evangélica.

É neste mesmo Concílio que aflora o simbolismo do Tau. Inocêncio III inaugura o Concílio com uma fantástica pregação que imediatamente adquire uma larga repercussão. O fio condutor são as palavras de Cristo: "Ardentemente desejei comer esta páscoa convosco" (Lc 22,15). Lembra que "páscoa" significa "passagem" e faz votos que o Concílio, a nova Páscoa, dê início à tríplice "passagem": corporal, espiritual e eterna. A "passagem" corporal seria a armada e a recuperação de Jerusalém; a "passagem" espiritual deveria ser a mudança de um estado de coisas para outra, ou seja a conversão, a reforma da Igreja universal; enfim, a "passagem" eterna significa a passagem para a verdadeira Vida, com o auxílio dos sacramentos, principalmente a Eucaristia.

A Segunda parte da pregação, referente à passagem espiritual, é o enérgico comentário ao capítulo nono do Livro de Ezequiel. O papa faz suas as palavras de Deus ao profeta: "Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na cidade se cometem" (Ez 9,4), e acrescenta: "O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e a sua forma representa a cruz, exatamente tal e qual foi a cruz antes de ser nela afixada a placa com a inscrição de Pilatos. O tau é o sinal que o homem porta na fronte quando com todo o seu ser revela a irradiação da cruz; quando como diz o apóstolo crucifica o corpo com os seus pecados; quando diz: ‘Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo’(…). sejam portanto os mestres desta cruz!"

Assim soava o apelo, o clamor às consciências e corações para a mobilização geral, para a cruzada de conversão e penitência. Francisco acolheu este apelo. O simbolismo do Tau e as suas ligações com Ezequiel foram bem conhecidos de Inocêncio III, como também do povo da época. No seu tratado sobre o sacramento do altar, afirma que a letra Tau é o primeiro sinal no cânon da missa começa com as palavras: "Te igitur" no qual ocupa por desígnio da providência divina e não humana, toda a página, e isto tem um significado simbólico: a inicial que na sua forma gráfica lembra a cruz, é "sinal de penitência e salvação, confiado pelo Senhor ao ministério profético de Ezequiel".

A reação de Francisco à pregação de Inocêncio foi espontânea. Acatou como um apelo dirigido diretamente a ele. O papa dizia: "Alcançarão a misericórdia aqueles que usarem o Tau, sinal da vida penitente e renovada em Cristo". Francisco quis então marcar a si e aos seus frades com este sinal, que com o tempo tornar-se-á a marca da Vocação da ordem.

O tau dará o colorido a toda à espiritualidade de Francisco, que a partir de 1215 mais ainda aparecerá como espiritualidade da cruz e da salvação, o que demonstram, entre outros, as suas orações, principalmente "Ofício da Paixão do Senhor". O Tau da penitência é o tema preferido da sua pregação. Sentia-se interiormente mobilizado pelo papa a esta cruzada.

Queria que os frades propagassem entre o povo a missão da conversão evangélica, isto é, da "passagem de Cristo". O Tau da vida sacramental, principalmente da vida eucarística (terceira parte da pregação do papa Inocêncio) também será objeto das suas preocupações. "Viver em penitência e receber o Corpo e Sangue…" são dois inseparáveis conceitos que frequentemente aparecem nas cartas de Francisco, escritas depois do Concílio. Além disto, as consequências das resoluções conciliares são visíveis em muitos aspectos da vida do Santo. Por exemplo, na "Carta aos clérigos" (redação segunda), versículo 11, que fala do dever de conservar o Santíssimo em lugares dignos e sob chaves, é simplesmente a fiel reprodução do cânon do Concílio.

O Tau é também o sinal dos vitoriosos. Francisco é bem consciente disto. Primeiro prega o Tau e depois reproduz no seu corpo (estigmas) e brilha da alegria que brota do amor é a cruz.

b – Irmãos de Santo Antônio Eremita

A escolha do emblema do Tau por Francisco corresponde à linha de ação traçada pelo Concílio Lateranense. Nesta escolha influiu mais um fato determinante: o encontro de São Francisco com os Irmãos de Santo Antônio Eremita, chamados popularmente de antonianos. Para explicar isto, percorramos um caminho um tanto longo, com cuidado pelos detalhes.

A primeira questão que devemos resolver é: que lugar ocupam os leprosos na vida de Francisco. Os leprosos eram antes de tudo um mistério que Francisco observava e contemplava. O zelo por eles é o elemento constitutivo da sua espiritualidade. Para ele, como para os contemporâneos, o mistério de Cristo leproso era bem familiar e interpretado de várias maneiras: na liturgia (no ofício lia-se o cântico do Servo de Javé segundo o profeta Isaías: "Nós o reputávamos como um castigado" Is 53,4; na arte (escultura, pintura, vitrais apresentavam Cristo com traços de leproso); enfim, a literatura que expunha a famosa lenda se São Juliano Hospitaleiro, carregando nos ombros não o leproso, mas o próprio Cristo.

O fato de São Francisco chamar os leprosos de seus irmãos cristãos, decorre de um profundo e místico conceito. Viu neles o Cristo sofredor. Ele vai mais longe: da contemplação passa para a ação. O "prólogo" da conversão de Francisco é o famoso beijo depositado no rosto de um leproso.

Em Assis havia o leprosário "Casa Gualdi" sob os cuidados dos irmãos cruzados. Francisco permanecia lá e cuidava dos doentes.

Existia um hospital onde Francisco ficou por mais vezes: Hospital de Santo Antônio, em Roma. É esta a igreja que liga Francisco aos antonianos, chamados também de irmãos hospitaleiros, por serem eles os mantenedores deste hospital. A tarefa principal dos antonianos foi cuidar dos doentes, principalmente dos leprosos.

Os antonianos tiveram o símbolo do Tau com emblema, sinal de pertencer à congregação e símbolo da vocação caritativa. Usavam a bengala, que era, na parte superior, em forma de Tau e o hábito no qual era visível este sinal… Alguns historiadores afirmam que os antonianos escolheram este sinal somente porque Santo Antônio Eremita foi representado na escultura com a bengala com uma haste vertical ou com o bastão em forma da letra Tau. A verdade é bem diferente. O culto procedia da iconografia. A aceitação do Tau, semelhança da cruz, está ligada a toda uma mística e atividade caritativa. O fato é que o Tau como símbolo da saúde entrou na consciência e na cultura religiosa do povo há muito tempo. Já em 546, durante uma solene procissão organizada por São Gall, bispo de Clermont, para afastar a peste no sul da França, nos muros de todas as casas e igrejas apareceu o "sinal reconhecido pelo povo como Tau", e a epidemia cessou. O fato é narrado pelo historiador Gregório de Tours, que vivia na época.

No encontro de São Francisco com os antonianos, em 1209-1210, é possível enxergar um importante elemento, ou talvez um primeiro estímulo que provocou no Santo a devoção para com o sinal do Tau. E tudo o que foi dito acima torna compreensível uma das tarefas que Francisco traçou para a sua ordem, isto é o cuidado terno e atento pelos infortunados e doentes: "(todos irmãos) devem estar satisfeitos quando estão no meio dessa gente comum e desprezada, dos pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de rua"(Regra não-bulada, Cap.9).

3 – Influências secundárias

Tendo já conhecido o que significava o Tau para Francisco, aprofundemos agora o sentido místico deste sinal. O esforço da pesquisa terá caráter de um tipo de "penetração" nos caminhos da tradição, sem perder de vista a finalidade principal de reconstruir uma atmosfera espiritual que envolvia São Francisco, reconstruir os elementos do seu universo, perceber, do jeito como ele e seus contemporâneos perceberam, toda a riqueza mística acumulada ao longo dos séculos, relativa ao Tau. Descobriremos conceitos, idéias, representações que perderam para nós a eloquência, enquanto que naquele tempo eram bem familiares. O simbolismo de letras e números era compreensível a todos e era tema largamente explorado pelos pregadores, pela arte e pela literatura.

a – O simbolismo gráfico do Tau

A forma gráfica da letra Tau (T) tornou-se, ao longo dos séculos, a base da teologia da cruz, desenvolvida pelos judeus, Gregos e comentadores latinos.

Para os judeus, a antiga letra "T", em sua grafia primitiva, tinha a forma de cruz: "x" ou "+". A forma da letra, na escrita hebraica, sofria transformações até receber, pouco definida a forma de um pórtico. Contudo, ainda São Gerônimo (+420) sabia que o antigo sinal "T" possuía a forma de uma cruz: "Para os judeus, e também para os Samaritanos, ainda hoje o ‘Tau’, a última letra do alfabeto, tem a mesma forma da cruz que os cristãos marcam nas suas frontes e usam como proteção"(PL 25,88).

Falando em Tau, que para os cristãos lembra a forma da cruz, vale a pena citar as palavras de Cristo antes de ser crucificado: "Se alguém quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mc 8,34). Os apóstolos não podiam interpretar a frase como referência à cruz de Cristo, instrumento de castigo romano. A cruz, da qual fala o Mestre antes de ir para Jerusalém, é simplesmente o sinal da fé (atitude interior da qual a expressão externa é a imagem), quer dizer, do amor e apego à Lei (à Torah, que se inicia com a letra Tau) e sinal de ser de Deus. Somente depois da sua morte as palavras foram interpretadas à luz do sofrimento.

A comunidade cristã assimilou o Tau como cruz, mais ainda: colocou o tau em relação com a cruz de Cristo.

Para os gregos a letra Tau também possuía a forma de cruz. A letra grega ;e formada pelo traço vertical, semelhante a letra iota (i) e pelo traço horizontal chamado "Kereia". Por isto muitas vezes à luz da cruz foram interpretadas as palavras de Jesus: Passarão o céu e a terra, antes que desapareça um Jota, um traço da Lei. (Mt 5,18)

Até para os Gregos descrentes em Cristo o Tau representava a imagem da cruz, naturalmente não a imagem da cruz de Cristo e sim, o instrumento de castigo dos escravos. Explica isto Luciano de Samosta (+200). Os gregos crentes e não-crentes, olhando o Tau, davam-lhe ainda outro significado, desconhecido para nós. Visualmente a letra representa a vela ou o mastro do navio. Não surpreende, então, todo este florescer "náutico" da exegese do Tau. Esta interpretação inspira-se na forma visual do sinal e é permeada da reminiscências da literatura. Recorre nela o fio da "Odisséia", que fala de Ulisses segurando desesperadamente o mastro do navio. Daí nasce a representação da cruz em relação à epopéia nacional dos gregos da cruz como a última "tábua da salvação" durante a tempestade…

Para os latinos a letra Tau não existe, mas todos os comentadores das Escrituras acolheram a tradição anterior. Os Enciclopedistas, temos p.ex. Isidoro de Sevilla (+630), os exegetas e pregadores populares basearam-se, para as suas interpretações, no fato de que a letra hebraica e grega "Tau" possui a forma da cruz.

Estas considerações permitem penetrar mais profundamente na mentalidade religiosa de São Francisco. Quando falava do Tau, ele também pensava na cruz de Cristo. Espontaneamente interpretava o Tau com os seguintes conceitos: sinal e símbolo eficaz da salvação para todos os que desejam ser com ele marcados. Sabia que desta maneira seguia as pegadas de uma longa tradição, a qual ao longo dos séculos anunciava, inclusive através dos escritores não-cristãos, o Cristo Redentor e Vitorioso pela Cruz.

b – O simbolismo numérico do Tau

Tendo conhecido a grafia, a forma do Tau, passamos à aritmética, aos valores numéricos do sinal.

Para compreendermos o simbolismo aritmético, precisamos saber que nem sempre se expressavam os números com os sinais numéricos. Os antigos desconheciam os números que hoje nós usamos com herança dos Árabes. Conheciam apenas o alfabeto, para formar as palavras e para registrar os valores. Aqui está o fundamento daquele cruzamento entre as palavras e os valores numéricos, a sofisticada e enganadora acrobacia praticada pelos discípulos de Pitágoras, tão sensíveis a língua dos números. Vergílios, antes de São João, foi fascinado pelo famoso símbolo numérico 666. Até os mais simples sabiam que as letras do nome de Davi, somadas, significavam o número 14. No nome Iesous, liam 888, e em IN 13, e com tanta rapidez como hoje nós lemos valores de dezenas de milhões. Surgiu até um ramo da ciência que se dedicava a estabelecer as relações entre letras e números, oferecendo as chaves e abrindo as portas para a compreensão das alegorias aritméticas.

No alfabeto grego a letra Tau representava o valor 300. Para os cristãos do círculo da cultura grego-romana, o Tau significava ao mesmo tempo o sinal da salvação e o número 300 que ocorre na Bíblia, espontaneamente trazia à tona o Tau, colocando-o no contexto da salvação ou da vitória. Explicaremos este simbolismo aritmético nos três exemplos.

A Arca de Noé

"Deus disse a Noé: ‘Faze para ti uma arca de madeira resinada (…). E eis como a farás: seu comprimento será de trezentos côvados’". (Gen 6, 4-15)

O fragmento citado tem para muitos comentadores um profundo significado, pois permite construir a "náutica" e a simbólica numérica cristianizadas. Entregam-se, então às complicadas especulações para descobrir o sentido místico dos trezentos côvados. Orígenes explica que a arca é a balsa salvífica que prefigura a cruz salvadora, pois o número 300 é igual a Tau, que é igual a mastro com a raia, que por sua vez é igual a cruz.

Na arca pode ser encontrado, com depois em toda a tradição, o duplo simbolismo, duplo sentido dialético da letra Tau; é ao mesmo tempo sinal de vida e sinal de morte; a vida eterna é dada aos homens pela morte de Deus do homem crucificado no madeiro. Percebemos que São Francisco jamais separou, na sua espiritualidade, Jesus condenado à morte do Cristo "glorioso e bendito pelos séculos". Ainda no início do século XIII, a tradicional interpretação da arca ocorria até na liturgia e assim se perpetuou na mentalidade popular. Sem dúvida, Francisco cantava o seguinte hino litúrgico: "Ligno crucis fabricatur (Arca Noe qua salvatur) Mundus a miseria" Da madeira da cruz foi construída a arca de Noé que as;vará o mundo da miséria (Analecta Mymnica, Leipzig 1890, VIII, 29).

Servos de Abraão

"Abraão, tendo ouvido que Lot, seu parente, ficara prisioneiro, escolheu trezentos e dezoito dos seus melhores e mais corajosos servos, nascidos em sua casa, e foi ao alcance dos reis até Dan." (Gen 14,14)

De que modo o Tau, valor numérico 300, entrou na interpretação dos trezentos e dezoito servos? Prestemos atenção às explicações do Pseudo-Barnaba (+ cerca de 130): "Saibam que a Bíblia, assim transcreve o número 318: INT, que equivale a IN 18 3 T 300. Dezoito como número equivale a IN e assim tens i início do nome de Jesus. A letra Tau, equivalente ao valor 300, anuncia o advento da graça pela cruz. Nas primeiras letras temos alusão a Jesus, na última, à sua cruz ".

Semelhante exposição encontramos entre os latinos, com p.ex. em Ambrósio (+397): os servos de Abraão constituem a figura dos futuros cristãos; seu número prefigura a cruz e o nome de Jesus; a vitória deles é a vitória da Graça, graças à qual foram escolhidos: "Escolha 318 para te ensinar que o que conta não é o número, mas a eleição. E escolhe 318 fiéis que acreditam em Jesus e em sua cruz, porque os 300 fiéis significam a letra grega Tau e 18 representa IN, que quer dizer Jesus".

Nesta ocasião é mister lembrar o culto franciscano do nome de Jesus, paralelo ao culto do Tau. São Francisco, ao culto do Tau, acrescentou o lírico e muito medieval culto do nome salvífico de Jesus: "Os frades que conviveram com ele sabem, que estava todos os dias e continuamente falando sobre Jesus, e como sua conversação era doce, suave, bondosa e cheia de amor (…). possuía a Jesus de muitos modos: levava sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os outros membros. Quantas vezes ao sentar-se para almoçar, ouvindo, falando ou pensando em Jesus, esquecia-se do alimento corporal e, como lemos a respeito de um santo: "Vendo, não via; ouvindo, não ouvia". Este amor pelo nome de Jesus e pela sua forma gráfica, encontra-lo-á dois séculos depois, o mestre, em São Bernadino de Sena. A palavra INS é a mais antiga forma abreviada de Jesus (que se encontra nos manuscritos e nas lápides sepulcrais) é IN, iota e eta, duas primeiras letras do nome de Jesus.

Vemos de modo claro que até os pormenores da história são analisados sob a ótica alegórica. O esforço constante em descobrir o mistério escondido por trás dos números. É uma tradição que Francisco enriquece ao seu modo; é o fluxo de idéias e conceitos que formam o clima do século XIII.

O Tau de Ezequiel

"Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na cidade se cometem" (Ez 9,4).

O que foi dito a respeito deste texto, seja falando do sermão de Inocêncio III, seja da forma da letra Tau, dispensa as longas análises. Não podemos, porém, silenciar o fato de que a interpretação desta visão de Ezequiel está na base de todas as considerações sobre o Tau como sinal de cruz. A fé cristã no Messias sofredor foi predita no Antigo Testamento. Como cristãos, marcados pelo sinal da cruz no Batismo, devemos, pelo sofrimento, tornar-nos imitadores do Cristo crucificado. Assim se expressa São Gerônimo e muitos outros comentadores. O texto do Livro de Ezequiel colorirá toda a tradição, facilitando a passagem do Tau, que é igual a cruz e a cruz, que é igual a 300 o qual por sua vez, é igual a cruz, através do Tau, que é igual a 300.

Os exemplos citados conscientizam-nos que a mística do Tau não é um produto espontâneo da mente de Francisco, mas uma constante herança da longa tradição, original na idade média. Esta mística, emprestada da Igreja grega e absorvida pela Igreja latina, permanecerá como um dos mais queridos temas da exegese alegórica. Daqui podemos ter a certeza de que Francisco mergulhava nela e absorvia seus conteúdos. Todo o clero diocesano e religioso da época estudava a obra de Isidoro de Sevilla, cheios de tesouros de etimologia e alegoria. Mais ou menos era sob o fascínio da "Glosa comum", que o faziam bíblico. Esta obra era a verdadeira base de cada biblioteca. Usava-se os seus textos na pregação. A arte religiosa transformava-a em pinturas e até o mais simples eram capazes de compreender os seus símbolos. Não surpreende, portanto, o fato de que para o entusiasta dotado de fantasia visual que foi Francisco, o mistério da cruz encontrou a iluminadora e dinamizadora expressão, a ajuda na contemplação e o impulso para a ação, até ele mesmo tornar-se um dia, pelos estigmas, a expressão viva do sinal do Tau que tanto amava e ao qual prestava uma verdadeiro culto.

Escola de Formação Shalom

Fonte: http://www.comshalom.org/formacao/exibir.php?form_id=239

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CARTA ENCÍCLICA DIVINUM ILLUD MUNUS

Espírito Santo 1

CARTA ENCÍCLICA DIVINUM ILLUD MUNUS

DO SUMO PONTÍFICE LEÃO XIII

SOBRE A PRESENÇA E VIRTUDE ADMIRÁVEL DO ESPÍRITO SANTO

INTRODUÇÃO

1. Aquela divina missão que, recebida do Pai em benefício do gênero humano, tão santamente desempenhou Jesus Cristo, tem como último fim fazer que os homens cheguem a participar de uma vida bem-aventurada na glória eterna; e, como fim imediato, que durante a vida mortal vivam a vida da graça divina, que ao final se abre florida na vida celestial.

Por isso, o Redentor mesmo não cessa de convidar com suma doçura a todos os homens de toda nação e língua para que venham ao seio de sua Igreja: Venham todos a mim; Eu sou a vida; Eu sou o bom pastor. Mas, segundo seus altíssimos decretos, não quis Ele completar por si só incessantemente na terra tal missão, mas que, como Ele mesmo a tinha recebido do Pai, assim a entregou ao Espírito Santo para que a levasse a perfeito término. Apraz, com efeito, recordar as consoladoras frases que Cristo, pouco antes de abandonar o mundo, pronunciou diante dos Apóstolos:
"Convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo enviarei". (1)

E ao dizer assim, deu como razão principal de sua separação e de sua volta ao Pai o proveito que seus discípulos haveriam de receber com a vinda do Espírito Santo; ao mesmo tempo que mostrava com este era igualmente enviado por Ele e, portanto, que dEle procedia como do Pai; e que com advogado, como consolador e como mestre concluiria a obra por Ele iniciada durante sua vida mortal. A perfeição de sua obra redentora estava providencialmente reservada à múltipla virtude desse Espírito, que na criação adornou os céus (2) e encheu a terra (3).

2. E Nós, que constantemente temos procurado, com o auxílio de Cristo Salvador, príncipe dos pastores e bispo de nossas almas, imitar seus exemplos, temos continuado religiosamente sua mesma missão, encomendada aos Apóstolos, principalmente a Pedro, cuja dignidade também se transmite a um herdeiro menos digno (4). Guiados por esta intenção, em todos os atos de nosso pontificado a duas coisas principalmente temos atendido e sem cessar atendemos. Primeiro, a restaurar a vida cristã tanto na sociedade pública como na familiar, tanto nos governantes como nos povos; porque somente de Cristo pode se derivar a vida para todos. Segundo, a fomentar a reconciliação com a Igreja daqueles que, por causa da fé ou por obediência, estão separados dela; pois a verdadeira vontade do mesmo Cristo é que haja só um rebanho sob um só Pastor. E agora, quando nos sentimos próximos do fim de nossa carreira mortal, apraz consagrar toda nossa obra, qualquer que tenha sido, ao Espírito Santo, que é vida e amor, para que a fecunde e a madure. Para cumprir melhor e mais eficazmente nosso desejo, em vésperas da solenidade de Pentecostes, queremos lhes falar da admirável presença e poder do mesmo Espírito; ou seja, sobre a ação que Ele exerce na Igreja e nas almas graças ao dom de suas graças e carismas celestiais. Resulte disso, como é nosso desejo ardente, que nas almas se reavive e se vigore a fé no augusto mistério da Trindade, e especialmente cresça a devoção ao divino Espírito, a quem de muito são devedores todos quanto seguem o caminho da verdade e da justiça; pois, como assinalou São Basílio, toda a economia divina ao redor do homem, se foi realizada por nosso Salvador e Deus, Jesus Cristo, tem sido levada a cumprimento pela graça do Espírito Santo (5).

O MISTÉRIO DA TRINDADE

3. Antes de entrar na matéria será conveniente e útil tratar algo sobre o mistério da sacrossanta Trindade.

Este mistério, o maior de todos os mistérios, pois de todos é princípio e fim, é chamado pelos doutores sagrados substância do Novo Testamento; para conhecê-lo e contemplá-lo foram criados, no céu os anjos e na terra os homens; para ensinar com maior clareza o que foi prefigurado no Antigo Testamento, Deus mesmo desceu dos anjos aos homens: "Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou" (6).

Assim pois, quem escreve ou fala sobre a Trindade sempre deverá ter em vista o que prudentemente admonesta o Angélico: "Quando se fala da Trindade, convêm fazê-lo com prudência e humildade, pois – como diz Agostinho – em nenhuma outra matéria intelectual é maior o trabalho ou o perigo de equivocar-se ou o fruto uma vez alcançado" (7). Perigo que procede de confundir entre si, na fé ou na piedade, as pessoas divinas ou de multiplicar sua única natureza; pois a fé católica nos ensina a venerar um só Deus na Trindade e a Trindade em um só Deus.

4. Por isso, nosso predecessor Inocêncio XII não atendeu a petição daqueles que solicitavam uma festa especial em honra do Pai. Se existem certos dias festivos para celebrar um dos mistérios do Verbo Encarnado, não existe uma festa própria para celebrar o Verbo tão somente segundo sua natureza; e ainda a mesma solenidade de Pentecostes, já tão antiga, não se refere simplesmente ao Espírito Santo por si, mas que recorda sua vinda ou missão externa. Tudo isso foi prudentemente estabelecido para evitar que ninguém multiplicasse a divina essência, ao distinguir as Pessoas. Mais ainda: a Igreja, a fim de manter em seus filhos a pureza da fé, quis instituir a festa da Santíssima Trindade, que logo João XXII mandou celebrar em todas as partes; permitiu que se dedicassem a este mistério templos e altares e, depois de celestial visão, aprovou uma Ordem religiosa para a redenção dos cativos, em honra da Santíssima Trindade, cujo nome a distinguia.

Convém assinalar que o culto tributado aos Santos e Anjos, à Virgem Mãe de Deus e a Cristo, redunda todo e se termina na Trindade. Nas preces consagradas a uma das três pessoas divinas, também se faz menção das outras; nas litanias, assim que se invoca a cada uma das Pessoas separadamente, se termina por sua invocação comum; todos os salmos e hino tem a mesma doxologia ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; as bênçãos, os ritos, os sacramentos, ou se fazem em nome da Santa Trindade, ou lhes acompanha sua intercessão. Tudo o que já havia anunciado o Apóstolo com aquela frase: "Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém" (8); significando assim a trindade das Pessoas e a unidade de natureza, pois por ser esta uma e idêntica em cada uma das Pessoas, procede que a cada uma se tribute, como a um e mesmo Deus, igual glória e coeterna majestade. Comentando aquelas palavras, diz Santo Agostinho: "Não se interprete confusamente o que o Apóstolo distingue, quando diz "Dele, por ele e para ele"; pois diz "dele" pelo Pai, "por ele" por causa do Filho; "para ele", em relação ao Espírito Santo" (9).

Apropriações

5. Com grande propriedade, a Igreja costuma atribuir ao Pai as obras de poder; ao Filho, as da sabedoria; ao Espírito Santo, as do amor. Não porque todas as perfeições e todas as obras ad extra não sejam comuns às três Pessoas divinas, pois indivisíveis são as obras da Trindade, como indivisa é sua essência (10), porque assim como as três Pessoas divinas são inseparáveis, assim obram inseparavelmente (11); mas que por uma certa relação e como afinidade que existe entre as obras externas e o caráter "próprio" de cada Pessoa, se atribuem a uma melhor que as outras, ou – como dizem – "se apropriam". Assim como da semelhança do vestígio ou imagem existente nas criaturas nos servimos para manifestar as divinas Pessoas, assim fazemos também com os atributos divinos; e a manifestação deduzida dos atributos divinos se diz "apropriação" (12).

Desta maneira, o Pai, que é princípio de toda a Trindade (13), é a causa eficiente de todas as coisas, da Encarnação do Verbo e da santificação das almas: "De Deus são todas as coisas"; "de Deus", por relação ao Pai: o Filho, Verbo e Imagem de Deus, é a causa exemplar pela qual todas as coisas têm forma e beleza, ordem e harmonia, ele, que é caminho, verdade e vida, tem reconciliado o homem com Deus; "por Deus", por relação ao Filho; finalmente, o Espírito Santo é a causa última de todas as coisas, posto que, assim como a vontade e ainda toda coisa descansa em seu fim, assim Ele, que é a bondade e o amor do Pai e do Filho, dá forte impulso forte e suave e como a última mão ao misterioso trabalho de nossa eterna salvação: "em Deus", por relação ao Espírito Santo.

O Espírito Santo e Jesus Cristo

6. Já precisados os atos de fé e de culto devidos à augustíssima Trindade, o qual tudo nunca se inculcará bastante ao povo cristão, nosso discurso agora se dirige a tratar do eficaz poder do Espírito Santo. Antes de tudo, dirijamos um olhar a Cristo, fundador da Igreja e Redentor do gênero humano. Entre todas as obras de Deus ad extra, a maior é, sem dúvida, o mistério da Encarnação do Verbo; nele brilha de tal modo a luz dos divinos atributos, que nem é possível pensar nada superior nem pode haver nada mais saudável para nós. Este grande prodígio, ainda quando realizado por toda a Trindade, sem embargo se atribui como "próprio" ao Espírito Santo, e assim diz o Evangelho que a concepção de Jesus no seio da Virgem foi obra do Espírito Santo (14), e com razão, porque o Espírito Santo é a caridade do Pai e do Filho, e este grande mistério da bondade divina (15), que é a Encarnação, foi devido ao imenso amor de Deus ao homem, como adverte São João: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único". (16) Acrescenta-se que por dito ato a natureza humana foi levantada à união pessoal com o Verbo, não por mérito algum, mas somente por pura graça, que é dom próprio do Espírito Santo: "O admirável modo – diz Santo Agostinho – com que Cristo foi concebido por obra do Espírito Santo, nos dá a entender a bondade de Deus, posto que a natureza humana, sem mérito algum precedente, já no primeiro instante foi unida ao Verbo de Deus em unidade tão perfeita de pessoa que um mesmo fosse de uma vez Filho de Deus e Filho do homem (17).

Por obra do Espírito Divino teve lugar não somente a concepção de Cristo, mas também a santificação de sua alma, chamada unção nos Sagrados Livros (18), e assim é como toda ação sua se realizava sob o influxo do mesmo Espírito (19), que também cooperou de modo especial a seu sacrifício, segundo a frase de São Paulo: "Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus" (20). Depois de tudo isto, já não se estranhará que todos os carismas do Espírito Santo inundassem a alma de Cristo. Posto que nEle houve uma abundância de graça singularmente plena, de maneira maior e com maior eficácia que se pudesse ter; nele, todos os tesouros da sabedoria e da ciência, as graças gratias datas, as virtudes, e plenamente todos os dons, já anunciados nas profecias de Isaías (21), já simbolizados naquela misteriosa pomba aparecida no Jordão, quando Cristo com seu batismo consagrava suas águas para o novo Testamento.

Com razão nota Santo Agostinho que Cristo não recebeu o Espírito Santo tendo já trinta anos, mas que quando foi batizado estava sem pecado e já tinha o Espírito Santo; então, ou seja, no batismos, não fez senão prefigurar o seu corpo místico, ou seja, a Igreja na qual os batizados recebem de modo peculiar o Espírito Santo (22). E assim a aparição sensível do Espírito sobre Cristo e sua ação invisível em sua alma representavam a dupla missão do Espírito Santo, visível na Igreja e invisível na alma dos justos.

O ESPÍRITO SANTO E A IGREJA

Nos Apóstolos, bispos e sacerdotes

7. A Igreja, já concebida e nascida do coração mesmo do segundo Adão na Cruz, se manifestou aos homens pela primeira vez de modo solene no célebre dia de Pentecostes com aquela admirável efusão, que havia sido vaticinada pelo profeta Joel (23); e naquele mesmo dia se iniciava a ação do divino Paráclito no místico corpo de Cristo, pousando sobre os Apóstolos, como novas coroas espirituais, formadas com línguas de fogo, sobre suas cabeças (24)    .

E então os Apóstolos desceram do monte, como escreve o Crisóstomo, não mais levando em suas mãos como Moisés tábuas de pedra, mas o Espírito Santo em sua alma, derramando o tesouro e fonte de verdade e de carismas (25). Assim, certamente se cumpria a última promessa de Cristo a seus Apóstolos, a de lhes enviar o Espírito Santo, para que com sua inspiração completara e de certo modo selar o depósito da revelação: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade" (26). O Espírito Santo, que é espírito da verdade, pois procede do Pai, Verdade eterna, e do Filho, Verdade substancial, recebe de um e outro, juntamente com a essência, toda a verdade que logo comunica à Igreja, assistindo-a para que não erre jamais, e fecundando os germes da revelação até que, no momento oportuno, cheguem à maturidade para a saúde dos povos. E como a Igreja, que é meio de salvação, há de durar até a consumação dos séculos, precisamente o Espírito Santo a alimenta e acrescenta em sua vida e em sua virtude: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco". (27) Pois por Ele são constituídos os bispos, que engendram não só filhos, mas também pais, isto é, sacerdotes, para guiá-la e alimentá-la com aquele mesmo sangue com que foi redimida por Cristo: "O Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue" (28); uns e outros, bispos e sacerdotes, por singular dom do Espírito têm poder de perdoar os pecados, segundo Cristo disse a seus apóstolos: "Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos". (29)

Nas almas

8. Nada confirma tão claramente a divindade da Igreja como o glorioso esplendor de carismas que por todas as partes a circundam, coroa magnífica que ela recebe do Espírito Santo. Baste, por último, saber que se Cristo é a cabeça da Igreja, o Espírito Santo é sua alma: "O que a alma é em nosso corpo, o Espírito Santo é no corpo de Cristo, que é a Igreja" (30). Se é assim, não cabe imaginar nem esperar ainda outra maior e mais abundante manifestação e aparição do Divino Espírito, pois a Igreja tem já o máximo, que há de durar até que, desde o estado da milícia terrena, seja elevada triunfante ao coro feliz da sociedade celestial.

Não menos admirável, ainda que em verdade seja mais difícil de entender, é a ação do Espírito Santo nas almas, que se oculta a todo olhar sensível.

E esta efusão do Espírito é de abundância tanta que o mesmo Cristo, seu doador, a assemelhou a um rio abundantíssimo, como afirma São João: "Quem crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de água viva"; testemunho que glosou o mesmo evangelista dizendo: "Dizia isso, referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele". (31)

No Antigo e no Novo Testamento

9. Certo é que ainda nos mesmos justos do Antigo Testamento já habitou o Espírito Santo, segundo sabemos dos profetas, de Zacarias, do Batista, de Simeão e de Ana; pois não foi no Pentecostes quando o Espírito Santo começou a habitar nos Santos pela primeira vez: naquele dia aumentou seus dons, mostrando-se mais rico e mais abundante em sua generosidade (32). Também aqueles eram filhos de Deus, mas ainda permaneciam na condição de servos, porque tampouco o filho se diferencia do servo, enquanto está sob tutela (33); ainda que a justiça neles não era senão pelos previstos méritos de Cristo, e a comunicação do Espírito Santo depois de Cristo é muito mais copiosa, como a coisa pactuado vence em valor a garantia, e como a realidade excede em muito a sua figura. E por isso assim o afirmou João: "Pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado" (34). Assim que Cristo, ascendendo ao alto, tomou posse de seu reino, conquistado com tanto trabalho, com divina munificência abriu seus tesouros, repartindo aos homens os dons do Espírito Santo (35): "E não é que antes não houvesse sido mandado o Espírito Santo, mas que não havia sido dado como o foi depois da glorificação de Cristo (36). E isto porque a natureza humana é essencialmente serva de Deus: "A criatura é serva, nós somos servos de Deus segundo a natureza" (37); mais ainda: pelo primeiro pecado toda nossa natureza caiu tão abaixo que se tornou inimiga de Deus: "Éramos como os outros, por natureza, verdadeiros objetos da ira (divina)" (38). Não existia força capaz de nos levantar de queda tão grande e nos resgatar da ruína eterna. Mas Deus, que nos criou, se moveu de piedade; e por meio de seu Unigênito restituiu ao homem à nobre altura de onde havia caído, e ainda lhe realçou com mais abundante riqueza de dons. Nenhuma língua pode expressar este trabalho da divina graça nas almas dos homens, pelo que são chamados, nas Sagradas Escrituras e nos escritos dos Padres da Igreja, regenerados, novas criaturas, participantes da divina natureza, filhos de Deus, deificados, e muito mais ainda. Agora bem: benefícios tão grandes propriamente os devemos ao Espírito Santo.

Ele é o Espírito de adoção dos filhos, no qual clamamos: "Abba", "Pai"; inunda os corações com a doçura de seu paternal amor: dá testemunho a nosso espírito de que somos filhos de Deus (39). Para declarar o quão é oportuníssima aquela observação do Angélico, de que tem certa semelhança entre as duas obras do Espírito Santo; posto que pela virtude do Espírito Santo Cristo foi concebido em santidade para ser filho natural de Deus, e os homens são santificados para serem filhos adotivos de Deus (40). E assim, com tão grande nobreza ainda que na ordem natural, a geração espiritual é fruto do Amor incriado.

Nos Sacramentos

10. Esta regeneração e renovação começa para cada um no batismo, sacramento no qual, arrancado da alma o espírito imundo, desce a ela pela primeira vez o Espírito Santo, tornando-a semelhante a si: "O que nasceu do Espírito é espírito" (41). Com mais abundância nos é dado o mesmo Espírito na confirmação, pela qual nos infunde fortaleza e constância para viver como cristãos; é o mesmo Espírito que venceu nos mártires e triunfou nas virgens sobre as bajulações e perigos. Temos dito que "nos é dado o mesmo Espírito": "Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (42). E em verdade, não só nos enche de dons divinos, mas que é autor dos mesmos e ainda Ele mesmo é o dom supremo porque, ao proceder do mútuo amor do Padre e do Filho, com razão é dom do Deus altíssimo. Para melhor entender a natureza e efeitos deste dom, convém recordar quanto, depois das Sagradas Escrituras, ensinaram os doutores sagrados, isto é, que Deus se faz presente em todas as coisas e que está nelas: por potência, enquanto se fazem sujeitas a sua potestade; por presença, enquanto todas estão abertas e patentes a seus olhos; por essência, porque em todas se faz como causa de seu ser (43). Mas na criatura racional se encontra Deus ainda de outra maneira; isto é, enquanto é conhecido e amado, já que segundo natureza é amar o bem, desejá-lo e buscá-lo. Finalmente, Deus, por meio de sua graça, está na alma do justo na forma mais íntima e inefável, como em seu templo; e disso se segue aquele mútuo amor pelo que a alma está intimamente presente a Deus, e está nele mais do que possa suceder entre os amigos mais queridos, e goza dele com a mais agradável doçura.

Na habitação

11. E esta admirável união, que propriamente se chama habitação, e que somente na condição ou estado, mas não na essência, difere-se do que constitui a felicidade no céu, ainda que realmente cumpre-se por obra de toda a Trindade, pela vinda e morada das três Pessoas divinas na alma amante de Deus, "viremos a ele e nele faremos nossa morada" (44), se atribui, sem embargo, como peculiar ao Espírito Santo. E é certo que até entre os ímpios aparecem vestígios do poder e sabedoria divinos; mas da caridade, que é como "nota" própria do Espírito Santo, tão somente o justo participa.

Acrescente-se que a este Espírito se dá o apelativo de Santo, também porque, sendo o primeiro e eterno Amor, nos move e excita a santidade, que em resumo não é senão o amor de Deus. E assim, o Apóstolo, quando chama aos justos ‘templo de Deus’, nunca lhe chama ‘templos do Pai’ ou ‘do Filho’, mas ‘do Espírito Santo’: "Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus?" (45). À habitação do Espírito Santo nas almas justas segue a abundância dos dons celestiais. Assim ensina Santo Tomás: "O Espírito Santo, ao proceder como Amor, procede em razão do dom primeiro; por isto diz Agostinho que, por meio deste dom que é o Espírito Santo, muitos outros dons se distribuem aos membros de Cristo" (46). Entre estes dons estão aqueles ocultos avisos e convites que se fazem sentir na mente e no coração pela moção do Espírito Santo; deles depende o princípio do bom caminho, o progresso nele e a salvação eterna. E posto que estas vozes e inspirações nos chegam bem ocultamente, com toda razão nas Sagradas Escrituras alguma vez se dizem semelhantes ao sussurro do vento; e o Angélico Doutor sabiamente as compara com os movimentos do coração, cuja virtude toda se faz oculta: "O coração tem uma certa influência oculta, e por isso ao coração se compara o Espírito Santo que invisivelmente vivifica a Igreja e a une" (47).

Nos sete dons e nos frutos

12. E o homem justo, que já vive a vida da divina graça e opera por congruentes virtudes, como a alma por suas potências, tem necessidade daqueles sete dons que se chamam próprios do Espírito Santo. Graças a estes a alma se dispõe e se fortalece para seguir mais fácil e prontamente as divinas inspirações: é tanta a eficácia destes dons, que a conduzem ao topo da santidade; e tanta sua excelência, que preservam intactos, ainda que mais perfeitos, no reino celestial. Graças a esses dons, o Espírito Santo nos move e realça a desejar e conseguir as bem-aventuranças evangélicas, que são como flores abertas na primavera, como indício e presságio da eterna bem-aventurança. E muito prazerosos são, finalmente, os frutos enumerados pelo Apóstolo (48) que o Espírito Santo produz e comunica aos homens justos, ainda durante a vida mortal, cheios de toda doçura e gozo, pois são do Espírito Santo que na Trindade é o amor do Pai e do Filho que enche de infinita doçura as criaturas todas (49).

E assim o Divino Espírito, que procede do Pai e do Filho na eterna luz de santidade como amor e como dom, depois de ter-se manifestado através de imagens no Antigo Testamento, derrama a abundância de seus dons em Cristo e em seu corpo místico, a Igreja; e com sua graça e saudável presença levanta os homens dos caminhos do mal, transformando-lhes de terrenas e pecadores em criaturas espirituais e quase celestiais. Pois tantos e tão assinalados são os benefícios recebidos da bondade do Espírito Santo, a gratidão nos obriga a voltar-nos a Ele, cheios de amor e devoção.

EXORTAÇÕES

Fomente-se o conhecimento e amor do Espírito Santo

13. Seguramente farão isto muito bem e perfeitamente os homens cristãos se cada dia se empenharem mais em conhecê-lo, amá-lo e lhe suplicar; a esse fim tem esta exortação dirigida aos mesmos, tal como surge espontânea de nosso paternal ânimo.

Acaso não faltem em nossos dias alguns que, ao serem interrogados como em outro tempo foram alguns por São Paulo "se haviam recebido o Espírito Santo", responderiam por sua vez: "Não, nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!" (50). Que se a tanto não chega a ignorância, em uma grande parte deles é muito escasso seu conhecimento sobre Ele; talvez até com freqüência tem seu nome nos lábios, enquanto sua fé está cheia de crassas trevas. Recordem, pois, os pregadores e párocos que lhes pertencem ensinar com diligência e claramente ao povo a doutrina católica sobre o Espírito Santo, mas evitando as questões árduas e sutis e fugindo da néscia curiosidade que presume indagar os segredos todos de Deus. Cuidem recordar e explicar claramente os muitos e grandes benefícios que do Divino Doador nos vêm constantemente, de forma que sobre coisas tão altas desapareça o erro e a ignorância, impróprios dos filhos da luz. Insistimos nisto não só por tratar-se de um mistério, que diretamente nos prepara para a vida eterna e que, por isso, é necessário crer firme e expressamente, mas também porque, quanto mais clara e plenamente se conhece o bem, mais intensamente se quer e se ama. Isto é o que agora queremos lhes recomendar: Devemos amar o Espírito Santo, porque é Deus: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças" (51). E há de ser amado, porque é o Amor substancial eterno e primeiro, e não há coisa mais amável que o amor; e depois tanto mais lhe devemos amar quanto que nos tenha enchido de imensos benefícios que, se atestam a benevolência do doador, exigem a gratidão da alma que os recebe. Amor este que tem uma dupla utilidade, certamente não pequena. Primeiramente nos obriga a ter nesta vida um conhecimento cada dia mais claro do Espírito Santo: O que ama, diz Santo Tomás, não se contenta com um conhecimento superficial do amado, mas se esforça por conhecer uma das coisas que lhe pertencem intrinsecamente, e assim entra em seu interior, como do Espírito Santo, que é amor de Deus, se diz que examina até o profundo de Deus (52). Em segundo lugar, que será maior ainda a abundância de seus dons celestiais, pois como a frieza faz fechar a mão do doador, o agradecimento a faz alargar-se. E cuide-se bem de que dito amor não se limite a áridas disquisições ou a externos atos religiosos; porque deve ser operante, fugindo do pecado, que é especial ofensa contra o Espírito Santo. Quanto somos e temos, tudo é dom da divina bondade que corresponde como própria ao Espírito Santo; sem dúvida o pecador o ofende ao mesmo tempo que recebe seus benefícios, e abusa de seus dons para ofender-lhe, ao mesmo tempo que, porque é bom, se levanta contra Ele multiplicando incessantemente suas culpas.

Não o entristeçamos

14. Acrescente-se, ademais, que, então o "Espírito Santo é espírito de verdade", se alguém falta por debilidade ou ignorância, talvez tenha alguma desculpa diante do tribunal de Deus; mas aquele que por malícia se opõe à verdade ou a evita, comete gravíssimo pecado contra o Espírito Santo. Pecado tão freqüente em nossa época que parecem ter chegado os tristes tempos descritos por São Paulo, nos quais, obcecados os homens por justo juízo de Deus, reputam como verdadeiras as coisas falsas, e ao príncipe deste mundo, que é mentiroso e pai da mentira, o crêem como mestre da verdade: "Por isso, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro" (53): "O Espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros e a doutrinas diabólicas" (54): E já que o Espírito Santo, segundo temos dito antes, habita em nós como em seu templo, repitamos com o Apóstolo: "Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção" (55). Para isto não basta fugir de tudo que é imundo, mas que o homem cristão deve resplandecer em toda virtude, especialmente em pureza e santidade, para não desagradar a tão grande hóspede, posto que a pureza e a santidade são próprias do templo. Por isso exclama o mesmo Apóstolo: "Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado – e isto sois vós" (56); tremenda ameaça, porém justíssima.

Peçamos o Espírito Santo

15. Por último, convêm rogar e pedir ao Espírito Santo, cujo auxílio e proteção todos necessitamos em extremo. Somos pobres, débeis, atribulados, inclinados ao mal: então recorramos a Ele, fonte inesgotável de luz, de consolo e de graça. Sobretudo, devemos lhe pedir perdão dos pecados, que tão necessário nos é, posto que é o Espírito Santo dom do Pai e do Filho, e os pecadores são perdoados por meio do Espírito Santo como por dom de Deus (57), o qual se proclama expressamente na liturgia quando ao Espírito Santo lhe chama remissão de todos os pecados (58).

Qual seja a maneira conveniente para invocá-lo, aprendamo-la da Igreja, que suplicante se volve ao mesmo Espírito Santo e o chama com os nomes mais doces de pai dos pobres, doador dos dons, luz dos corações, consolador benéfico, hóspede da alma, aura de refrigério; e lhe suplica encarecidamente que limpe, cure e regue nossas mentes e nossos corações, e que conceda a todos os que nEle confiamos o prêmio da virtude, o feliz final da vida presente, o perene gozo na futura. Nem cabe pensar que essas preces não sejam escutadas por aquele de quem lemos que roga por nós com gemidos inefáveis (59). Em resumo, devemos suplicar-lhe com confiança e constância para que diariamente nos ilustre mais e mais com sua luz e nos inflame com sua caridade, dispondo-nos assim pela fé e pelo amor a que trabalhemos com denodo para adquirir os prêmios eternos, posto que Ele é a garantia de nossa herança (60).

Novena do Espírito Santo

16. Vede, veneráveis irmãos, os avisos e exortações nossas sobre a devoção ao Espírito Santo, e não duvidamos que por virtude principalmente de vosso trabalho e solicitude, se produzirão saudáveis frutos no povo cristão. Certo que jamais faltará nossa obra em coisa de tão grande importância; mais ainda, temos a intenção de fomentar esse tão belo sentimento de piedade por aqueles modos que julgaremos mais convenientes a tal fim. Entretanto, posto que Nós, há dois anos, por meio do breve Provida Matris, recomendamos aos católicos para a solenidade de Pentecostes algumas orações especiais a fim de suplicar pelo cumprimento da unidade cristã, nos apraz agora acrescentar aqui algo a mais. Decretamos, portanto, e mandamos que em todo mundo católico neste ano, e sempre no porvir, à festa de Pentecostes preceda a novena em todas as igrejas paroquiais e também ainda nos demais templos e oratórios, a juízo dos Ordinários.

Concedemos a indulgência de sete anos e outras tantas quarentenas por cada dia a todos os que assistirem a novena e orarem segundo nossa intenção, acrescida da indulgência plenária em um dia de novena, ou na festa de Pentecostes e ainda dentro da oitava, sempre que confessados e comungados orarem segundo nossa intenção. Queremos igualmente também que gozem de tais benefícios todos aqueles que, legitimamente impedidos, não possam assistir aos ditos cultos públicos, e isto ainda nos lugares onde não puderem celebrar-se comodamente – a juízo do Ordinário – no templo, com tal que privadamente façam a novena e cumpram as demais obras e condições prescritas. E nos apraz acrescentar do tesouro da Igreja que possam lucrar novamente uma e outra indulgência todos os que em privado ou em público renovem segundo sua própria devoção algumas orações ao Espírito Santo cada dia da oitava de Pentecostes até a festa inclusive da Santíssima Trindade, sempre que cumpram as demais condições acima indicadas. Todas essas indulgências são aplicáveis também ainda às benditas almas do Purgatório.

O Espírito Santo e a Virgem Maria

17. E agora nosso pensamento se volta aonde começou, a fim de obter do divino Espírito, com incessantes orações seu cumprimento. Uni, pois, veneráveis irmãos, a nossas orações também as vossas, assim como as de todos os fiéis, interpondo a poderosa e eficaz mediação da Santíssima Virgem. Bem sabeis quão íntimas e inefáveis relações existem entre ela e o Espírito Santo, visto que é sua Esposa imaculada. A Virgem cooperou com sua oração muitíssimo assim ao mistério da Encarnação como à vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos. Que Ela continue, pois, realçando com seu patrocínio nossas comuns orações, para que no meio das aflitas nações se renovem os divinos prodígios do Espírito Santo, celebrados já pelo profeta Davi: "Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra" (61).

Dado em Roma, junto a São Pedro, no dia 9 de maio de 1897, vigésimo de nosso pontificado.

Notas

1. Jn 16,7.

2. Job 26,13.

3. Sab 1,7.

4. S. León M., Sermo 2 in anniv. ass. suae.

5. De Spiritu Sancto 16,39.

6. Jn 1,18.

7. I q.31 a.2; De Trin. 1,3.

8. Rom 11,36.

9. De Trin. 6 10; 1,6.

10.S. Agustín, De Trin., 1,4 y 5.

11. S. Agustín, ibíd.

12. S. Th., I q.39 a.7.

13. S. Agustín, De Trin. 4,20.

14. Mt 1,18.20.

15. 1 Tim 3,16.

16. Jn 3,16.

17. Enchir. 30. S. Thom., II q.32 a.l.

18. Hech 10,38.

19. S. Basil., De Sp. S. 16.

20. Heb 9,14.

21. 4,1; 11,2.3.

22. De Trin. 15,26.

23. 2,28.29.

24 Cir. Hierosol., Catech. 17.

25. In Mat, hom.l; 2 Cor 3,3.

26. Jn 16,12.13.

27. Ibíd. 14.16,17.

28. Hech 20,28.

29. Jn 20,22.23.

30. S. Agustín, Serm. 187 de temp.

31. 7,38.39.

32. S. León M., Hom. 3 de Pentec.

33. Gál 4,1.2.

34. 7,39.

35 Ef 4,8.

36, Agustín, De Trin. 1,4, c.20.

37. S. Cir. Alex., Thesam. 1,5, c.5.

38. Ef 2,3.

39. Rom 8,15.16.

40. III q.32, a.l

41. Jn 3,7.

42. Rom 5,5.

43. S. Th., I q.8, a.3.

44. Jn 14,23.

45. 1 Cor 6,19.

46. I q.38, a.2. S. Agustín, De Trin. 15,19.

47. II q.8, a.l.

48. Gál v.22.

49. S. Agustín, De Trin. 5,9.

50. Hech 19,2

51. Deut 6,5.

52. 1 Cor 2,10; I-II q.28, a.2.

53. 2 Tes 2,10.

54. 1 Tim 4,1

55. Ef 4,30.

56.1 Cor 3, 16, I 7.

57. S. Th. III q.3, a.8 ad 3.

58. In Miss. Rom. fer. 3 post Pent.

59. Rom 8,26.

60. Ef 1,14.

61. Sal 103,30.

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ORAÇÃO PARA ALCANÇAR OS SETE DONS

Fonte: http://a-grande-guerra.blogspot.com/2011/09/oracao-para-alcancar-os-sete-dons-e-os.html

Espírito Santo_Dons

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis, e acendei neles o fogo do Vosso amor!

Ó Espírito Santo, concedei-me o dom do temor de Deus, para que eu sempre me lembre com suma reverência e profundo respeito da Vossa divina presença, trema, como os mesmos Anjos, diante de Vossa divina Majestade, e nada receie tanto como desagradar aos Vossos santos olhos.

Ave-Maria…

Espírito Santo, concedei-me o dom da piedade, que me tornará delicioso o trato conVosco na oração, e me fará amar a Deus com íntimo amor, como a meu Pai, a Maria Santíssima como a minha Mãe e a todos os homens como meus irmãos em Jesus Cristo.

Ave-Maria…


Espírito Santo, concedei-me o dom da ciência, para que eu conheça cada vez mais a minha própria miséria e fraqueza, a beleza da virtude e o valor inestimável da alma, e para que sempre veja claramente as ciladas do demônio, da carne e do mundo, para poder evitá-las.

Ave-Maria…


Espírito Santo, concedei-me o dom da fortaleza, para que eu, sem respeito humano, fuja do pecado, pratique a virtude com fervor, e sofra com paciência e com alegria de espírito os desprezos, prejuízos, perseguições e a própria morte, antes que renegar por palavras ou por obra ao meu amabilíssimo Senhor e Salvador, Jesus Cristo.

Ave-Maria…


Espírito Santo, concedei-me o dom do conselho, tão necessário em tantos passos melindrosos da vida, para que sempre escolha o que mais Vos agrada, siga em tudo a Vossa divina graça, e com bons e caridosos conselhos socorra ao próximo.

Ave-Maria…


Espírito Santo, concedei-me o dom do entendimento, para que eu, iluminado pela luz celeste de Vossa graça, bem entenda as sublimes verdades da doutrina cristã e saiba defendê-las.

Ave-Maria…


Espírito Santo, concedei-me o dom da sabedoria, a fim de que eu cada vez mais goste das coisas divinas e, abrasado no fogo do Vosso amor, prefira com alegria o caminho do Céu a tudo que é mundano, e me una para sempre a Jesus, sofrendo tudo neste mundo por Seu amor.

Ave-Maria…


Vinde, Espírito Criador, visitai-me e, com a Vossa divina graça, enchei o meu coração, que Vós criastes. Vinde e repousai sobre mim, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, Espírito de ciência, piedade e temor de Deus.

Espírito Santo, Amor eterno do Pai e do Filho, dignai-Vos também conceder-me os Vossos doze frutos: o fruto da caridade, que me una intimamente conVosco pelo amor; o fruto da alegria, que me encha de santa consolação; o fruto da paz, que produza em mim a tranqüilidade da alma; o fruto da paciência, que me faça sofrer tudo por amor de Jesus e Maria; o fruto da benignidade, que me leve a socorrer de boa vontade aos que sofrem; o fruto da bondade, que me torne benfazejo e clemente a todos; o fruto da longanimidade, que me faça esperar com paciência em qualquer demora; o fruto da brandura, que me faça suportar com toda a mansidão as fraquezas do próximo; o fruto da , que me faça crer firmemente na doutrina da Santa Igreja; o fruto da modéstia, que regule todo o meu exterior; enfim, os frutos da continência e castidade, que me tornem o coração limpo e imaculado.

Espírito Divino, fazei com que a minha alma seja para sempre Vossa morada e o meu corpo, Vosso sagrado templo. Habitai em mim e ficai comigo na terra, para que eu mereça ver-Vos eternamente no reino da glória. Amém.

(Retirado do livro "Adoremus: Manual de Orações e Exercícios Piedosos", de Dom Eduardo Herberhold, OFM, 1926, 15ª edição)

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