O PROCESSO DE GALILEU

“O senhor nada pode quanto a isso, Sr. Sarsi; foi-me dado, a mim somente, descobrir todos os novos fenômenos do céu, e nada ficou para os outros. Tal é a verdade, que nem a malícia nem a inveja poderão abafar.” (Galileu Galilei)

O PROCESSO DE GALILEU

George Salet

O presente artigo foi solicitado pela revista De Rome et d’Ailleurs, de Paris, ao professor George Salet, professor de Mecânica dos Sólidos Deformáveis de diversos institutos de ciência e de engenharia da França. O prof. Salet é autor de um livro* em que a falência do conceito de evolução biológica é demonstrada pelas descobertas dos biólogos entre 1953 e 1960, os quais definitivamente eliminaram essa noção como explicação do aparecimento da vida.

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SUMÁRIO

I — Generalidades

II — O papel dos homens da Igreja na edificação da ciência moderna

III — A posição da Igreja

IV — Quem era Galileu?

V — As pretensas provas de Galileu

VI — Belarmino, Urbano VIII, Galileu e o método científico

I — GENERALIDADES

Não se pode proferir um julgamento equilibrado sobre essa deplorável questão se não se evocam os dois pontos seguintes:

1) No início do séc. XVII, nem Galileu nem ninguém tinha condições de produzir uma prova qualquer do movimento da Terra. Este movimento colidia até com uma dificuldade científica que fez recuar o grande astrônomo Tyche-Brahe: a ausência de qualquer paralaxe estelar[1].

A atual concepção cosmológica só se tornou bastante provável quando NEWTON, no início do século XVIII, estabeleceu as leis da Mecânica, de que resulta que nem o Sol nem a Terra são imóveis, mas o centro de gravidade do sistema solar é que é imóvel[2].

As verdadeiras provas do movimento da Terra, isto é, as provas experimentais diretas, só mais tarde foram apresentadas. BRADLEY descobriu, em 1721, um fenômeno que ele não compreendeu muito bem, e que denominou, por isso, “aberração das estrelas fixas” (o nome ficou). Ele percebeu em seguida que havia apresentado a prova de que a Terra descrevia anualmente uma órbita, cujo diâmetro é igual ao percurso da luz em cerca de 17 minutos.

Em 1851, FOUCAULT pôs em evidência a rotação da Terra em torno de si mesma por uma experiência célebre e pública, na qual o plano de oscilação de um pêndulo dava uma volta completa em 24/sen L horas, sendo L a latitude do lugar (logo em 24 horas no Pólo, como era de esperar)[3].

2) A segunda coisa que não deve esquecer-se é que, nessa época, a filosofia de Aristóteles, revista e corrigida por Santo Tomás de Aquino, a física de Aristóteles e a teologia católica pareciam, a muitos, constituir um só bloco.

Os peripatéticos[4] eram poderosos nas universidades, e, desde S. Tomás, Aristóteles tornara-se uma espécie de Padre da Igreja, a ponto de o fato de pô-lo em dúvida parecer a muitos questionar a doutrina católica. Infelizmente, a física e a astronomia de Aristóteles não estavam à altura de sua filosofia[5]. Ele ensinara, entre outros, dois erros estreitamente ligados entre si:

a) Os corpos celestes possuem natureza diferente da das corpos terrestres e não obedecem às mesmas leis. Eles são “incorruptíveis”, enquanto os corpos “sublunares” são corruptíveis.

b) A Terra é imóvel, no centro do Mundo.

Se Galileu, como veremos mais pormenorizadamente, jamais trouxe em favor do movimento da Terra senão argumentos especiosos, deve-se, em compensação, louvá-lo por ter contribuído para a demolição do dogma da incorruptibilidade dos corpos celestes, mostrando, com a ajuda da luneta astronômica inventada em sua época, que as manchas do Sol são defeitos do astro e não pequenos planetas vizinhos, e que a Lua, como a Terra, possui montanhas. E os peripatéticos não se deixaram enganar, porque alguns deles, por despeito, se recusaram a olhar através da luneta! Galileu contribuiu, portanto, para a ruína do geocentrismo, mas somente de maneira indireta.

A ATITUDE DA IGREJA

A despeito dos peripatéticos, que se julgavam mais católicos que o Papa, a Igreja, como veremos, jamais mostrara, até Galileu, nenhuma hostilidade às idéias cosmológicas. Essas idéias tinham sido sustentadas, ademais, por padres e bispos, antes do caso Galileu.

É fora de dúvida que as intrigas dos peripatéticos desempenharam papel importante na condenação de Galileu, mas o primeiro e maior responsável por sua condenação foi o próprio Galileu. Que o leitor reflita bem no seguinte:

— Em 1613, Galileu em sua “Carta referente às manchas solares” toma publicamente posição em favor do movimento da Terra. Ele é felicitado pelos Cardeais Borromeu e Barberini, o futuro Urbano VIII[6].

— Em 5 de março de 1616, a Congregação do Índex, num decreto apresentado in forma communi, suspende o livro de COPÉRNICO, que viera a lume 73 anos antes, até que lhe façam algumas correções insignificantes, o que foi feito. Em compensação, ela condena um livro do Pe. Foscarini que trata do movimento da Terra misturando a Sagrada Escritura com a questão. Galileu não é citado.

— Em 28 de agosto de 1620, o cardeal BARBERINI, o futuro Urbano VIII, endereça a Galileu o “Adulatio Perniciosa”, poema composto em sua honra[7].

— Em 1624, o Cardeal BARBERINI é eleito Papa. Galileu vai a Roma, onde tem seis encontros com Urbano VIII. Ele retorna com uma pensão para seu filho, um quadro precioso, uma medalha de ouro e prata e uma carta de apresentação para o novo Grão-Duque de Toscana, na qual Urbano VIII exalta as virtudes de Galileu, “esse grande homem cuja reputação brilha nos céus e se estende por toda a Terra”[8].

— Em 1633, Urbano VIII acusa Galileu perante o Santo Ofício, que o condena à prisão perpétua (pena que jamais foi executada).

Assim, Urbano VIII, que sabia muito bem que Galileu sustentava o movimento da Terra desde 1613, felicita-o em 1624, após, portanto, o decreto de 1616, e depois propõe sua condenação, em 1633.

Que ocorreu? Antes de explicar o fato, abriremos um parêntese importante.

II — O PAPEL DOS HOMENS DA IGREJA NA EDIFICAÇÃO DA CIÊNCIA MODERNA

Ainda que geralmente ligados à filosofia de Aristóteles, nem todos os homens da Igreja aceitavam docilmente sua física e o geocentrismo. E, contrariamente a uma lenda teimosa que lança à Igreja a pecha de obscurantismo, foram os homens da Igreja que, muito antes de Galileu, desempenharam papel de primeira plana na edificação da ciência moderna.

Citarei quatro nomes, todos anteriores a Galileu, cuja penetração foi, como veremos, muito superior à de Galileu:

— Jean BURIDAN, Cônego de Arras em 1342;

— Nicolau de CUSA, Bispo de Brixen (Tirol) em 1450;

— Nicolau ORESME, Bispo de Lisieux em 1377;

— Nicolau COPÉRNICO, Cônego de Friburgo (1472-1543).

Veremos mais adiante a contribuição dos dois primeiros à questão do princípio de inércia, que está estreitamente ligado ao movimento da Terra. Vejamos o trabalho dos dois últimos.

ORESME, Bispo de Lisieux (1330-1382)

Houve, em todas as épocas, pensadores que afirmaram o movimento da Terra, notadamente Pitágoras e Aristarco, muito antes de Jesus Cristo.

O Cônego COPÉRNICO, que morreu 21 anos antes do nascimento de Galileu, é freqüentemente considerado o inventor da idéia do movimento da Terra, mas ele teve predecessores dentro da própria Igreja, e notadamente, no século XIV, ORESME, bispo de Lisieux. Em seu Tratado do Céu e do Mundo, obra escrita em francês e não em latim, a pedido expresso do Rei Carlos V[9], discute e reduz a nada as objeções de Aristóteles e, numa intuição estupenda, descreve muito exatamente o que viram efetivamente os astronautas americanos quando, da Lua, contemplaram o nosso planeta.

Oresme refuta sete argumentos em moda à sua época contra a rotação da Terra, e escreve desassombradamente:

1º) “É mais racional pensar que cada corpo e cada elemento do Mundo, excetuado o Céu, está animado em seu lugar natural de um movimento de rotação.”

2°) “O movimento de rotação da Terra é um movimento natural.”

[…]

5º) “Todas as visadas, todas as conjunções, todas as oposições, constelações e influências do Céu permanecem imutadas, quando se supõe que o movimento do Céu não é senão aparente e o da Terra o verdadeiro.”[10]

Oresme rejeita as objeções extraídas da Sagrada Escritura, dizendo o que Leão XIII ensinará oficialmente cinco séculos mais tarde na encíclica Providentissimus:

“Quanto à Sagrada Escritura, que diz que o Sol gira etc., poderá dizer-se que ela se conforma, nesta parte, com a maneira do comum falar humano, como ela o faz em vários lugares, como onde está escrito que Deus se arrependeu e se irou e repousou e outras coisas que não são como soa a palavra”[11].

Nossos modernos anuários astronômicos dão as horas do “nascer”, do “pôr” e da “passagem pelo meridiano” dos corpos celestes, e ninguém pretendeu que eles ensinassem por isso a realidade do movimento aparente dos astros. Oresme prossegue:

“Na hipótese da fixidez da Terra, as estrelas atingiriam velocidades inadmissíveis”[12].

E ele conclui finalmente que tais considerações “são benéficas para a defesa de nossa fé”.

Longe de incorrer nas condenações papais, Oresme, após os seus trabalhos, foi nomeado bispo de Lisieux[13].

COPÉRNICO

Talvez seja bom lembrar que Copérnico era Cônego da Santa Igreja e que jamais teve sombra de dificuldade com as autoridades religiosas. Ao contrário, foi convidado em 1514, com outros astrônomos e matemáticos, a tomar parte no Concílio de Latrão encarregado da reforma do Calendário, mas declinou do convite[14].

Em 1532, o secretário particular do Papa proferiu, diante de seleto auditório e nos jardins do Vaticano, uma lição sobre o sistema de Copérnico, que foi acolhido com entusiasmo[15].

Temendo reações desfavoráveis, Copérnico contentou-se em fazer circular entre o mundo sábio um manuscrito: Commentariolus, que despertou imenso interesse. E é um alto prelado — o Cardeal Schoenberg — que ocupou um cargo de confiança sob três Papas, que o levou a imprimir, por intermédio de uma carta que Copérnico reproduziu em sua obra, seu De revolutionibus orbium coelestium, que finalmente apareceu em 1543, ano de sua morte.

A Igreja não levantou objeções a esta obra, dedicada ao Papa Paulo III.

Em 1614, 71 anos após a morte do Cônego, um religioso em um sermão atacou Copérnico e Galileu. Tendo-se queixado este último ao Geral da Ordem dos Irmãos Pregadores, dele recebeu uma carta de desculpas onde o Geral dizia expressamente:

“Infelizmente preciso responder por todas as idiotices que fazem ou podem fazer trinta ou quarenta mil Irmãos!”[16]

Sustenta-se freqüentemente que esta ausência de oposição à obra de Copérnico é devida ao prefácio que o Editor, OSIANDER, redigiu (sem o consentimento de Copérnico, ao que parece) e que declarava expressamente que o autor falava hipoteticamente. Isso contradiz formalmente a dedicatória a Paulo III, onde Copérnico declarava:

“Perguntei a mim mesmo se devia publicar essas reflexões escritas para provar o movimento da Terra.”

De fato, Copérnico, do mesmo modo que Galileu, nada havia provado, mas isso assegura que ele jamais ocultou que, em seu espírito, o movimento da Terra não era somente uma hipótese, mas uma realidade.

Veremos, no entanto, por que, a despeito do prefácio de Osiander e do erro de Galileu, a obra de Copérnico foi colocada no Índex 73 anos após a sua morte. Entretanto, ela foi, logo após, dele retirada, depois que lhe fizeram, a pedido do Santo Ofício, algumas modificações insignificantes.

O CÔNEGO BURIDAN E O BISPO DE CUSA

Cito dois homens da Igreja porque eles contradisseram a filosofia peripatética em um ponto muito importante que está em relação com o movimento da Terra. Foram eles, com efeito, e não Galileu, que formularam um princípio fundamental da Mecânica moderna: o princípio de inércia, não em sua forma totalmente correta, que devemos a Descartes, mas numa forma suficiente para constituir uma verdadeira revolução.

O princípio de inércia

Se o cavalo pára de puxar a carroça, esta pára. Donde este erro de Aristóteles, que persistiu durante cerca de 20 séculos: todo móvel pára desde que desapareça a força que o solicita. Certamente, é exato que é preciso uma força para pôr um corpo em movimento, mas sabemos agora que, na ausência de qualquer força motriz ou resistente, um corpo qualquer prossegue indefinidamente sua marcha em linha reta e com velocidade constante. É o que se chama princípio de inércia, cuja descoberta se atribui erroneamente a Galileu. Se dele teve alguma intuição, Galileu na realidade o desconheceu, como veremos mais tarde.

No rasto de FILOPON, do século VII, BURIDAN, reitor da Universidade de Paris, depois Cônego de Arras, declarou que, quando o arqueiro lança a sua flecha, ele imprime-lhe certo impetus proporcional ao seu volume, à sua densidade e à velocidade imprimida (ou pelo menos função crescente dessas quantidades).

Buridan acrescentava que se o impetus não fosse diminuído e destruído por alguma coisa contrária, que a ele resistisse, ou então por algo que inclinasse o móvel para um movimento diferente, o impetus duraria indefinidamente. Substituamos impetus pela nossa moderna “quantidade de movimento = mv” ou nossa “força viva = mv2”, e teremos encontrado o essencial da teoria moderna.

E eis o que é capital: desdenhando a natureza incorruptível dos astros, afirmada por Aristóteles, Buridan não hesita em aplicar-lhes a noção de impetus. Deus, diz ele, imprimiu inicialmente aos corpos celestes certo impetus, que desde então os move.

Ele acrescenta que, se o impetus comunicado aos corpos terrestres se vai enfraquecendo pela ação das forças resistentes que eles encontram, o mesmo não acontece aos astros, cujo movimento não é perturbado por coisa alguma, podendo portanto seu impetus conservar-se indefinidamente.

Um século mais tarde, Nicolau de Cusa (1401-1464), Bispo de Brixen (Tirol), retomou a doutrina de Buridan, ajuntando-lhe diversas considerações teológicas que aqui não nos interessam[17].

Buridan e De Cusa parecem ter acreditado que, na ausência de força, o movimento de um móvel pode perpetuar-se, segundo um círculo, o que é inexato. Mas é certo que Galileu cometeu o mesmo erro. A despeito disso, Buridan e De Cusa fizeram com que a ciência desse um passo decisivo, e a Universidade de Paris não deixou de apoiar-se em sua doutrina[18].

Pierre DUHEM, o grande sábio e historiador das ciências, não hesitou em concluir:

“Ora, Jean Buridan teve a incrível audácia de dizer: os movimentos dos céus estão submetidos às mesmas leis dos movimentos das coisas cá de baixo, a causa que mantém as revoluções das esferas celestes é a mesma que mantém a rotação do rebolo do ferreiro; há uma Mecânica única pela qual se regem todas as coisas criadas, a esfera do Sol e o pião que o menino põe em rotação. Jamais houve, talvez, no domínio da ciência física, revolução tão profunda, tão fecunda quanto esta”[19].

Acrescento que Buridan e De Cusa discutiram longamente em suas obras a questão do movimento da Terra e, por falta de provas, continuaram a defender as clássicas posições. Esta questão, porém, era livremente debatida em sua época, nos meios eclesiásticos, sem que a Igreja fizesse a menor objeção.

BEDA, O VENERÁVEL

A esses homens da Igreja que foram precursores em matéria científica, é preciso ajuntar, se se crê em Philippe Decourt[20], BEDA, O VENERÁVEL, que formulou uma teoria das marés bem mais justas que a apresentada por Galileu 900 anos DEPOIS.

CONCLUSÃO

Como se vê, os eclesiásticos não eram tão escravos da filosofia peripatética quanto nos querem fazer crer. Houve até alguns que, na edificação da ciência, desempenharam papel não negligenciável. Ademais, veremos que, na época, os astrônomos jesuítas eram quase todos adeptos do movimento da Terra e que, por causa das provocações de Galileu, dele se afastaram.

III — A POSIÇÃO DA IGREJA

À primeira vista, a condenação de Galileu parece, pois, em contradição com a atitude anterior da Igreja. De fato, essa atitude não mudou, e os princípios sobre os quais a Igreja assentara a sua ação foram reafirmados por Pio XII, como a seu tempo veremos.

Para compreender o que se passou, convém lembrar que a Igreja tem cuidados pastorais. Entre seus filhos, se há sábios, há também os simples, que são particularmente caros ao coração de Deus.

Os simples são tão aptos quanto os sábios a compreender a verdade religiosa (muitas vezes mais do que eles). Mas o que eles não compreendem é a mudança repentina, em qualquer plano. Vimos o que ocorreu com a reforma litúrgica atual, que, em poucos anos, esvaziou os santuários!

A Igreja sempre professou que, tendo Deus por autor, a Bíblia não poderia encerrar o menor erro. Ela continua a professar que as narrações históricas da Sagrada Escritura devem ser, salvo caso de necessidade manifesta e evidente, interpretadas literalmente[21]. Ela condenou a cômoda teoria que declarava que a inerrância bíblica dizia respeito apenas ao elemento religioso[22]. É certo que, se encontrássemos na Bíblia um ensinamento perfeitamente claro e explícito sobre questões de astronomia, deveríamos aceitá-lo. No entanto, não tendo a Bíblia, como objeto, a finalidade de ensinar-nos como Deus ordenou o Cosmo, tal ensinamento nela não se encontra.

Como já assinalava, no século XIV, Oresme, Bispo de Lisieux, os autores sagrados, quando falam de movimento do Sol, conformam-se com a maneira do “comum falar humano”. Deus narrou o que qualquer pessoa poderia ver, e o fez exatamente. Acaso acusaremos de erro científico os cientistas que, como todo o mundo, falam do “pôr do Sol?” Tal como os sábios e os anuários astronômicos[23], Deus descreve as aparências, o que é a única maneira de ser compreendido em todas as épocas, sem trair a verdade em nada. Não é pois trair o sentido literal pensar que, segundo a expressão de Oresme, as coisas não são “como soa a letra”. Não é trair o sentido literal bem compreendido dizer que as passagens da Bíblia onde se trata do movimento do Sol são compatíveis tanto com o movimento real quanto com o movimento aparente, que qualquer pessoa pode verificar[24].

Infelizmente, os Padres da Igreja não haviam feito essas distinções, inúteis em sua época, e (até onde podemos estar seguros do seu pensamento profundo) eles sempre compreenderam as passagens da Sagrada Escritura onde se trata do movimento do Sol em seu sentido literal mais estrito. Nada de estranho, portanto, que clérigos e leigos de mentalidade primária opusessem a Bíblia à teoria do movimento da Terra. Já vimos como eles foram censurados pela autoridade[25].

Mas, pelo erro comum dos peripatéticos e de Galileu, essa questão de interpretação da Escritura, que até então só interessara aos especialistas, começou a fazer muito barulho. A Igreja, pois, foi obrigada a precisar sua posição. Ela o fez pela boca do Cardeal BELARMINO, Geral da Companhia de Jesus e Consultor do Santo Ofício. Este deu as seguintes diretrizes, cuja sabedoria é digna de admiração, diante das quais, porém, Galileu jamais se inclinou.

1.°) A Igreja solicitava, antes de tudo, que os sábios permanecessem no terreno científico e não misturassem Sagrada Escritura com o problema.

Essa solicitação, contra a qual se insurgiu Galileu[26], era motivada por razões pastorais evidentes. De fato, as pessoas da Igreja tinham ensinado, geralmente, o geocentrismo e deixaram crer, imprudentemente, que a imobilidade da Terra era afirmada pela Escritura. A Igreja não podia então, sem escandalizar os simples, proclamar inopinadamente — urbi et orbi — que muitos de seus representantes se tinham enganados durante séculos. Ela pedia, pois, muito sabiamente, que se evitasse “passionalizar” o debate, misturando um problema científico com questões de exegese com que os católicos, em sua imensa maioria, pouco se ocupavam. Diríamos hoje que a Igreja desconfiava dos “mass media”.

Ela reservava para si, no caso de que a teoria do movimento da Terra fosse correta, o direito de ensinar, ela mesma, lenta e prudentemente, que as passagens litigiosas da Bíblia não implicavam, por si mesmas, a imobilidade nem o movimento da Terra. Não que a inerrância bíblica se refira exclusivamente às questões religiosas, tese cuja condenação foi firmemente lembrada por Leão XIII, mas simplesmente porque se havia atribuído a essas passagens mais do que elas diziam na realidade.

2.°) A segunda razão de interditar aos sábios invocar a Escritura Sagrada era a expansão do protestantismo. A Igreja sempre reivindicou (e continua a fazê-lo) o direito exclusivo de interpretar infalivelmente as Escrituras. Permitir naquela época que qualquer pessoa discutisse o seu sentido pareceria favorecer o princípio do livre exame dos protestantes. O Cardeal Dini resumia essa posição da Igreja por intermédio de uma fórmula figurada: “Pode-se escrever livremente, desde que se permaneça fora da sacristia”. Os Cardeais Belarmino e Del Monte, ademais, asseguraram que Galileu nada tinha que temer desde que se ativesse ao âmbito da física e da matemática e evitasse tocar nas interpretações da Bíblia[27]. Mas Galileu recusou-se, obstinadamente, a compreender isso.

3º) Envenenando-se a querela entre Galileu e os peripatéticos, a Igreja, pela boca de Belarmino, foi levada a dar aos sábios o seguinte conselho: “Enquanto não tiverdes encontrado verdadeiras provas de vossas teorias, apresentai-as como simples hipóteses de trabalho.” Indignaram-se contra semelhante pedido, que é, no entanto, conforme com o verdadeiro espírito científico. Voltarei ao assunto no § VI.

Notar-se-á, por outro lado, que, para grande escândalo de tudo o que a Igreja comporta como elementos avançados, Pio XII, na encíclica Humani Generis, de 12 de agosto de 1950, tomou a mesma posição a propósito da teoria da evolução[28].

Belarmino, Urbano VIII, Pio XII e todos os sábios dignos desse nome concordam com este princípio de honestidade e bom senso: só se pode apresentar como hipótese aquilo que não está provado.

Galileu, porém, como veremos no § V, insistiu em apresentar provas que nada provavam e que contradiziam o que ele mesmo ensinava!

Ele supunha, além disso, que uma hipótese é demonstrada quando está de acordo com os fatos, esquecendo completamente que ocorre amiúde — e era o caso — hipóteses diferentes poderem explicar os fatos conhecidos. Neste caso, somente a descoberta de novos fatos é que pode, por vezes, eliminar certas hipóteses[29].

Veremos no § VII que foi URBANO VIII quem, demonstrando espírito verdadeiramente científico, lembrou a Galileu esses princípios incontestáveis. Mas este, dominado pela paixão, nada quis ouvir.

CONCLUSÃO

Estabelece, portanto, a história que, até 1616, a Igreja não somente não criticara a teoria do movimento da Terra, mas que seus membros mais eminentes, incluindo Papas, se apaixonaram por essas questões e encorajaram vivamente os sábios a prosseguir em suas pesquisas.

Parece, pois, que KOESTLER tinha razão ao afirmar que o conflito entre a Igreja e os partidários do movimento da Terra não era inevitável[30]. Nada de desagradável se teria produzido, se não fosse a intromissão de um pretensioso agitado, impulsionado não sei por que demônio, chamado Galileu.

IV — QUEM ERA GALILEU

Galileu faz parte, incontestavelmente, daqueles sábios que, pela contribuição de novas idéias, fazem com que a ciência avance de maneira decisiva. Numa época em que a Dinâmica era inexistente, ele teve o mérito de descobrir alguns princípios justos que serviram de ponto de partida para que outros construíssem esta “Mecânica racional” sem a qual os engenheiros seriam incapazes de construir motores, aviões e foguetes interplanetários. Se bem que não tenha descoberto a luneta, Galileu construiu uma e soube com ela fazer descobertas astronômicas importantes.

Prestada essa justa homenagem à sua memória, o historiador não pode deixar de verificar que muito se exagerou sua contribuição à ciência, e tem-se o direito de pensar que foi por causa do “caso” que se ampliaram, singularmente, os seus méritos! Em primeiro lugar, é certo que se lhe têm atribuído certas descobertas que ele jamais fez[31].

Não se pode negar, por outro lado, que, a despeito das descobertas astronômicas feitas com a ajuda da luneta, sua contribuição à Astronomia teórica foi não somente nula, mas negativa. Empenhou-se, com efeito, quer em ignorar, quer em desacreditar a obra imortal de seu contemporâneo KEPLER, que, na seqüência das excelentes observações do astrônomo dinamarquês TYCHO-BRAHE, descobrira que as órbitas planetárias são, aproximadamente, elipses cujos focos são ocupados pelo Sol e que são percorridas com velocidades variáveis, cuja lei foi descoberta por Kepler.

Ora, Galileu ensinou sempre que os planetas descrevem círculos com velocidade uniforme. Isso o levou a afirmar que os cometas são simples fenômenos meteorológicos e a qualificá-los de “falsos planetas à Tycho”! Ele atacou, também, a reputação de Tycho-Brahe, falando de suas “pretensas observações!”[32]

Os panegiristas de Galileu sempre calam essa desonestidade intelectual. Pois, enfim, não era precisa esperar Kepler nos dizer que os planetas não descrevem círculos em torno do Sol. Copérnico sabia muito bem que os planetas se movem segundo “ovais”, e foi isso o que o obrigou a imaginar um sistema de “deferentes”, “epiciclos” e “excêntricos”, que acabaram sendo mais complicados que o de Ptolomeu, uma vez que comportava 48 epiciclos em lugar de 40![33]

Copérnico não ignorava, com efeito, que o sistema de Ptolomeu permitia prever as posições dos planetas com aproximação de um quarto de grau, e é por isso que ele quis propor um sistema que explicasse tão bem as observações quanto o antigo.

Mas Galileu, que fizera do heliocentrismo propriedade sua, preferiu uma vulgarização desonesta ao rigor científico. Desprezando Kepler e Copérnico, insistiu nas trajetórias circulares, sem sequer dizer que se tratava de uma aproximação, já que recomendar os sistemas propostos por esses dois sábios teria mostrado a fraqueza de seu único argumento: a teoria heliocêntrica era mais simples que a teoria geocêntrica[34].

ERA GALILEU UM SÁBIO ÍNTEGRO?

Este silêncio sobre Kepler e sobre as complicações do sistema de Copérnico permite indagar acerca da honestidade intelectual de Galileu. Veremos mais adiante que ele cometeu um grande número de erros científicos que dificilmente se explicam pela ignorância. Tudo mostra que Galileu tinha grande preocupação com a sua própria glória e que, para preservá-la, não hesitou em usar de argumentos especiosos, chegando até, como veremos, a contradizer-se abertamente. O fato é tão patente que Maurice CLAVELIN, apesar de grande panegirista de Galileu, consagrou, em sua obra[35], cinco páginas para evidenciar que os princípios que Galileu invocou na 4a. jornada do Diálogo (1632) para fundamentar uma teoria das marés destinada a provar o movimento da Terra estavam em contradição com os expostos na 2a. jornada da mesma obra.

Galileu foi acusado por seus contemporâneos de apropriar-se de descobertas alheias, notadamente a das manchas solares. E o acusado respondeu-lhes com estas linhas, que soam mal na boca de um sábio:

O senhor nada pode quanto a isso, Sr. Sarsi; foi-me dado, a mim somente, descobrir todos os novos fenômenos do céu, e nada ficou para os outros. Tal é a verdade, que nem a malícia nem a inveja poderão abafar.”[36]

Sabemos por uma carta endereçada a Kepler, em 4 de agosto de 1597, que Galileu, nessa época, defendia o movimento da terra, e isso, dizia ele, havia anos. Ele próprio acrescentava que fora a doutrina de Copérnico que lhe permitira explicar vários fenômenos naturais inexplicáveis, dizia, pelas teorias correntes. Ora, é demonstrado por um tratado, que ele compôs para os seus alunos e do qual subsiste uma cópia manuscrita, datada de 1606, que nesta época, nove anos após a carta a Kepler, Galileu mobilizava todos os argumentos tradicionais contra a rotação da terra: a rotação desintegraria a Terra, as nuvens permaneceriam imóveis etc., todos os argumentos que ele próprio refutara (se acreditarmos em sua carta a Kepler), muito tempo antes[37].

Somente após 16 anos da carta a Kepler é que Galileu se declarou publicamente favorável ao movimento da Terra. Ele mesmo nos deu as razões de suas hesitações: o geocentrismo era tão universalmente aceito, que ele temia simplesmente parecer ridículo! Em 1613, porém, ele compreendeu que as descobertas feitas com a luneta astronômica, as manchas solares e as montanhas lunares, notadamente, contrariavam o dogma peripatético duma diferença de natureza entre os corpos celestes e os corpos terrestres; ele compreendeu que, derrogado esse dogma, nada mais se opunha a fazer da Terra um planeta como os demais, e que, conseqüentemente, o principal argumento do geocentrismo desapareceria.

Tornou-se, então, campeão incondicional do movimento da Terra e identificou-se de tal modo com esta causa, que, instado pela Igreja a apresentar provas que ele não possuía, não hesitou em usar argumentos os mais especiosos ou manifestamente falsos. Percebe-se que Galileu nada tinha desse mártir da verdade com o qual se tenta identificá-lo.

GALILEU POLEMISTA

Galileu, que escrevia admiravelmente, era um polemista temível, e que não hesitava em utilizar processos que hoje desconsiderariam qualquer cientista. Seu método consistia em ridicularizar o adversário, o que ele sempre fazia, com ou sem razão. Eis um exemplo. Tendo Grassi sustentado que as balas de canhão se aqueciam pelo atrito, o que era perfeitamente correto, Galileu contestou-o, ladeando a questão. Grassi de fato cometera a imprudência de citar em apoio de sua tese uma estranha narração segundo a qual os babilônios coziam os ovos fazendo-os girar rapidamente na extremidade de uma funda. Eis a resposta, que é um modelo do gênero:

“Se Grassi quer fazer-me crer, com Suidas, que os babilônios coziam seus ovos fazendo-os girar em suas fundas, acerto, mas devo dizer que a causa desse efeito não é de modo algum aquela que ele sugere. A fim de descobrir a verdadeira causa, raciocino da seguinte maneira: se não obtemos o resultado que outros obtiveram antes, é porque em nossas operações falta algo que os fazia ter êxito. E, se esse algo nos falta, talvez seja a verdadeira causa. Ora, não carecemos nem de ovos, nem de fundas, nem de robustos finórios para fazê-las girar; entretanto, nossos ovos não cozinham, eles até esfriam mais rapidamente se antes foram aquecidos. E como nada nos falta, exceto sermos babilônios, é pois o fato de ser babilônio e não o atrito que é a causa do cozimento dos ovos.”

Compreende-se, facilmente, que com tais métodos Galileu tenha feito inimigos por toda a parte. Ele voltou as costas à ordem inteira dos jesuítas, cujos astrônomos eram quase todos adeptos do movimento da Terra.

Eis um exemplo do estilo de Galileu. No Diálogo, aparecido em 1632 (Galileu tinha 68 anos e já tinha tido tempo para corrigir-se!), ele trata aqueles que não admitem o movimento da Terra como “pigmeus mentais”, “idiotas estúpidos”, “indignos do nome de seres humanos”![38]

Mas o cúmulo é isto:

A HISTÓRIA DO IMPRIMATUR

Já disse que o Papa Urbano VIII tinha a maior admiração por Galileu, pois que quatro anos após a condenação de 1616 ele não hesitou, quando era ainda Cardeal, em compor uma ode em sua honra.

Ora, Galileu conseguiu a façanha de indispor-se com o Papa! Julgando fazer com que seus adversários acreditassem que a Igreja adotara todas as suas opiniões, Galileu solicitara, por volta de 1630, o Imprimatur para a grande obra que ele meditava.

Como notou Philippe DECOURT[39], esse Imprimatur não era necessário, uma vez que se tratava, pelo menos em princípio, de obra puramente científica. Embora Cônego, Copérnico não o solicitara, assim como o Pe. dominicano Campanella, ao publicar, em 1622, sua apologia de Galileu. O próprio Galileu dispensou o Imprimatur quando publicou um novo livro, cinco anos após sua condenação.

Urbano VIII cometeu o erro de prometer ao amigo o Imprimatur pedido, mas ele estabeleceu condições, o que era normal. Estas nada mais eram do que as já formuladas 15 anos antes por BELARMINO:

1º) Ater-se unicamente ao ponto de vista científico e, já que não existiam provas válidas na época, apresentar a teoria do movimento da Terra como simples hipótese de trabalho.

2º) Não misturar com a questão a Teologia e a Sagrada Escritura.

Ora, Galileu publicou sua obra em que era mencionado o Imprimatur, mas, por causa das quarentenas provocadas pela peste e também de certos mal-entendidos, os censores só lhe tinham podido ler o prefácio e a conclusão.

Logo se percebeu que Galileu não respeitara as condições apresentadas para a concessão do Imprimatur, uma vez que todos puderam verificar, lendo o Diálogo, que ele considerava os partidários do geocentrismo “idiotas estúpidos”, “pigmeus mentais” etc.

Cego pelo orgulho, Galileu não titubeou em escarnecer do Papa, pondo na boca de “Simplício”, que, no diálogo, fazia o papel de idiota da aldeia, os excelentes argumentos que Urbano VIII usara para tentar convencer o amigo de que as provas aduzidas em apoio do movimento da Terra nada valiam. Desenvolverei esse aspecto da questão mais adiante.

Ainda que Urbano VIII fosse um santo, ele não podia deixar passar esses insultos públicos dirigidos ao Trono Pontifício, isso sem levar em conta que os inimigos de Galileu —havia tantos! — tinham aproveitado a ocasião para cair sobre ele. Após uma tentativa de abafar o assunto, Urbano VIII conduziu seu amigo à Inquisição, que o condenou em 1633 a penas que, graças à intervenção do Papa, não passaram de penas de princípios[40].

V — OS ERROS, A MÁ FÉ E AS PRETENSAS PROVAS DE GALILEU

FORÇA CENTRÍFUGA CONTRA DOGMA DO CÍRCULO

Hoje, qualquer ginasiano sabe que, com igual velocidade angular, a força centrífuga cresce com a maior distância do centro de rotação. Parece pois totalmente impossível que o Sol, a Lua e as estrelas, que se encontram a enormes distâncias da Terra, possam realizar uma revolução em 24 horas. Força alguma no mundo poderia retê-los. Se o firmamento girasse, em 24 horas, em torno da Terra, todos os astros escapariam como a pedra escapa de uma funda, e o céu perderia todos os seus astros em algumas horas. Mas, na época, reinava o “dogma do circulo”, que Galileu sempre aceitou sem discussão. Pensava-se então, e Galileu antes de todos, que não era necessária força alguma para obrigar os corpos celestes a girar em torno da Terra em 24 horas.

A despeito de trabalhos em que ele quase chegou a uma concepção correta da força centrífuga, Galileu sempre professou na obra em que se encontram as piores contradições que o movimento natural dos corpos é o círculo. Limitar-me-ei a citar Maurice CLAVELIN, grande enaltecedor de Galileu (sou eu que destaco em todas as citações):

“Fazendo dele (o movimento circular) o único movimento capaz de conservar um mundo ordenado, Galileu não tornava somente muito difícil uma interpretação mecânica dos movimentos planetários: ele enunciava algo que perturbava gravemente a própria ciência astronômica. A polêmica em que se meteu, a propósito dos cometas, e onde se vê o movimento circular transformar-se, em favor de sua função ordenadora, numa verdadeira condição de possibilidade para a existência dos corpos celestes, fornecerá disso uma ilustração tão clara quanto desconcertante.”[41]

De fato, por julgar que, na ausência de forças, os corpos celestes se movem em círculos, achou Galileu que os cometas não eram astros, mas simples fenômenos meteorológicos.

“[…] do ponto de vista estritamente geométrico, era possível atribuir aos cometas trajetórias elípticas muito alongadas e reconhecer-lhes assim a existência. Que Galileu não tenha sequer examinado essa eventualidade confirma que, se os cometas não têm lugar no céu, é em razão de sua incompatibilidade com o movimento circular, e de seu desacordo com a ordem do Mundo, ou até com sua simplicidade.”[42]

[…]

“Não esqueçamos, com efeito, que, pelo seu poder de conservar a ordem, o movimento circular tende a representar para Galileu um movimento natural, incapaz, portanto, por definição, de produzir perturbações; por outro lado, essa identificação do movimento circular como um movimento natural, desviando a atenção da força centrípeta, única a poder impedir o aparecimento de um efeito centrífugo, não favorecia pensar nesse efeito em si mesmo, como uma força sui generis que cresce necessariamente com a velocidade e a massa do corpo movido.”[43]

É evidente, portanto, que Galileu e seus contemporâneos não viam impossibilidade alguma numa rotação de todo o céu em 24 horas, impossibilidade decorrente de uma força centrífuga, que eles ignoravam e que teria dispersado todos os corpos celestes.

Maurice Clevelin observa, mui sagazmente, que, se essa falsa concepção da inércia permitiu a Galileu mostrar a possibilidade da rotação da Terra em torno de si mesma, ela o levou, ao mesmo tempo, a negar a possibilidade de qualquer prova experimental desta rotação:

“[…] sua concepção dos sistemas de inércia permite-lhe certamente estabelecer a possibilidade do movimento diurno, levando-o, porém, a negar a existência de fenômenos onde uma mecânica mais bem concebida teria percebido a prova de tal movimento. Ironia da história: essas perturbações que os peripatéticos julgavam necessárias, mas cuja ausência excluía, na opinião deles, o movimento da Terra, Galileu as proclamou impossíveis, ao passo que não somente elas existem mas demonstram que a Terra não é imóvel! Assim, no mesmo instante em que ele tornava concebível o movimento diurno, Galileu proibia-se a si próprio de trazer-lhe a prova.”[44]

Ironia da história, de fato! No entanto, bastava um monumento elevado, uma longa corda e uma pedra, coisas que, na época, não faltavam, para construir o pêndulo imaginado por Foucault dois séculos mais tarde e apresentar a prova irrecusável da rotação da Terra! Mas Galileu e seus contemporâneos, mergulhados, em sua maioria, no dogma do círculo, não imaginaram isso.

A MÁ-FÉ CIENTIFICA DE GALILEU

Um sábio tem o direito de enganar-se, e, de fato, raros são aqueles que jamais cometeram erros. Mas é necessário que seja cometido de boa-fé para que o erro seja perdoável. Ora, os fatos mostram que Galileu não sugeriu senão argumentos especiosos, que não resistiam a um exame atento, ou então argumentos que se contradiziam visivelmente. Citarei cinco deles, particularmente gritantes:

1º — Os argumentos fundados na não equivalência das hipóteses cosmológicas.

2° — A prova pela fixidez do eixo de rotação do Sol.

3° — A prova pelas marés.

4° — As contradições na explicação dos ventos alísios.

5° — As contradições no comentário do milagre de Josué.

A recusa da equivalência das hipóteses cosmológicas
Já disse que Galileu teve o mérito de descobrir, graças à luneta que acabava de ser inventada pelos holandeses, certo número de fenômenos antes desconhecidos.

— Ele mostrou claramente que a Lua não é lisa e luminosa por si mesma, como acreditavam certos peripatéticos, mas que era cortada de montanhas, cujas sombras podiam ser observadas.

— Observando atentamente as manchas solares, mostrou que esse astro gira em torno de si mesmo em 25 dias, em torno de um eixo de direção fixa.

— Descobriu as fases de Vênus, que provam não ser esse planeta luminoso por si mesmo, mas refletir a luz do Sol.

— Mostrou que o diâmetro aparente dos planetas varia, podendo essa variação, no caso de Vênus, ir de 1 a 6. Daí resulta que os planetas não se encontram a uma distância constante da Terra (mas ninguém duvidava disso).

— Galileu encontrou a verdadeira explicação da “cor cinzenta” da Lua, quando Lua Nova.

Tudo isso foi demonstrado por raciocínios corretos baseados em observações minuciosas e bem feitas, e constitui, sem dúvida alguma, um belo trabalho científico.

Galileu sublinhou que essas descobertas, ou pelo menos as relativas às montanhas da Lua e às manchas solares, eram dificilmente compatíveis com a doutrina peripatética da perfeição dos corpos celestes e de uma diferença de natureza com os corpos “sublunares”. A hipótese de que todo o Cosmo era regido pelas mesmas leis reforçava-se com isso; já disse, porém, que ela não era nova e fora sustentada muito antes de Galileu, notadamente pelo Cônego Buridan e pelo Bispo Nicolau de Cusa.

Se ele se houvesse circunscrito a essas conclusões, não se poderia deixar de admirar o talento e espírito científico de Galileu. Mas a má-fé começa quando ele insiste em dizer que essas descobertas só eram explicáveis no sistema de Copérnico. Ora, isso não passava de uma mentira, e Galileu bem o sabia.

Os quatro sistemas de concepção do Mundo

É simplificar as coisas dizer que, na época de Galileu, só havia dois sistemas para explicar o Mundo. Havia quatro, em verdade.

— O sistema de Ptolomeu, que reinou durante catorze séculos por razões que examinaremos.

— O sistema de Copérnico (séc. XVI).

— O sistema geocêntrico de Tycho-Brahe (séc. XVI).

— O sistema heliocêntrico de Galileu (séc. XVII).

Todos esses sistemas eram falsos, pois todos supunham um centro imóvel: Sol ou Terra. Mas os três primeiros tinham o mérito de explicar com exatidão todos os movimentos celestes. Não era o caso do sistema de Galileu, porque, contrariamente aos três outros, ele assinalava aos planetas órbitas circulares.

O sistema de Ptolomeu

Ptolomeu foi um astrônomo e geógrafo que viveu no século II. Hoje se escarnece dele, mas era um autêntico sábio, cuja imensa obra científica abrangeu a Óptica, a Música e a Matemática. Ele é o autor do primeiro tratado de trigonometria esférica.[45]

Indagam os modernos como um sistema cosmológico tão absurdo quanto o de Ptolomeu (dizem eles) pôde reinar durante catorze séculos sem contestação. A resposta é muito simples: é porque ele permitia prever comodamente as posições dos planetas com uma precisão de um quarto de grau. Ptolomeu sabia, evidentemente, que os planetas avançam na abóbada celeste, recuam em seguida para avançar de novo um pouco mais longe, e assim sucessivamente. Ele imaginou explicar esses movimentos complexos por meio de uma combinação de movimentos circulares uniformes.

Diz-se que Ptolomeu agira assim porque, tal como Copérnico e o próprio Galileu, ele possuía a mística do círculo. É possível, mas há explicações mais em relação com a mentalidade científica de que toda a obra de Ptolomeu dá testemunho. Não deve esquecer-se, com efeito, que a finalidade a que ele visava era fornecer um método que permitisse prever antecipadamente as posições dos planetas na abóbada celeste. Se ele escolheu combinações de movimentos circulares, é talvez, muito simplesmente, porque esse meio de previsão lhe pareceu mais simples de aplicar.

Deferentes, epiciclos, excêntricos

Negligenciando alguns pormenores (equantes), pode dizer-se, em linguagem moderna, que no sistema de Ptolomeu um planeta, em dado momento, está na extremidade de um vetor que tem sua origem no centro da Terra e que é a soma geométrica de vários vetores que giram, cada um deles, num plano, com a velocidade angular constante. O círculo descrito pela extremidade do primeiro vetor é deferente (por vezes chamado excêntrico por razões que é inútil mencionar aqui). As extremidades dos outros vetores percorrem curvas complicadas denominadas epiciclos.

Como a soma geométrica de todos esses vetores é independente da ordem em que são considerados, não há finalmente nenhuma diferença entre “deferentes”, “epiciclos” e “excêntricos”, e utilizarei em seguida o termo único de epiciclos.

Tudo seria muito simples, se os planetas descrevessem, com velocidade constante, círculos centrados no Sol. Ptolomeu então poderia explicar o movimento do Sol e da Lua com um só movimento circular, e o movimento de cada um dos cinco planetas com dois (tendo um dos vetores por comprimento, a distância da Terra ao Sol, e girando em um ano no plano da eclíptica). Ao todo, portanto, doze epiciclos.[46]

No entanto, Ptolomeu e Copérnico (contrariamente a Galileu, que sempre fingiu ignorá-lo) sabiam muito bem que os planetas descrevem “ovais”, em que o Sol não ocupa o centro. Ptolomeu precisou então, para explicar convenientemente o movimento dos planetas, aumentar para 40 o número de epiciclos.

Era, evidentemente, muito complicado. A representação de uma curva por uma soma geométrica de movimentos ficou sendo um verdadeiro quebra-cabeça geométrico. Não se pode deixar de admirar Ptolomeu, pois, de certo modo, teve êxito. Mas repito que a utilização do sistema era muito simples e até infinitamente mais simples que a de todos os outros sistemas inventados ulteriormente.[47]

O sistema de Copérnico[48]

Baseava-se no mesmo princípio dos epiciclos, como o de Ptolomeu. Por diversas razões e, em especial, em vista do fato de o Sol não ocupar o centro das “ovais planetárias”, ele tomou para origem de seu sistema de epiciclos um ponto exterior ao Sol. O resultado é que ele não pode dar conta do movimento de Vênus, cuja órbita é, excepcionalmente, um círculo quase perfeito, senão utilizando nove epiciclos. Quanto a Mercúrio, cuja órbita é muito elíptica, ele teve de recorrer a 11 epiciclos para representar seu movimento. Em suma, Copérnico, que se gabara, em seu Commentariolus, de reduzir de 40 para 34 o número de epiciclos de Ptolomeu, teve de aumentá-lo para 48.

Vê-se, portanto, que o sistema de Copérnico era mais complicado que o de Ptolomeu. Ademais, não sendo ele geocêntrico, não era utilizável, pelo menos sem cálculos complicados, para a previsão das posições dos planetas na abóbada celeste.[49]

O sistema de Tycho-Brahe

Trata-se de um astrônomo dinamarquês (1546-1601) que passou toda a vida fazendo observações astronômicas minuciosas que permitiram a Kepler descobrir suas célebres leis.

Tycho-Brahe sabia muito bem que nada permitia estabelecer se era a Terra ou o Sol que era imóvel, e até se havia realmente um objeto imóvel no sistema solar. Ele adotou, no entanto, o geocentrismo, porque não conseguiu, a despeito das observações minuciosas, encontrar a menor paralaxe em nenhuma estrela. Ele não ignorava que esta ausência de paralaxe não provava a imobilidade da Terra, pois que ela podia interpretar-se, também, supondo as estrelas a enorme distância do sistema solar. Mas não imaginou que pudessem estar a distâncias tão fantásticas como de fato estão.[50]

Tycho-Brahe forneceu catálogos de observações que só puderam ser utilizados por meio das leis de Kepler.

O sistema de Galileu

Ele era viciado na base pela afirmação de que os planetas são animados de movimentos circulares uniformes centrados no Sol. Tratava-se, pois, de uma aproximação muito grosseira, que possuía o mérito da simplicidade, mas que Galileu jamais distinguiu do sistema muito mais exato, embora terrivelmente complexo, de Copérnico. É por isso que ele pôde alegar, como argumento para o heliocentrismo, a simplicidade do sistema de Copérnico.

Mas, além de não ser a simplicidade critério de verdade, era induzir seus leitores a erro, uma vez que todos os astrônomos sabiam que a realidade estava longe de ser tão simples e que, para explicá-la convenientemente, Copérnico imaginara um sistema ainda mais complicado que o de Ptolomeu. Mas, como diz Koestler, ninguém lera a obra de Copérnico, escrita em latim, e Galileu podia muito bem dizer o que bem entendesse.

A equivalência das hipóteses

Se nos colocamos unicamente no ponto de vista da Cinemática, as expressões “movimento” e “velocidade” só têm sentido quando referidas a alguma coisa considerada como fixa, convencionalmente[51]. O mesmo não ocorre no campo da Dinâmica. Sabemos hoje que a “aceleração” tem caráter absoluto[52].

No século XVII, porém, ignorava-se que, em virtude das leis de Newton, todos os objetos do sistema solar são “acelerados”. Nenhum deles, pois, é imóvel, o que condena tanto o geocentrismo quanto o heliocentrismo, ou, mais exatamente, condena este último a ser apenas uma aproximação[53].

Não se podia, portanto, naquela época, falar legitimamente senão de movimentos relativos dos objetos do sistema solar, movimentos que poderiam ser descritos considerando-se como fixo qualquer um desses objetos ou qualquer sistema de eixos. É certo, portanto, que no início do século XVII, em que se ignoravam as leis de Newton, tanto quanto o fenômeno da “aberração das estrelas fixas”, geocentrismo, heliocentrismo, “jupiterocentrismo” ou “lunocentrismo” constituíam sistemas equivalentes, entre os quais era impossível escolher mediante a observação[54].

A recusa da equivalência das hipóteses

Entretanto, Galileu recusou, durante toda a vida, admitir a equivalência cinemática dos sistemas geocêntrico e heliocêntrico e, portanto, a impossibilidade de escolher entre eles mediante observações astronômicas. Por exemplo, ele afirmou que as fases de Vênus e as variações do diâmetro aparente dos planetas eram explicáveis unicamente pelo heliocentrismo, e esse erro continua a imprimir-se hoje. É assim que, numa obra coletiva em honra de Galileu, publicada com o concurso da Academia de Ciências, pode-se ler, sob a assinatura de E. NAMER, estas linhas desconcertantes (sou eu quem destaca):

“Ocorre o mesmo com as fases e as dimensões de Vênus: com efeito, com o telescópio não somente são visíveis as fases de Vênus, mas se vêem ainda grandes diferenças entre uma Vênus pequena, quando está ‘cheia’, e uma Vênus imensa, quando é um delgado crescente. Essas variações consideráveis de forma e dimensão, Galileu ilustrou-as e comentou-as numa carta a Paolo Sarpi. Essas deduções astronômicas e todas as outras são possíveis no quadro do sistema de Copérnico; não o são no sistema de Aristóteles e de Ptolomeu, a menos que se construíssem, de propósito, os epiciclos, os excêntricos, os deferentes, ou outros círculos, para obrigar Vênus, pelo duplo esforço do metafísico e do geômetra, a girar em torno da Terra; é, pois, inexato dizer que todos os sistemas podem explicar as mesmas aparências.”[55]

Mais inspirado, Maurice CLAVELIN nos diz, na mesma obra (p. 133), que Galileu sabia muito bem que, do ponto de vista estritamente geométrico, ela (a equivalência das hipóteses) era irrecusável. (Ele mentia, pois, quando fazia crer o contrário).

Mas, sem se dar conta de que se contradiz, Maurice CLAVELIN vai cair na mesma esparrela, escrevendo um pouco mais adiante (p. 150) (sou eu quem destaca):

“Comparemos, por exemplo, a maneira como um partidário de Ptolomeu e um partidário de Copérnico poderiam reagir, em 1610, à descoberta das fases de Vênus. Para os primeiros nada permitiria prever tal fenômeno, impossível aliás se a Terra é o centro único em tomo do qual giram os corpos celestes. Uma modificação importante do esquema geocêntrico torna-se indispensável, e convir-se-á que Vênus, constituindo exceção, descreve uma trajetória circular em torno do Sol, o qual continua a deslocar-se em volta da Terra.”

Ignoraria Maurice CLAVELIN, verdadeiramente, que essa “modificação importante do esquema geocêntrico” tinha sido feita catorze séculos antes pelo próprio Ptolomeu, cujos epiciclos, tomados em ordem conveniente, faziam precisamente girar Vênus em torno do Sol, que, por seu turno, girava em torno da Terra? Admitindo, como única condição, que Vênus não é luminoso por si mesmo e apenas reflete a luz do Sol, o sistema de Ptolomeu permite prever-lhe as fases tão bem quanto o de Copérnico. Por que Galileu recusou admitir a equivalência das hipóteses?

Maurice CLAVELIN apresentou a si mesmo esta pergunta e tentou a ela responder num capítulo de 25 páginas da obra citada, onde se contam 10 páginas do próprio Galileu[56].

Como era de esperar, Clavelin, nessas páginas difíceis, não conseguiu resgatar Galileu, de maneira convincente, de sua desonestidade intelectual, coisa indigna de um sábio. Dessas 25 páginas, retemos a confissão de que Galileu adotou o sistema de Copérnico por razões unicamente filosóficas.

“Desse modo pressentimos que, por trás da adesão apaixonada ao copernicismo, existe uma concepção da ciência, de sua unidade, e, certamente, de sua autonomia, que está em questão. Se Galileu escolheu a doutrina heliocêntrica, é pois, segundo toda a probabilidade, porque ela corresponde a um ideal de inteligibilidade superior, em sua opinião, ao ideal proclamado pela doutrina geométrica de então” (p. 135).

Evidentemente, uma teoria científica não deve ser contraditória (o geocentrismo não o era de modo algum). Mas, se fôssemos julgar as teorias pelo critério da inteligibilidade, a ciência não teria conhecido a atração universal, considerada ininteligível pelo próprio Newton[57], nem a mecânica ondulatória, na qual o dualismo onda-corpúsculo, solidamente provado, desafia o entendimento de todos os sábios. Maurice Clavelin termina seu capítulo por essa espantosa conclusão:

“Censurar Galileu por não ter escolhido a solução hipotética de Osiander ou de Belarmino seria censurá-lo, substancialmente, por não ter permanecido paripatético.”

Conclusão espantosa, disse, mas que nos confirma ter sido por razões filosóficas que Galileu rejeitou a equivalência das hipóteses cientificamente demonstrada.

Tem-se, contudo, o direito de questionar o valor de uma filosofia que levou Galileu a afirmar que os planetas se movem em círculos, quando Kepler, Copérnico e o próprio Ptolomeu tinham reconhecido que isso era incompatível com a observação. A ciência só progride quando confia mais na observação do que na filosofia*, e sempre me disseram que Galileu era o pai dessa idéia. Ora, todo o seu comportamento na questão do movimento da Terra mostra que ele atribuiu à observação o que ela jamais disse naquela época.

A PROVA PELA FIXIDEZ DO EIXO DE ROTAÇÃO DO SOL

Sabe-se que Galileu mostrou, em conseqüência de observações minuciosas das manchas solares descobertas por Fabricius, que esse astro gira em torno de si mesmo em 25 dias, em torno de um eixo de direção fixa. Ora, isso prova, declara Galileu na terceira Jornada do Diálogo, que o Sol é imóvel, pois, se ele girasse em torno da Terra, seu eixo não poderia conservar uma direção fixa.

Ignorava Galileu que a Terra, cujo movimento ele afirmava, gira também em torno de si mesma e que, em sua rotação em volta do Sol, seu eixo de rotação mantém uma direção fixa, o que explica as estações?[58] Koestler, que é dos poucos autores que destacaram essa desonestidade intelectual, é nesse ponto severíssimo, e é difícil não dar-lhe razão:

“Não há dúvida nenhuma tampouco de que, com esse argumento (das manchas solares), ele tentava embrulhar e enganar o leitor. Apresentar a inclinação constante do eixo de um corpo em rotação como uma hipótese nova e inconcebível, enquanto todos os sábios, desde Pitágoras, reconheciam nisso a razão pela qual o verão sucede ao inverno; complicar esse problema simples por meio da novidade das manchas solares e de suas curvas, recobrindo com uma falsa simplicidade as complicações de Copérnico — tudo isso fazia parte de uma estratégia fundada no desprezo que sentia Galileu pela inteligência de seus contemporâneos”[59]

A PROVA PELAS MARÉS

Desde que abertamente tomou o partido do heliocentrismo, Galileu insinuou que possuía, mas guardava segredo no momento, uma “prova conclusiva” do duplo movimento da Terra: era a prova pelas marés. Revelou-a por volta de 1615.

Em vista dos conhecimentos da época, não se poderia censurar Galileu por ter sido incapaz de estabelecer uma teoria correta das marés. Isto, porém, não lhe dava o direito de desdenhar a observação e o bom senso. Qualquer pescador bretão sabe, de fato, que a hora e a altura da maré dependem da fase da Lua. Para concluir daí que o astro noturno tem algo que ver com o fenômeno, há um passo apenas que dar, e que foi dado por sábios ou ignorantes. No século VII, por exemplo, BEDA, O VENERÁVEL[60] atribuíra as marés à ação da Lua e forneceu métodos para prevê-Ias em um porto. Sem grande mérito, tão evidente era a coisa, KEPLER, contemporâneo de Galileu, explicou as marés pela ação conjunta do Sol e da Lua, e esteve a um passo de formular, antes de Newton, a lei da gravitação universal. Todas as pessoas de bom senso, portanto, explicavam as marés pela ação da Lua, todas exceto Galileu, que escarnecia de Kepler nestes termos:

“Malgrado seu espírito aberto e penetrante, ele (Kepler) deu ouvidos e seu assentimento ao poder da Lua sobre as águas, às propriedades ocultas (a gravitação) e outras patranhas.”[61]

Galileu atribuía as marés à combinação dos movimentos de rotação da Terra em torno de si mesma e em torno do Sol. Resulta desse duplo movimento que a velocidade de um ponto da Terra passa por um máximo ao meio-dia e por um mínimo à meia-noite. A essa variação de velocidade e à inércia do mar atribuiu Galileu as marés.

Tal idéia não é absurda a priori, e, respeitados os conhecimentos da época, não se poderia culpar Galileu por não ter sabido, como hoje, por que as variações de velocidade que ele invocava não poderiam produzir nenhum efeito mecânico. Mas Galileu não tinha o direito de sustentar semelhante teoria por duas razões:

1º) Objetou-se-lhe imediatamente que, se a teoria fosse verdadeira, só haveria, em determinado lugar, uma maré por dia, sempre, e até certo ponto, da mesma altura[62] e sempre à mesma hora. Ora, todo o mundo sabe que há duas marés por dia, que sua altura varia consideravelmente durante uma lunação e que, finalmente, a hora da maré cheia muda todos os dias.

Ora, é um princípio admitido por todos os cientistas que uma teoria que não explica os fenômenos deve ser rejeitada ou corrigida. Com mais fortes razões não pode servir de prova para coisa alguma. É surpreendente que um cientista tido como criador do método experimental tenha podido desprezar desse modo a experiência.

2º) Galileu, ademais, contradizia-se. Os peripatéticos haviam-lhe objetado que a rotação da Terra se traduziria por diversos efeitos mecânicos: a Terra estouraria, a atmosfera, as nuvens, os pássaros, os corpos não cairiam verticalmente etc. A resposta da Mecânica moderna é que, se a força centrífuga não estoura a Terra, ela, no entanto, diminui ligeiramente a gravidade; ela prevê que os corpos não caem totalmente na vertical, o que foi verificado etc.

Por seu turno, Galileu responde que, movendo-se os corpos naturalmente em círculo, a rotação da Terra não poderia provocar nenhum fenômeno mecânico. Sabe-se que a resposta era falsa, mas o erro era perdoável. O que não o é, é ter ele pretendido ao mesmo tempo que a rotação da Terra provoca o gigantesco fenômeno das marés! Em outros termos, Galileu declara possível o movimento da Terra em virtude de um princípio que ele nega para provar esse movimento! Maurice Clavelin, apesar de grande panegirista de Galileu, notou essa contradição (sou eu quem destaca):

“Sem avançar mais nessa explicação das marés, é fácil compreender que ela introduz no interior do Diálogo uma verdadeira ruptura. Toda a segunda Jornada tende a provar, com o auxílio do princípio de conservação do movimento, que a rotação diurna não pode provocar perturbação alguma e que, numa Terra em movimento, tudo ocorreria da mesma maneira que numa Terra em repouso. Ao explicar as marés pelo duplo movimento da Terra, Galileu abandona, portanto, a idéia de que a Terra, animada de movimento diurno, seja um sistema inercial. Mas, sobretudo, em nome de que considerações reservar unicamente aos oceanos a capacidade de traduzir, por um movimento de fluxo e refluxo, as variações de velocidade sofridas por cada parte da Terra, uma vez por dia? Se a explicação de Galileu fosse exata, na realidade todos os corpos não rigidamente ligados à Terra deveriam, cada 24 horas, ser alternativamente projetados para frente e para trás… Galileu não percebe que a quarta Jornada do Diálogo é incompatível com a segunda, e que não é possível invocar simultaneamente o princípio de conservação para anular os argumentos tradicionais e explicar as marés.”[63]

Apresentando semelhantes “provas”, Galileu desservia a causa que queria defender. De fato, Belarmino, Urbano VIII, os membros do Santo Ofício e os mesmos peripatéticos não eram imbecis. Verificando que o campeão do copernicismo defendia seu ponto de vista com tais argumentos, eles só podiam agarrar-se à idéia de que a teoria do movimento da Terra decididamente não tinha apoio em nada!

CONTRADIÇÃO NA EXPLICAÇÃO DOS VENTOS ALÍSIOS

Galileu apresentou os ventos alísios como prova do movimento da Terra, e não estava errado. Mas, de novo, esta prova se opõe à sua afirmação de que o movimenta da Terra não pode produzir nenhum efeito mecânico. Deixo a palavra a Maurice Clavelin (é meu os destaques):

“Todavia, não somente são incorretas as razões invocadas por Galileu, mas também são inconciliáveis com as conclusões da segunda Jornada. Para ver nos ventos alísios uma conseqüência do movimento diurno, Galileu obriga-se a modificar inteiramente suas idéias sobre o comportamento do ar. Na segunda Jornada, o ar, como todos os corpos terrestres, tem o poder de conservar indefinidamente o movimento circular uniforme, correspondente ao movimento diurno, desde que o tenha adquirido; o ar caracteriza-se, pois, por uma inércia total, assim como os corpos sólidos ou os líquidos, qual a água. Na quarta Jornada, em compensação, e sem que essa mudança de atitude seja motivada explicitamente, o ar torna-se, em virtude de sua tenuidade, um corpo que uma força infinitesimal basta para pôr em movimento, mas que também “é totalmente incapaz de conservar o movimento desde que cesse de agir o motor”; ele exige, portanto, para acompanhar a rotação diurna, o impulso direto das asperidades que existem na superfície da Terra.”[64]

Em outros termos, Galileu utiliza ou abandona o princípio de inércia segundo as necessidades de suas demonstrações!

CONTRADIÇÕES NO COMENTÁRIO DO MILAGRE DE JOSUÉ[65]

Galileu não se propõe aqui provar o movimento da Terra, mas somente mostrar que a narração bíblica da parada do Sol por Josué se compreende muito melhor no sistema de Copérnico que no de Ptolomeu. O que Galileu escreveu a respeito do assunto é de pasmar, e tem-se o direito de perguntar se se está na presença de um sábio, com todo o domínio de sua razão, ou diante de uma personagem que zomba de seu leitor.

O objeto da ciência é a determinação e o estudo das leis da natureza. Sendo o milagre uma derrogação, imprevisível e diretamente desejada por Deus, dessas leis, o cientista nada tem que dizer sobre isto; tem somente o dever, quando possível, de constatá-lo.

No entanto, ter-se-ia admitido muito bem que Galileu, analisando de mais perto o milagre de Josué, declarasse que Deus teria miraculosamente detido, por várias horas, a rotação da Terra e impedido, por milagre também, a destruição, pela inércia, de todos os seus habitantes.

Mas não foi isso o que imaginou Galileu. Ele declarou friamente que Deus deteve miraculosamente a rotação do Sol em torno de si mesmo! Eu repito: a rotação do Sol em torno de si mesmo (que se realiza em 25 dias). Ouçamo-lo falar das conseqüências:

“Se o movimento do coração num animal se detém, todos os outros movimentos dos membros param também. Da mesma maneira, se a rotação do Sol parasse, a de todos os planetas cessaria.”

Assim, Galileu nos diz imperturbavelmente que, quando Josué ordenou que o Sol e a Lua detivessem o seu curso (Josué X, 12-13), foi a rotação do Sol que ele paralisou, o que, por uma conseqüência natural, acarretou a imobilização de todos os objetos do sistema solar!

“Sendo o Sol, ao mesmo tempo, fonte de luz e princípio dos movimentos, quando Deus quis que, ao comando de Josué, todo o sistema do Mundo permanecesse imóvel, durante inúmeras horas, no mesmo estado, bastou-Lhe deter o Sol. De fato, tornando-se este imóvel, todos os outros movimentos pararam. A Terra, a Lua e o Sol ficaram na mesma posição, com todos os outros planetas.”[66]

Insisto: segundo Galileu, o milagre não é a parada da Terra, é o da rotação do Sol, e é esta parada que implicou, por uma conseqüência da modo algum miraculosa, a imobilidade da Terra.

Haveria, portanto, segundo Galileu, um liame entre o movimento dos planetas e a rotação do Sol, o que suporia uma ação à distância. Notemos que essa teoria não é absurda a priori, pois que é por uma ação à distância que o Sol obriga os planetas a descrever órbitas quase elípticas. Mas, além de gratuita a teoria, é surpreendente, para dizer o mínimo, encontrá-la sob a pena de Galileu, pelas razões seguintes:

1º) Galileu anatematizara Kepler por ter acreditado em tolices, como a ação à distância da Lua, pela qual se explicavam as marés. E agora ele introduz uma ação à distância do Sol, tão impensável quanto a outra!

2°) Uma parada da Terra não miraculosa está em oposição total não somente com o princípio da inércia corretamente formulado mas também com o princípio de inércia, tal como Galileu o compreendia, uma vez que, opondo-se nisso aos peripatéticos, ele sustentara, nas pegadas de Buridan e De Cusa, que não é necessária força alguma, ação alguma para entreter o movimento da Terra. E agora ele sustenta a teoria peripatética da necessidade de um motor — o Sol em rotação — para manter o movimento da Terra e dos planetas!

Acrescento que Galileu sabia muito bem que, em virtude da inércia, uma parada da Terra não miraculosa destruiria tudo em sua superfície.[67]

Lendo tais coisas sob a pena de Galileu, a gente esfrega os olhos e pergunta se não se está sonhando!

RESUMO — CONCLUSÃO

Maurice Clavelin classificou os argumentos apresentados por Galileu em favor do movimento da Terra em três categorias[68]:

1º) Galileu mostrou, primeiramente, “a vaidade daquela parte da filosofia natural tradicional em que o geocentrismo encontrara até então um suporte físico incontestado”.

É bastante exato, e expliquei mais acima por que Galileu, com suas descobertas astronômicas, contribuíra bastante para a derrocada de uma doutrina que afirmava não serem os astros e os corpos sublunares da mesma natureza e não obedecerem às mesmas leis. Mas não resultava disso que o geocentrismo fosse falso.

2º) Galileu respondeu (de maneira nem sempre justa) às objeções científicas feitas pelos peripatéticos contra o movimento da Terra. Mas possibilidade não quer dizer realidade. É bom lembrar, ademais, como já mostrei mais acima, que Galileu refutou as objeções ao movimento da Terra admitindo princípios que ele se apressou a renegar para provar esse movimento!

3º) Enfim, vimos que Galileu pretendeu provar cientificamente o movimento da Terra por argumentos tão especiosos, que eles levantaram dúvidas quanto à sua boa-fé.

Concluirei, pois, com Maurice Clavelin:

“Esses argumentos estão longe de ser negligenciáveis. No entanto, por mais impressionantes que tenham sido aos olhos de Galileu, não é menos verdade que nenhum deles é conclusivo. Que a filosofia natural peripatética seja falsa, que nenhuma das objeções levantadas contra o movimento da Terra seja válida, que a observação concorde no conjunto com o copernicismo, nada disso, contudo, impede que um sistema geocêntrico permaneça perfeitamente capaz de salvar todos os fenômenos aparentes. Somente a mecânica celeste de Newton, mostrando a impossibilidade física de uma cosmologia geocêntrica, inclinará definitivamente a balança em favor da representação heliocêntrica, mas esta na sua versão kepleriana, isto é, sob uma forma que Galileu jamais defendeu expressamente[69]. Portanto, é fora de dúvida que, afirmando a verdade de facto do copernicismo, Galileu claramente ultrapassou o que autorizavam suas descobertas ou seus próprios progressos na ciência do movimento.”[70]

Por fim, acrescento: a ausência de qualquer paralaxe das estrelas obrigava os astrônomos a admitir quer o geocentrismo, quer distâncias julgadas inverossímeis para as estrelas. Por outro lado, o movimento da Terra recebe o testemunho imediato de nossos sentidos. Compreende-se que, ainda aos olhos dos sábios, a imobilidade da Terra, nesse século XVII, tenha parecido mais provável que o seu movimento.

VI — BELARMINO, URBANO VIII, GALILEU E O MÉTODO CIENTÍFICO

Mostrarei, neste capítulo, que foram Belarmino e Urbano VIII, e não Galileu, que, nessa questão do movimento da Terra, encarnaram o espírito científico, tal como hoje se concebe.

Isso foi afirmado, no início do século, por um sábio e historiador das ciências, antigo aluno da Escola Normal Superior e membro do Instituto, Pierre DUREM[71]. Mas, como Maurice Clavelin recusa esse julgamento, creio necessário retomar a questão e mostrar que a evolução da ciência, a partir de 1908, nada tem feito senão confirmar a posição de Pierre Duhem.

SÃO ROBERTO BELARMINO

Entre outras funções, o Cardeal Belarmino era, na época, Geral dos Jesuítas, Consultor do Santo Ofício e Mestre de questões controvertidas no Colégio Romano. Sabe-se que o assunto Galileu foi apresentado durante todo o século XIX como prova do espírito “obscurantista” e “retrógrado” da Igreja, a ponto de os católicos baixarem a cabeça quando o assunto era evocado diante deles. Não podemos, portanto, duvidar de que, quando se falou, no século XX, de pôr nos altares o principal adversário de Galileu, numerosos cardeais tenham objetado que essa canonização era singularmente inoportuna, pois pareceria mostrar ao Mundo que a Igreja ainda perseverava no “obscurantismo” e no desprezo da ciência.

Ora, Pio XI, que era muito entendido em matéria de ciência e que fundara a Academia Pontifícia de Ciências, pensava de maneira diferente. Belarmino foi canonizado em 1931, isto é, numa época em que ninguém duvidava do movimento da Terra. Esse único fato leva a refletir e a indagar seriamente se a atitude de Belarmino para com Galileu não era inteiramente justificada.

A carta de Belarmino de 12 de abril de 1615
Esta carta, endereçada ao Pe. Foscarini e agradecendo o envio de sua obra acerca do sistema de Copérnico, era de fato destinada a Galileu. Correndo o risco de ser acusado de tê-las isolado de seu contexto, reproduzirei e comentarei duas passagens da carta que nos interessam do ponto de vista científico[72].

Primeira passagem

“Parece-me que Vossa Reverência e o Sr. Galileu agem prudentemente, contentando-se em falar hipoteticamente e não afirmativamente, como sempre entendi que Copérnico fez.”[73]

Um cientista do século XX não falaria de maneira diferente. Lembro que se considera hoje que uma teoria científica tem dois objetivos:

— Permitir prever os fenômenos tão exatamente quanto possível.

— Dar, se ela pode, uma descrição tão adequada quanto possível da realidade, no caso de que esta realidade não seja acessível, diretamente, aos nossos sentidos[74].

Uma teoria científica deve ser primeiramente imaginada pelo cientista. É a descrição de uma realidade suposta (descrição que é, aliás, raramente adequada)[75].

Uma teoria científica não passa de uma hipótese, de início pelo menos. A teoria científica será rejeitada ou corrigida, se se perceber que aquilo que se pode deduzir dela não concorda com os dados da observação e da experiência. Se, ao contrário, uma teoria científica permite, durante dezenas de anos, prever exatamente os fenômenos, ela será considerada uma aquisição definitiva da Ciência, mas do ponto de vista operacional somente[76]. De fato, jamais estaremos totalmente certos de que outra teoria, que descreva a realidade de maneira diferente, não colha os mesmos êxitos.

Mas é certo que, quando duas ou várias teorias explicam todas as observações conhecidas, então é ilegítimo escolher entre elas, enquanto novas observações não eliminarem uma delas[77].

Em sua imensa maioria, os cientistas atuais recusam os argumentos filosóficos e em particular a racionalidade e a inteligibilidade reclamadas por Galileu; a única condição que eles estabelecem, a priori, é a não contradição das hipóteses[78]. Se esta não contradição é provada, o único critério da adequação de uma teoria científica ao real é seu valor operacional ou prático. Infelizmente, esse critério é negativo, pois, se ele permite eliminar com certeza, jamais permite acatar uma teoria de maneira totalmente legítima. Em termos rigorosos, a teoria científica mais solidamente fundada jamais deixará de ser uma hipótese extremamente provável. Mas ocorre freqüentemente que esta probabilidade equivalha à certeza. É o caso atual da teoria do movimento da Terra, mas, repito, isso não era verdadeiro no tempo de Galileu*.

Considerados os conhecimentos da época, o pedido dirigido a Galileu de contentar-se em falar hipoteticamente estava, portanto, não somente conforme ao bom senso, mas conforme ao método científico atual. Pierre Duhem falava da mesma maneira há 72 anos (os destaques são meus):

“Muitos filósofos, desde Giordano Bruno, censuraram duramente André Osiander pelo prefácio que ele colocou no frontispício do livro de Copérnico. Os avisos dados a Galileu por Belarmino e Urbano VIII não foram tratados com menos rigor desde o dia em que foram publicados. Os físicos de nosso tempo pesaram mais minuciosamente que seus predecessores o valor exato das hipóteses empregadas em Astronomia e na Física; eles viram dissipar-se muitas ilusões que, havia pouco ainda, eram tidas como certezas; é necessário reconhecer, hoje, que a lógica estava do lado de Osiander, de Belarmino e de Urbano VIII e não do lado de Kepler e Galileu; aqueles viram o exato valor do método experimental, enquanto estes se enganaram quanto a ele.”

Os panegiristas de Galileu recusam esse julgamento. Maurice Clavelin julga poder ladeá-lo, declarando (sou eu quem destaca):

“Duhem só consegue atribuir a Osiander e Belarmino uma perfeita inteligência das teorias científicas isolando deliberadamente suas conclusões das premissas de que derivam em linha reta. Essas premissas, na realidade, nada mais são do que aquelas da filosofia natural tradicional; longe de ser inspirada por uma reflexão autêntica acerca das teorias científicas enquanto tais, a solução preconizada pelos filósofos e teólogos hostis ao copernicismo limita-se a reafirmar a antiga oposição do físico e do astrônomo e a necessária preeminência do primeiro sobre o segundo.”[79]

Supondo que Clavelin tenha razão, não se pode deixar de louvar esta filosofia natural tradicional por ter conduzido Belarmino a tal conclusão conforme à honestidade e ao bom senso: não se deve apresentar senão como hipótese aquilo que não se pode provar.

Segunda passagem da carta de Belarmino
“Se tivéssemos uma prova verdadeiramente conclusiva de que o Sol está no centro do Universo, de que a Terra está no terceiro Céu e de que o Sol não gira em torno da Terra, mas a Terra em torno do Sol, nesse caso deveríamos proceder com a maior circunspeção, explicando as passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário, e admitir que não as compreendemos, em vez de declarar falsa uma opinião que se provou verdadeira. Mas, por minha conta, não acreditarei que haja tais provas até que me deixem vê-las. Dizer que as coisas se passariam do mesmo modo se o Sol se achasse, por hipótese, no centro do Universo e a Terra no terceiro Céu não constitui prova.”

Esta passagem mostra, primeiramente, o respeito que Belarmino tinha pela verdadeira ciência. Ele não hesita em dizer, com efeito, que, se houvesse uma prova científica do movimenta da Terra, as pessoas da Igreja não relutariam em confessar que se tinham enganado em interpretar certas passagens da Bíblia em sentido literal muito estrito. Esta última alínea basta para demonstrar a improcedência das acusações de “obscurantismo” lançadas contra a Igreja no século XIX.

Vê-se em seguida a lucidez com que Belarmino denuncia o sofisma de Galileu, que pretendia dar como prova do movimento da Terra fatos que poderiam ser explicados, da mesma maneira, pelo geocentrismo.

Em face dos argumentos sofisticados que apresentara Galileu, compreende-se muito bem as declarações de Belarmino. Assim, pressionado por Belarmino, Galileu respondeu que tinha as provas mas se recusava a revelá-las, sob pretexto de que seus adversários eram demasiado estúpidos para compreendê-las. Eis as linhas inacreditáveis que ele endereçou, um mês depois, ao Cardeal Dini:

“Em minha opinião, o meio mais seguro e mais rápido de provar que a posição de Copérnico não é contrária à Escritura seria dar uma pilha de provas que demonstrassem que ela é verdadeira e que a posição oposta é insustentável; assim como as verdades não podem entrar em conflito, a verdade de Copérnico deve ser perfeitamente coerente com a Bíblia. Mas, como posso fazer isso, sem perder meu tempo, quando esses peripatéticos se mostram incapazes de seguir os raciocínios mais simples e mais fáceis?”[80]

Infelizmente, não foi somente aos peripatéticos que Galileu recusou revelar suas provas, mas também aos astrônomos jesuítas e a Belarmino. Como demonstrei acima, a verdade é que ele não possuía as provas. É transparente que, nesse duelo entre Belarmino e Galileu, foi o primeiro que deu prova de espírito científico moderno e não o segundo.

URBANO VIII

Deve-se ressaltar, primeiramente, que, quando Galileu resolveu escrever sua grande obra sobre o sistema de Copérnico, por volta de 1630, quis dar-lhe por título: “Diálogo acerca do Fluxo e Refluxo do Mar”. Este singular título se explica pelo fato de que Galileu pretendia insistir muito na prova “conclusiva” (prova do movimento da Terra pelas marés), com a qual ele tinha esperado, em 1615, convencer o Papa Paulo V. Sabe-se que foi Urbano VIII quem convenceu Galileu a adotar como título: Diálogo acerca dos Dois Sistemas do Mundo. Isto prova duas coisas:

— Urbano VIII compreendera perfeitamente que a prova pelas marés nada valia, o que mostra muito bem que seu julgamento, ainda o científico, era superior ao de Galileu.

— Isto confirma, ademais, que Urbano VIII não era hostil ao sistema de Copérnico e a uma discussão científica acerca de seu valor.

Mas é acerca da própria concepção de uma teoria científica que Urbano VIII mostrou sua espantosa superioridade em termos modernos. Em suas conversações com Galileu, ele tentou convencê-lo, em vão, de que o fato de predizer exatamente os fenômenos não basta para justificar uma hipótese. Dir-se-á que sustentar este ponto de vista não era muito difícil, uma vez que os sistemas de Ptolomeu e de Copérnico, ainda que correspondendo a realidades diferentes, explicavam, ambos, o movimento aparente dos astros. Mas, ainda assim, era preciso conhecer o assunto, e é notável que Urbano VIII, a despeito de suas ocupações, tivesse compreendido com rapidez o que Galileu jamais quis admitir.

Urbano chegou a acrescentar algo que nenhum cientista moderno recusará: ainda que, no momento, só se conheça uma hipótese que possa explicar os fatos, esta, nem por isso, estará provada. Seu raciocínio era o seguinte:

“Admitindo que uma hipótese explique de maneira satisfatória certos fenômenos, ela não é necessariamente justa, pois Deus é poderosíssimo e pode ter produzido esses fenômenos por meios inteiramente diferentes e inacessíveis ao espírito humano.”[81]

O cientista moderno suprimirá a referência a Deus, que não é essencial, e dirá mais ou menos a mesma coisa, assim:

“Admitindo que uma hipótese explique de maneira satisfatória certos fenômenos, nem por isso corresponde ela à realidade, pois esses fenômenos podem resultar de outra hipótese, que o espírito humano não tenha ainda examinado ou que seja incapaz de conceber.”

Sabe-se que no Diálogo Galileu pôs em cena três personagens. Dentre elas, uma representa o idiota da aldeia, Simplício, ridicularizado pelos demais, continuamente. Ora, Galileu teve a inconsciência de pôr na boca de Simplício a excelente afirmação científica do Papa acima citada, apresentando-o como “uma pessoa muito eminente e muito douta, diante da qual se deve calar”[82]. É difícil ser, ao mesmo tempo, tão pouco científico e tão insolente[83].

CONCLUSÃO

É certo, pois, que, pondo de lado o deplorável processo de 1633, os homens da Igreja e em particular Belarmino e Urbano VIII se comportaram como pastores prudentes e verdadeiros sábios. Mas é Galileu que estava com a razão, repete-se obstinadamente! Digo de novo: não confundamos as datas. Não se podia exigir que Belarmino e Urbano VIII antecipassem as descobertas de NEWTON, BRADLEY e FOUCAULT. Insistindo em argumentos cujo caráter especioso todas as pessoas de bom senso percebiam, Galileu não podia reforçar senão a convicção de que a teoria da rotação da Terra se apoiava em brisa.

(Traduzido por Afonso dos Santos. Fonte: De Rome et d’Ailleurs, maio, junho e julho de 1980, números 11/12).
(Revista PERMANÊNCIA, 1982, novembro/dezembro, números 168/169.)  

NOTAS

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* Hasard et Certitude, 2ª edição, 1973. — Difundido por Téqui.

[1] Chama-se “paralaxe” o ângulo sob o qual se veria da estrela a órbita da Terra. Esse ângulo, mensurável, é praticamente nulo para as estrelas, porque estas se encontram a enormes distâncias.

[2] De fato, levado por uma velocidade uniforme de 20 km/s para um ponto do Céu chamado “Ápex”. Em razão de sua massa, cerca de mil vezes superior à massa dos planetas, o Sol jamais se afasta desse centro de gravidade, mas executa em torno dele um movimento particularmente complexo.

[3] Encontrar-se-á uma exposição mais minuciosa das provas do movimento da Terra em dois de meus artigos publicados nos números 82 e 83 de La Pensée Catholique (dezembro 1962/janeiro 1963).

[4] Denominavam-se assim os discípulos de Aristóteles, porque o Mestre ensinava, ao que parece, passeando com os seus alunos.

[5] Sentimo-nos, hoje, perplexos quando lemos sob a pena de Aristóteles que, para alturas iguais, o tempo de queda de um corpo é inversamente proporcional à sua massa. Imediatamente dizemos: Como essas pessoas não tiveram a idéia de deixar cair, simultaneamente, de uma janela uma bilha e uma grande pedra? Elas teriam então verificado, facilmente, que esses dois “pesados”, como então se dizia, chegam ao solo praticamente ao mesmo tempo!

Esquece-se que, durante 20 séculos, se evitou experimentar e que, salvo em astronomia, se observava muito mal. Pode-se compreender esta atitude imaginando que a Ciência não tinha, então, o caráter utilitário que tem hoje e considerando que os filósofos de então se interessavam muito mais pelas causas do que pelos efeitos. O que os atraía não era a lei da queda dos corpos, mas saber por que eles caíam. Na realidade, responderam tão mal a essa segunda questão quanto à primeira.

[6] Arthur Koestler, Les somnambules, Calman-Lévy, 1961, p. 413.

[7] Galilée — Aspects de se vie et de son oeuvre, obra coletiva publicada em 1966 com o concurso da Academia das Ciências, p. 10.

[8] Koestler, op. cit., p. 454.

[9] Philippe Decourt, “Archives Internationales Claude Bernard” — La Véritable histoire du procès de Galilée, p. 19.

[10] René DUGAS, Maître de conférence à l’École Polytechnique — Histoire de la Mécanique, Dunod, 1950, pp. 63-64.

[11] Citado por Pierre Duhem, Les systèmes du Monde, tomo IX, p. 344.

[12] Esta afirmação que Oresme, evidentemente, não podia justificar era profundamente justa, pois que as estrelas estão a distâncias tais, que sua velocidade ultrapassaria a da luz, coisa que sabemos, desde Einstein, ser impossível.

[13] René DUGAS, op. cit., pp. 63-64.

[14] Arthur Koestler, Les somnambules, Calman-Lévy, 1961, p. 138.

[15] Idem, p. 144.

[16] Idem, p. 422.

[17] É interessante notar que, cinco séculos antes de Einstein, Nicolau de Cusa afirmara ser o Universo simultaneamente finito e ilimitado. (Dugas, op. cit., p. 70.)

[18] Maurice Clavelin, grande entusiasta de Galileu, contestou essa prioridade de Buridan e Cusa assinalada e longamente comentada pelo grande sábio e historiador das ciências Pierre Duem (Histoire das doctrines cosmologiques de Platon à Copernic, tomo VII, pp. 328-340). A argumentação de Clavelin consiste em dizer que, em lugar de se contentar com a verdade experimental (ou pelo menos com parte dela, como fez Galileu, nosso Cônego e nosso Bispo acrescentaram que era o impetus engendrado na substância do projétil que entretinha seu movimento. Assim, declara Clavelin, Buridan e De Cusa partilharam do erro de Aristóteles acerca da necessidade de um motor para entreter o movimento. Isso é brincar com as palavras. O erro de Aristóteles foi ter acreditado que era necessário um motor exterior ao móvel para sustentar seu movimento, o que acarretou absurdos como sustentar que é o ar que impulsionava a flecha e afirmar correlativamente que o “movimento violento” era impossível no vácuo!

Muito antes de Galileu, Buridan e De Cusa haviam retificado esse erro. O fato de ter acrescentado à verdade experimental que o impetus engendrado na substância do projétil representa o motor interno nada tira aos seus méritos, pois o que eles tinham acrescentado é uma proposição filosófica de modo algum absurda, mas inverificável e que em nada diminui a verdade científica que proclamaram. A maior parte dos sábios atuais estima que a perpetuação do movimento na ausência da qualquer força é uma coisa profundamente misteriosa. Diante dessa verificação experimental, tem-se o direito de escolher entre três atitudes:

— Limitar-se a verificar o fato — é a atitude positivista.

— Dizer que não se sabe por que continua o movimento. É a atitude da maioria dos sábios atuais.

— Dar uma explicação filosófica qualquer mas inverificável, como o fizeram Buridan e De Cusa.

Não se tem o direito de contestar a prioridade de Buridan e de Cusa sob pretexto de que eles acrescentaram à verificação exata dos fatos uma explicação filosófica de modo algum absurda, a qual os positivistas julgam inútil (e é de fato inútil) à ciência. Em suma, não se tem o direito de contestar a um sábio a prioridade de uma descoberta científica sob pretexto de que ele a tenha aditado de uma interpretação filosófica inverificável.

[19] Pierre DUHEM (1861-1916), antigo aluno da Escola Normal Superior, membro da Academia das Ciências, Histoire des doctrines cosmologiques de Platon à Aristote, tomo VII, pp. 328-340.

[20] Op. cit., p. 55.

[21] Eis um exemplo de interpretação literal impossível: “Moisés nos diz que, antes do Dilúvio, Deus se arrependeu de ter criado o homem (Gênesis, VI, 91). Ora, Deus não poderia arrepender-se, sendo imutável.”

[22] Em especial pela boca de Leão XIII, na encíclica Providentissimus.

[23] O Conhecimento do tempo, publicação anual que está nas mãos de todos os navegadores, dá as coordenadas geocêntricas dos astros.

[24] Não penso faltar com o respeito ao Santo Padre ao deplorar que, em sua alocução de 10 de novembro de 1979, ele tenha erigido Galileu como mestre de pensamento em matéria de exegese e declarado que o ponto de vista desse sábio sobre a Sagrada Escritura foi confirmado pela presença, na Bíblia, de “gêneros literários” diferentes, presença reconhecida por Pio XII em sua encíclica Divino afflante Spiritu. Preferir-se-ia que o Santo Padre lembrasse que Bento XV, na encíclica Spiritus Paraclitus, de 1920, embora reconhecesse a justeza da teoria dos “gêneros literários”, “enquanto se encerra em certos limites”, havia firmemente condenado o abuso que dela se fazia já no início do século. Hoje, “gênero literário” tornou-se a palavra mágica que certos exegetas se contentam em utilizar para resolver todas as dificuldades. E pode-se dizer, na esteira de Bento XV, que muitos se servem hoje dessa expressão de maneira que implica demolir o princípio de inerrância bíblica.

Melhor seria que, em lugar de referir-se unicamente ao princípio justo, mas ambíguo, dos “gêneros literários”, o Santo Padre tivesse simplesmente relembrado a encíclica Providentissimus, de Leão XIII, de 1893, que é e permanece a carta fundamental de qualquer exegese séria da Bíblia.

[25] Citei, mais acima, a carta de desculpas que o Geral dos Irmãos Pregadores dirigiu a Galileu em conseqüência de um ataque ao movimento da Terra feito em nome da Bíblia pelo Pe. Caccini em outubro de 1614.

[26] Carta de Galileu ao Cardeal Dini de maio de 1615: “Gostaria tanto quanto possível de mostrar que eles se enganam, mas fecham-me a boca, ordenam-me que não me ocupe da Bíblia” (Koestler, op. cit., p. 432). Um mês depois, porém, em carta à Grande Duquesa, à qual ele deu grande publicidade, Galileu discutia abundantemente o assunto.

[27] Koestler, op. cit., p. 428.

[28] Eis um extrato dessa encíclica:

“Hipótese não é ciência. Resta-nos dizer algumas palavras sobre questões que se referem às ciências positivas, mas que estão em relação mais ou menos estrita com as verdades da fé. Muitos, com efeito, reclamam, com insistência, que a religião católica tenha em grande conta essas disciplinas. O que sem dúvida alguma é coisa louvável, quando se trata de fatos verdadeiramente estabelecidos; mas, quando se trata de hipóteses que tocam no ensino da Sagrada Escritura ou da Tradição, ainda que tenham algum fundamento científico, é preciso acolhê-las com prudência. Se tais hipóteses se opusessem direta ou indiretamente à doutrina revelada par Deus, seriam um postulado totalmente inaceitável.

O evolucionismo

Conseqüentemente, a Igreja não proíbe que a doutrina da evolução, quando pesquisa se o corpo humano foi extraído de uma matéria já existente, e viva — pois a fé católica nos obriga a manter a imediata criação das almas por Deus — no estado atual das ciências e da teologia, seja objeto de pesquisas e discussões, por parte dos sábios de um e de outro partidos, de tal modo que as razões que favorecem ou combatem uma ou outra opinião sejam examinadas e julgadas com a moderação e seriedade necessárias, com a condição, todavia, de que todas estejam dispostas a submeter-se ao julgamento da Igreja, à qual Cristo confiou o mandato de interpretar com autoridade as Escrituras e proteger a fé. Alguns ultrapassam essa liberdade de discussão e agem como se já se tivesse estabelecido, de maneira absolutamente certa, a origem do corpo humano a partir de uma matéria já existente e viva, e como se nada houvesse, nas fontes da revelação divina, a impor moderação e prudência.”

[29] Veremos mais tarde que fato algum, na época, permitia escolher entre os sistemas de Copérnico (Sol imóvel) e o de Tycho-Brahe (Terra imóvel).

[30] Koestler, op. cit., p. 408.

[31] Eis a lista elaborada por Koestler do que foi falsamente atribuído a Galileu: “Na mitografia racionalista, ele transforma-se na Donzela de Orleães da Ciência, ou no São Jorge que esmagou o dragão da Inquisição. Contudo, não é muito surpreendente que a glória desse homem de gênio repouse em descobertas que ele jamais fez e em façanhas que jamais realizou. Contrariamente à afirmação de muitos manuais, ainda que recentes, de história das ciências, Galileu não inventou o telescópio, nem o microscópio, nem o termômetro, nem o relógio de pêndulo. Ele não descobriu a lei de inércia; nem o paralelogramo de forças ou de movimentos; nem as manchas solares. Não trouxe nenhuma contribuição à astronomia teórica, não deixou cair peso algum do alto da Torre de Pisa, não demonstrou a verdade do sistema de Copérnico. Não foi torturado pela Inquisição, não sofreu nos latíbulos da Inquisição, não disse “eppur si muove”, não foi mártir da ciência.”

[32] Koestler, op. cit., p. 450.

[33] Idem, pp. 65 e 545 — Koestler dá o pormenor dos epiciclos introduzidos por Copérnico, e ver-se-á mais tarde que este utilizava nove epiciclos (digo nove) para explicar o movimento da Terra!

[34] Lembro mais uma vez que se sabe, desde Newton, que o Sol não é imóvel, mas descreve em torno do centro de gravidade do sistema solar um movimento particularmente complexo.

[35] Maurice Clavelin, La philosophie naturelle de Galilée, Armand Collln, 1968, Apêndice IV, pp. 478-482.

[36] Essas linhas são extraídas de Il saggiatore, que apareceu em 1623, em resposta a uma brochura de Grassi, de 1619, onde este, entre outras coisas, acusava Galileu de apropriar-se de descobertas que não lhe pertenciam (Koestler, op. cit., p. 472).

[37] Koestler, op. cit., pp. 340-341.

[38] Idem, p. 467.

[39] Idem, p. 62.

[40] Ao arrepio das regras, nem sequer foi aprisionado durante o processo. Foi alojado suntuosamente em Roma, e chegaram a pôr, à sua disposição, uma carruagem para que ele pudesse visitar comodamente Roma e seus arrabaldes!

[41] M. Clavelin, op. cit., pp. 219-220.

[42] Idem, p. 222.

[43] Idem, pp. 252-253.

[44] Idem, pp. 258-259.

[45] Sua obra mais importante é o Almagesto. Foi traduzido em francês no início do século XIX pelo astrônomo Delambre.

[46] Os epiciclos não têm, evidentemente, nenhuma realidade física: trata-se no espírito de Ptolomeu de um simples meio geométrico de cálculo. Só é real o movimento resultante do astro. Sob pretexto de que Ptolomeu utilizou para Marte, Júpiter e Saturno deferentes de raio igual à distância média desses planetas à Terra, pretendeu-se que ele havia feito esses planetas girar em torno de nosso globo. Tais críticas denotam total incompreensão da questão. Como a soma geométrica de vários vetores é independente da ordem em que são tomados esses vetores, pode-se tomar um deferente de raio igual à distância do planeta ao Sol, tanto quanto se pode tomar uma distância igual à da Terra ao Sol. Essa crítica equivale mais ou menos a isto: como 1 + 9 = 10, a gente se engana escrevendo 9 + 1 = 10.

[47] Digo de certo modo porque se pode mostrar hoje que não é possível representar exatamente uma órbita percorrida segundo a lei de velocidade de Kepler pelo processo de Ptolomeu, ainda que com um número infinito de epiciclos. No entanto, utilizando os meios matemáticos modernos, pode-se chegar à precisão obtida por Ptolomeu com menor número de epiciclos.

[48] As informações que se seguem são extraídas da obra de Koestler (já referida, p. 545), que parece ser o único dos contemporâneos que leu a obra de Copérnico.

[49] Repito que o nosso moderno Conhecimento do tempo dá as coordenadas geocêntricas dos planetas, pois são as únicas de que se necessita.

[50] Pode-se mostrar hoje que a estrela mais próxima está cem mil vezes mais afastada do Sol do que o está a Terra.

[51] Considera-se, hoje, como fixo um sistema de eixos ligados às estrelas. Deslocando-se as estrelas em todos os sentidos, é necessário, para determiná-las, levar em conta esses movimentos. De qualquer modo, em relação a esses eixos, o sistema solar se desloca com uma velocidade de 20 km/seg.

[52] Lembro que um movimento circular uniforme é um movimento “acelerado”. Só o movimento retilíneo uniforme é desprovido de aceleração.

[53] É o centro de gravidade do sistema solar que é “não acelerado”. Mas, como a massa total dos planetas e dos satélites é igual, mais ou menos, a um milésimo somente da massa do Sol, este não se afasta muito do centro de gravidade.

[54] Os leitores pouco familiarizados com essas questões de mecânica compreenderão o problema da maneira seguinte:

— Imaginemos um aparelho mecânico que represente o sistema solar e no qual pequenas esferas façam as vezes da Terra e dos planetas e girem em torna de uma esfera que figura o Sol. Suponhamos que esse sistema esteja instalado no grande salão de um navio. Se o navio está imóvel, a esfera-Sol estará imóvel também, e teremos uma boa representação do sistema de Copérnico.

Suponhamos agora que o navio esteja em movimento em qualquer direção e com qualquer velocidade. Nada mais estará imóvel em nosso aparelho, mas é claro que nada terá mudado para os observadores situados no navio, porque as posições relativas das esferas que representam os objetos do sistema solar são totalmente independentes dos movimentos do navio. Obriguemos, agora, o navio a deslocar-se constantemente com uma velocidade oposta à da esfera-Terra (o que quer dizer que o navio deverá descrever um círculo que tem por raio a distância da esfera-Sol à esfera-Terra, portanto um círculo muito menor que o navio). Resultará disso que a esfera-Terra ficará imóvel e teremos uma representação do sistema geocêntrico. Mas, se os observadores situados no salão do navio ignoram se o navio está imóvel ou em movimento, ser-lhes-á impossível dizer se é a esfera-Sol ou a esfera-Terra que está imóvel e até afirmar que haja um objeto imóvel no aparelho.

[55] Galilée, PUF, 1967, p. 179. É de notar a completa incompreensão do autor quanto ao significado dos “epiciclos, deferentes e outros círculos”, destinados segundo ele a “obrigar Vênus, pela dupla virtude do metafísico e do geômetra”, a girar em torno da Terra. Prosseguindo no mesmo tom, ter-se-ia podido escrever que Copérnico, em razão de seus epiciclos, teria obrigado a Lua a girar em torno do Sol.

[56] Galilée, op. cit., pp. 127-153. Maurice Clavelin: Galilée et le refus de l’équivalence des hypothèses.

[57] Eis um texto muito curioso de Newton:

“Que a gravitação seja inata, inerente e essencial à matéria, de modo que um corpo possa agir sobre outro à distância, no vácuo, sem mediação alguma, através da qual e pela qual sua ação e sua força possam passar de um a outro, é para mim absurdo tão grande, que creio que homem algum dotado de uma faculdade competente de pensar em matéria de filosofia nisso poderá cair” (Citado por Koestler, op. cit., p. 323). É bom que Newton não tenha rejeitado esse “absurdo” e o tenha utilizado como meio de cálculo, com sucesso que ultrapassou todas as suas esperanças.

* A maneira correta de dizer isso é: “… confia mais na observação do que na pura lógica”. [Nota da Redação.]

[58] Com exceção da “notação” e da “precessão dos equinócios”, fenômenos muito lentos, hoje inteiramente explicados pela ação do Sol e da Lua sobre a dilatação equatorial da Terra.

[59] Koestler, op. cit. pp. 460-461.

[60] Philippe DECOURT, op. cit., p. 55.

[61] Koestler, op. cit., p. 461.

[62] Na teoria de Galileu a causa única que podia provocar uma variação na altura das marés era a inclinação do eixo de rotação da Terra sobre a eclíptica. Nem isso, porém, poderia explicar as variações mensais da altura.

[63] M. Clavelin, op. cit., p. 480.

[64] Idem, p. 481.

[65] Carta à Duquesa Christina, de 1614. Tradução do Pe. Russo. Galilée, aspect de sa vie et de son oeuvre, obra coletiva publicada em 1966 com o concurso da Academia de Ciências.

[66] Galilée, op. cit., p. 358.

[67] Os guerreiros de Josué, assim como os outros homens, participavam dos dois movimentos da Terra, notadamente de seu movimento de rotação em torno do Sol, que lhe imprime uma velocidade linear de 30 km/s mais ou menos É fácil calcular que, para que homens e coisas não fossem projetados longe pela parada desse movimento, seria preciso que essa parada fosse progressiva e feita numa dezena de horas pelo menos. Se a ordem de Josué fosse executada instantaneamente ou mesmo somente em alguns minutos, tudo seria destruído sobre a Terra, montanhas, cidades, florestas etc. A sorte dos homens seria idêntica à dos passageiros do Concorde que se chocasse com uma montanha.

[68] Galilée, op. cit., p. 127.

[69] É uma versão que Galileu sempre combateu expressamente.

[70] Galilée, op. cit., p. 129.

[71] Pierre Duhem, Essai sur la notion de théorie physique de Platon à Galilée, Hermann, Paris, 1908.

[72] Utilizei a tradução integral dessa carta feita por Santillana, autor inteiramente favorável a Galileu, na obra Le Procès de Galilée”, Club du meilleur livre, 1955, p. 119.

[73] É patente que Belarmino foi enganado pelo prefácio que Osiander fez à obra de Copérnico, ao contrário do que este diz, porque ele afirma, em sua dedicatória a Paulo III, que o movimento da Terra é uma realidade. Deve-se ressaltar que, sem dúvida por diplomacia, Belarmino finge acreditar em sua carta que Galileu falou hipoteticamente, quando, na realidade, ele afirmou categoricamente o movimento da Terra.

[74] Uma realidade acessível aos nossos sentidos é apenas objeto de técnica. Não é preciso, por exemplo, nenhuma teoria científica para medir as dimensões do Globo: são suficientes teodolitos e um bom tratado de trigonometria. Ao contrário, a teoria atômica é uma teoria científica, pois é impossível ver os átomos e até provar diretamente que a matéria é descontínua.

[75] Parece estar definitivamente provado que, na escala atômica pelo menos, nossas representações mentais surgidas da observação do Mundo em nossa escala não poderiam corresponder inteiramente à realidade.

[76] Como exemplo de teoria definitivamente acolhida pela Ciência sob o ponto de vista operativo, citarei a mecânica de Newton, o eletromagnetismo de Maxwell e a relatividade restrita de Einstein.

[77] A mecânica newtoniana e a relatividade generalizada de Einstein permitem, ambas, prever os movimentos dos planetas e dos engenhos espaciais com farta precisão. Os astrônomos e engenheiros fazem então seus cálculos com a teoria mais simples, que é a de Newton, mas o sábio espera que novas observações lhe permitam pronunciar-se.

[78] Pretendeu-se, no inicio do século, rejeitar a teoria da relatividade restrita de Einstein, porque se fundava em hipóteses contraditórias. Há muito tempo já se fez justiça, e os espetaculares êxitos registrados por essa teoria nos últimos 75 anos obrigam a considerá-la uma aquisição definitiva da Ciência, pelo menos sob a óptica operativa.

* Destaque da Redação.

[79] Galilée, op. cit., p. 133.

[80] Koestler, op. cit., pp. 431-432.

[81] Koestler, op. cit., p. 455.

[82] Idem, p. 458.

[83] Que se não objete aqui que as duas outras personagens do Diálogo não refutaram Simplício. Eles não o fizeram simplesmente porque nada havia que responder. Galileu utiliza aqui seu procedimento constante: ridicularizar o adversário em lugar de refutá-lo. O processo é muito hábil, mas seria preciso que Galileu estivesse cego de orgulho para não compreender que não se escarnece de um amigo, sobretudo se esse amigo é o Papa.

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A INQUISIÇÃO (UMA HISTÓRIA MAL CONTADA!)

Em síntese: Realizou-se em Roma de 29 a 31 de outubro de 2000 um Simpósio Internacional sobre a temática da Inquisição, cujas atas fo­ram publicadas. O presente artigo transmite alguns traços importantes do grosso livro daí resultante, tendo em vista especialmente a bruxaria.

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De 29 a 31 de outubro de 2000 realizou-se em Roma um Simpósio internacional sobre a densa temática da Inquisição. Pronunciaram-se sobre o fato com objetividade científica vários historiadores, cujos traba­lhos foram posteriormente editados sob o título “L’INQUISIZIONE", volu­me precioso pela riqueza dos temas debatidos.

O problema "Inquisição" já foi freqüentemente abordado em PR; ver 384/1994, pp. 214ss; 452/2000, pp. 2ss: 454 2000, pp. 120ss. Nas páginas subseqüentes consideraremos os traços de mentalidade que ins­piraram a Inquisição tais como são apresentados pelos expositores da temática do Simpósio.

1. A mentalidade inspiradora

A Apresentação do tema do Simpósio é da autoria do Cardeal Georges Cottier, que se refere à Exortação Apostólica “Tertio Millennio Adveniente". Neste documento o Papa João Paulo II pondera o tema "Inquisição" como sendo "um capitulo doloroso ao qual os filhos da Igreja não podem deixar de voltar numa atitude de arrependimento; com efeito, consentiram, principalmente em certas épocas, em aplicar métodos de intolerância e até de violência ao serviço da verdade" (n° 35).

Nesta passagem interessa salientar que, segundo o Papa, o arre­pendimento toca aos filhos da Igreja, ficando a Mãe Igreja avessa à culpa de seus filhos, pois é, conforme São Paulo, "a Esposa de Cristo sem mancha nem ruga" (Ef 5, 25-27). A distinção entre "Mãe Igreja" e "filhos da Igreja" corresponde à que Jacques Maritain propõe entre "Pessoa" e "pessoal da Igreja"; quem peca, são os filhos ou o pessoal da Igreja.

Pouco adiante o Papa acrescenta; "Verdade é que, para julgar cor­retamente o passado, não nos podemos dispensar de considerar atenta­mente os condicionamentos culturais da respectiva época; com efeito, pelo influxo desses condicionamentos muitos puderam, de boa fé (can­didamente), pensar que para dar autêntico testemunho da verdade era necessário reduzir ao silêncio, ou ao menos marginalizar, a opinião alheia. Freqüentemente concorriam vários motivos para a produção de um terre­no favorável à intolerância, alimentando um clima passional ao qual ape­nas grandes gênios verdadeiramente livres e cheios de Deus consegui­am de certo modo escapar" (n° 35).

E quais seriam esses condicionamentos culturais?

Sejam enumerados os três seguintes:

a)  Alta estima dos valores espirituais

A alma humana, alimentada pela fé é chamada a participar da bem-aventurança do próprio Deus – verdade esta que era grandemente apre­ciada… Ora a heresia deteriora a fé e, segundo os antigos, é blasfêmia contra Deus e perigo de envenenamento para a alma humana. São To­más de Aquino (f 1274) levava esta concepção ao ponto de dizer que a heresia é crime de blasfêmia, que o Antigo Testamento punia com a pena capital,… considerada também crime de lesa-majestade divina que o Di­reito Romano punia com a mesma pena. São palavras do Santo Doutor:

"Os hereges podem licitamente ser condenados à morte por um julgamento civil, pois blasfemam contra Deus e observam uma falsa fé. Assim podem ser punidos com mais razão do que aqueles que cometem o crime de lesa-majestade ou o de falsificação de moeda" (II Sententiarum, dist. 13, questão 2, artigo 3c).

São Tomás fazia o paralelo entre a lesa-majestade divina e a impe­rial (humana) porque vivia num regime de Cristandade, que aspirava ao ideal da Cidade de Deus na terra ou à teocracia. Como ele, deviam pen­sar muitos mestres e discípulos de épocas passadas.

A esta nota cultural se associa a seguinte:

b)  "Um Tribunal assistido"

Sob este título o Prof. Jean-Louis Biget desenvolve considerações, mostrando que à Inquisição não podiam deixar de estar ligados interes­ses políticos, pois nada na Idade Média (e ainda posteriormente) era meramente leigo ou profano, dado o regime de Cristandade:

"A Inquisição é sempre considerada uma instituição da Igreja. Isto está certo, mas convém enfatizar uma realidade fundamental, evidente, mas freqüentemente esquecida, a saber: a Inquisição só podia atuar as­sociada aos poderes leigos. Ela não dispunha de poder material. Ela só podia incutir temor, se contasse com o apoio dos príncipes e dos Gover­nos. Em lugar nenhum os inquisidores podiam prender alguém, assentar-se, julgar, mandar executar sua sentença…. se não dispusessem da força armada e da assistência do regime local, dos seus representantes e dos seus agentes.

Essa colaboração era tida como um dever de Estado por parte dos detentores do poder temporal. Tal colaboração era mais fácil na medida do interesse dos governantes na confiscação dos bens dos condenados, que redundavam em favor do Estado em troca do sustento ministrado aos inquisidores – sustento este que criava uma forte dependência dos inquisidores em relação ao poder civil. Na verdade, os gastos com os inquisidores eram elevados, como demonstram as raras prestações de contas que foram conservadas.

Enfim é certo que a erradicação dos comportamentos indesejados e o reforço da unidade da Igreja e de unidade da fé serviu à unidade politica numa época em que o vínculo religioso era a única garantia da coesão das populações" (Atas p. 75).

Estas reflexões dão a entender ainda outro fato: com o passar do tempo, a Inquisição foi não somente sustentada, mas foi também mani­pulada pelo poder do Estado atendendo a interesses políticos: tenham-se em vista os casos dos Cavaleiros Templários, vítimas da Inquisição manipulada pelo rei Filipe IV o Belo, da França, em 1312, e o de S. Joana d’Arc, condenada por pressão das autoridades inglesas, porque impedia a invasão da França por parte da Inglaterra. Muito mais ainda foi manipu­lada a Inquisição na península ibérica, principalmente na Espanha, onde os reis queriam unificar a população eliminando judeus e árabes. Por causa da sua ingerência nos processos inquisitoriais os monarcas espa­nhóis entraram mais de uma vez em conflito com a Santa Sé; quando foi abolida no século XIX trazia o título de "Inquisição Régia". Ver PR 504/ 2004, pp. 432; 403/1995, pp. 549.

c) Demônios e bruxo(a)s

Entre os parâmetros culturais dos antigos, existe um que pode pa­recer especialmente estranho ao cidadão contemporâneo, mas que mo­tivou celeuma: a bruxaria.

Por "feiticeira" ou "bruxa" entendia-se, naquela época, uma mulher manipulada em seu corpo (sexualmente) pelo demônio. Admitia-se que o Maligno pudesse ter consorcio sexual com mulheres: se fosse demonio masculino, seria chamado íncubo (de noite copulava com mulheres, perturbando-lhes o sono e causando-lhes pesadelos, como se dizia). Se fosse demônio feminino, era dito súcubo, aquele que se deita por baixo, copulando com um homem e causando-lhe pesadelos. Deste contato carnal nasceriam filhos… filhos enfeitiçados e malvados sobre a terra!

Os medievais acreditavam na existência de tais seres e tais fenô­menos – o que, na verdade, é totalmente impossível, pois o demônio (anjo mau) não tem sexo nem corporeidade. Movidos por tal crença, os defensores da boa Ética, na Idade Média, não podiam deixar de se insur­gir com veemência contra tal procedimento; era, para eles, um dever de consciência ao qual não se podiam furtar sem que a consciência os acu­sasse gravemente.

Evidentemente em nossos dias nenhum teólogo afirma que o de­mônio tem corpo e pode efetuar cópula sexual. É espírito, independente de qualquer constituição somática. Os antigos, porém, tiveram dificulda­de de conceber um espírito puro, isento de corporeidade (ainda que etérea ou sutil). Os estóicos imaginavam o pneuma divino como algo de corpóreo a penetrar o mundo material. Os judeus iam mais longe: admitiam que os anjos tivessem pecado sexualmente com mulheres, dando ocasião ao dilúvio narrado em Gn 6-9; cf. Gn 6, 1s (e a interpretação dada pela tra­dução grega dos LXX). Na Tradição cristã, tal concepção esteve presen­te até o fim da Idade Média, como se vê; nunca foi dogma de fé, mas apenas tese comum.

Compreende-se que quem abraçasse tal pressuposto e admitisse a existência de íncubos e súcubos, reagisse energicamente contra tão grande mal. Os medievais o faziam de boa fé, dentro das categoriais de pensamento que lhes eram familiares e de cuja validade não duvidavam. Os historiadores que hoje consideram esse passado, tendem a julgá-lo através das categorias de pensamento modernas, exigindo dos antigos o que não sabiam, nem podiam dar.

Aos 5 de dezembro de 1484 o Papa Inocêncio VIII assinou uma Bula que condenava a prática da bruxaria, como se depreende do texto abaixo:

"Inocêncio Bispo, Servo dos Servos de Deus, para a perpétua re­cordação dos fatos…

Recentemente chegou aos nossos ouvidos, não sem nos molestar profundamente, a notícia de que em territórios da Alemanha Setentrional (províncias da Mogúncia, Colônia, Tréviris) assim como nas províncias, cidades, terras e nos locais de Salzburg e Bremen, várias pessoas de ambos os sexos, esquecidas de sua salvação e desviadas da fé católica têm tido relações com demônios íncubos e súcubos e mediante encantamen­tos, canções renegam sacrílegamente a fé do seu Batismo… por instiga­ção do inimigo do gênero humano…".

Aliás já aos 19 de abril de 1080 o Papa Gregório VII dirigia uma carta ao rei Hakon da Dinamarca em que condenava prática semelhante e a bruxaria existente naquele país, conforme o Prof. Gustav Henningsen, à página 595 das Atas.

Vê-se assim quão antiga e persistente foi a crença na possibilida­de de cópula carnal dos demônios com seres humanos. Tal temática será mais amplamente explanada no Apêndice deste artigo.

A propósito do número de pessoas condenadas pela Inquisição há quem fale de milhares ou mesmo milhões de vítimas, dando largas à fan­tasia sem citar documentação correspondente. Na verdade, não é possível avaliar o total de execuções perpetradas pela Inquisição, pois faltam esta­tísticas e registros que dêem uma noção fiel dos acontecimentos. As pró­prias Atas do Simpósio são sóbrias a respeito; um vislumbre da história é oferecido pelo Prof. Gustav Henningsen à p. 577ss nos seguintes termos:

"A fim de obter uma idéia mais exata da participação do Santo Ofí­cio na caça medieval às bruxas, examinei a relação de processos feita pelo Prof. Richard Kieckhefer e pude averiguar que os processos de bru­xaria propriamente dita estão repartidos entre tribunais civis, episcopais e inquisitoriais. De um total de mil causas. 63% foram julgadas pelas autoridades civis, 17% por tribunais episcopais, ao passo que 20% toca­ram à Inquisição.

Quase a metade dos 200 processos por bruxaria ficaram aos cui­dados de dois inquisidores alemães: Jacob Sprenger (1436-1495) e Heinrich Institores (1432-1492). Em dado momento a sua fanática perse­guição às bruxas no sul da Alemanha provocou a oposição das autorida­des civis e eclesiásticas. Os dois inquisidores , porém, apelaram para o Papa Inocêncio VIII, que respondeu com a citada bula "Summis Desiderantes Affectibus", de 5 de dezembro de 1484, bula na qual enu­mera os malefícios causados pelas bruxas: "matam a criança no ventre de sua mãe, fazem o mesmo com o feto do gado, extinguem a fertilidade dos campos, estragam os frutos da videira e de outras árvores frutíferas, prejudicam as plantações de trigo e outros cereais, molestam homens e mulheres com espantosas doenças internas e externas, impedem os ho­mens de copular e as mulheres de conceber, já que marido e mulher não se reconhecem mais".

A bula papal teve como resultado fazer que o povo desse seu apoio à Igreja no combate a bruxaria.

A minuciosa consideração do passado sugere uma reflexão sobre o presente e o futuro da Igreja.

2. O olhar se volta do passado para o presente e o futuro

O Cardeal Georges Cottier, seguindo o traçado da Exortação Apos­tólica "Tertio Millennio Adveniente", propõe uma lição do passado para o presente e o futuro da Igreja assim formulada por João Paulo II:

"Dessas atitudes dolorosas do passado depreende-se uma lição para o futuro, lição que deve incitar todo cristão a observar a regra de ouro definida pelo Concílio: ‘A verdade só se impõe pela força da própria verdade, que penetra o espírito com suavidade e não menos poder’" (n° 8).

"Por fim, o passado nos convida a um sério exame de consciên­cia… Os cristãos devem colocar-se humildemente na presença do Se­nhor para se interrogar sobre a responsabilidade que lhes toca frente aos males do nosso tempo" (n° 36).

O Papa João Paulo II voltou mais explicitamente a este ponto na sua bula sobre o Mistério da Encarnação, datada de 29 de novembro de 1998:

"A história da igreja é uma história de santidade. O Novo Testa­mento sublinha esta característica dos batizados: são "santos" na medi­da em que, separados do mundo enquanto sujeito ao Maligno, se consa­gram a prestar o culto ao único e verdadeiro Deus: de fato, esta santida­de manifesta-se nas vidas de tantos Santos e Beatos reconhecidos pela Igreja, mas também na vida de uma multidão imensa de mulheres e ho­mens desconhecidos, cujo número é impossível calcular (cf. Ap 7, 9). A sua vida atesta a verdade do Evangelho, oferecendo ao mundo o sinal visível de que a perfeição é possível. No entanto, é forçoso reconhecer que a história registra também numerosos episódios que constituem um contra-testemunho para o cristianismo. Por causa daquele vinculo que nos une uns aos outros dentro do Corpo místico, todos nós, embora não tendo responsabilidade pessoal por isso e sem nos substituirmos ao juízo de Deus – o único que conhece os corações -, carregamos o peso dos erros e culpas de quem nos precedeu. Mas, também nós, filhos da Igreja, pecamos, tendo impedido à Esposa de Cristo de resplandecer em toda a beleza do seu rosto. O nosso pecado estorvou a ação do Espírito no coração de muitas pessoas. A nossa pouca fé fez cair na indiferença e afastou muitos de um autêntico encontro com Cristo".

Em suma, é de grande valor a coletânea de estudos que acaba de ser sumariamente apresentada com a seguinte sinalação biblioteconômica: L’INQUISIZIONE: Atti Del Simposio Internazionale, Città dei Vaticano 29 a 31 ottobre 2000, a cura de Agostino Borromeo. – Cole­ção "Studi e Te st i" n° 417, edição da Biblioteca Apostólica Vaticana 2003.

Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 523 / Janeiro de 2006.

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A INQUISIÇÃO EXTERMINOU 30 MILHÕES DE PESSOAS?

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FONTE: http://www.veritatis.com.br/apologetica/artigospapaprimado/933-a-inquisicao-exterminou-30-milhoes-de-pessoas

Para muitos estes supostos dados de “milhões de mortes” são as provas claras e literais do obscurantismo e corrupção da Igreja católica durante a “Idade das Trevas” podemos então afirmar a veracidade destes números que pressupõem que um verdadeiro “holocausto” foi promovido por parte do clero da Igreja Católica?

É comum vermos na literatura secular, em filmes e documentários, pior nas escolas do ensino fundamental e médio e até em faculdades e universidades, a afirmativa de que a Igreja “torturou e matou milhares”, alguns dizem milhões de pessoas aniquiladas pela Inquisição. Há também diversos ambientes acadêmicos no Brasil em que é nítido tal interpretação, são muitos autores e professores universitários a partilhar dessas objeções.

É inegável a atuação da Inquisição assim como os julgamentos, qualquer contraposição é uma aberração um erro grotesco de história, a crítica veiculada neste texto é dirigida aos números de mortes e incidentes referentes aos cerca de 386 anos de atuação, deste tribunal eclesiástico.

Muitos podem até dizer que números não importam, contudo ela “matou e torturou”, a questão é que nesta situação os números representam o maior pretexto e fonte de contradições a temática, pois tendem a alimentar e propagar a ideia de uma tragédia histórica, sem controle, um crime, um perverso e criminoso ato, vindo da Igreja contra a humanidade. Não levando em conta os fatores, o contexto e as posições religiosas da época estaria correto colaborar com estas argumentações e afirmações? Teria sido uma ferramenta de perseguição e extermínio de quem ousava pensar diferente? ou trata-se de posições subjetivas oriundas do homem contemporâneo?

Vale salientar que estas sociedades eram claramente ligadas ao bem e ‘alegria social’ (Pernoud, 1997) e da religião “em função da fé cristã” (Daniel Rops, Vol. III. p. 43), tinham como ferramentas de prevenção, a condenação de grupo ou individuo, para evitar a contaminação de confusões e divisões que ruíam ‘todo o sistema e ordem social da época’ (Gonzaga, 1994) além de evitar a propagação de heresias e divisões entre os fieis na Cristandade, assim os códigos penais abraçavam e previam comumente a tortura e a morte do réu. E o povo entendia que estes eram os princípios jurídicos e inquisidores (cf. Mt 18,6-7) que evitavam a expansão de cismas e heresias.

Mas seriam verdadeiros estes indicies sobre a Inquisição? Ou é maquinação vinda dos inimigos da religião que tiram proveito não só da Inquisição ou das Cruzadas, centram-se também nos erros e faltas morais de alguns filhos da Igreja para fazê-los de “cavalo de batalha na sua guerra contra a religião e para perpetuamente as estarem lançando em rosto à Igreja.” como disse o historiador e Pe. W. Devivier, S.J.  Fato que "é da natureza da Igreja provocar ira e ataque do mundo" segundo Hilaire Belloc.

A principal finalidade do artigo não é amenizar os efeitos da Instituição ou fazê-la mais branda, mas trazer a tona os fatos e verdadeiros números da referida instituição, cujos estudiosos sérios testemunham para que possamos construir uma justa interpretação do tema, sem nos veicularmos a nenhuma propaganda anticatólica.

Vamos tomar como referência as Atas do grande Simpósio Internacional sobre a Inquisição, em que 30 grandes historiadores participaram vindos de diversas confissões religiosas, para tratar historicamente da Inquisição, proposta motivada pela Igreja. O Papa João Paulo II afirmou certa vez: “Na opinião do publico, a imagem da Inquisição representa praticamente o símbolo do escândalo”. E perguntou “Até que ponto essa imagem é fiel à realidade”.

O encontro realizou-se entre os dias 29 e 31 de Outubro de 1998. Com total abertura dos arquivos da Congregação do Santo Oficio e da Congregação do Índice. As Atas deste Simpósio, foram anos depois reunidas e apresentadas ao público, sob forma de livro contendo 783 paginas, intitulado originalmente de “L’Inquisione” pelo historiador Agostinho Borromeo, professor da Universidade de La Sapienza de Roma. O mesmo historiador lembrou “Para historiadores, porem, os números têm significado” (Folha de S. Paulo, 16 junho 2004).

As atas documentais do Simpósio, já foram utilizadas em vários obras de historiadores, e continuam a ser, tais documentos são resultados de uma profunda pesquisa sobre os dados de processos inquisitoriais: as seguintes afirmações foram declaradas pelo historiador Agostinho Borromeo.

Sobre a “famigerada e terrível” Inquisição Espanhola:

“A Inquisição na Espanha celebrou, entre 1540 e 1700, 44.674 juízos. Os acusados condenados à morte foram apenas 1,8% (804) e, destes, 1,7 (13) foram condenados em “contumácia”, ou seja, pessoas de paradeiro desconhecido ou mortos que em seu lugar se queimavam ou enforcavam bonecos.”

Sobre as famosas “caças as bruxas”.

“Dos 125.000 processos de sua historia [tribunais eclesiásticos], a Inquisição espanhola condenou a morte 59 “bruxas”. Na Itália. 36 e em Portugal 4.”

E a propaganda de que “foram milhões”.

Constatou-se que os tribunais religiosos eram mais brandos do que os tribunais civis, tiveram poucas participações nestes casos, o que não aconteceu com os tribunais civis que mataram milhares de pessoas.

Sentenças de uma famoso inquisidor:

“Em 930 sentenças que o Inquisidor Bernardo Guy pronunciou em 15 anos, houve 139 absolvições, 132 penitências canônicas, 152 obrigações de peregrinações, 307 prisões e 42 “entregas ao braço secular” ([citado em] AQUINO, Felipe. Para entender a Inquisição. 1 ed. Cleofas. Lorena. 2009, p. 23).

O Simpósio conclui que as penas de morte e os processos em que se usava-se tortura, representam números pouco expressivos, ao contrario do se imaginava e foi propagado. Os dados são uma verdadeira demolição e extirpação de muitas ideias falsas e fantasiosas sobre a Inquisição.

“Hoje em dia, os historiadores já não utilizam o tema da inquisição como instrumento para defender ou atacar a Igreja. Diferentemente do que antes sucedia, o debate se encaminhou para o ambiente histórico com estatísticas sérias” (Historiador Agostinho Borromeo, presidente do Instituto Italiano de Estudos Ibéricos: AS, 1998).

Bom que tudo isto tem mudado é sinal de esperança, tomara que haja uma nova reconstrução “hermenêutica”, sendo esta necessidade histórica. Que com uma justa crítica acurada, superem-se as ambiguidades historiográficas.

Pena que as correntes históricas penduram-se e os teóricos antigos, dizem eles os “conceituados” continuam a ser as referencias “fidelíssimas”, assim na prática pedagógica e histórica; seja superior (acadêmica) ou (média e fundamental) ensinos públicos, continua à ritualista tradição a-histórica, não transparente sobre os acontecimentos e de tom feiticista e alienado, incluindo dentre destes, muitos estudiosos, professores, e jornalistas brasileiros e do resto do mundo. “Há milhões de pessoas que odeiam o que erroneamente supõe o que seja a Igreja Católica” (Bispo americano, John Fulton Sheen).

Referencias:

AQUINO, Felipe. Para entender a Inquisição. 1º ed. Cleofas. Lorena. 2009.

DEVEVIER, W. A Historia da Inquisição, curso de apologética cristã. Melhoramentos, São Paulo, 1925.

L’INQUISIONI. Atas do Simpósio sobre a Inquisição, 1998.

PERNOUD, Régine. A Idade Média: Que não nos ensinaram. Ed. Agir, SP, 1964.

ROPS. Henri-Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. Vol. III. Ed. Quadrante, São Paulo. 1993.

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