EM DEFESA DA BEATIFICAÇÃO DA PRINCESA ISABEL

Em defesa da Princesa Isabel

Por Hermes Rodrigues Nery

APONTAMENTOS SOBRE A AUDIÊNCIA COM O ARCEBISPO DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO, DOM ORANI JÕAO TEMPESTA, NA MANHÃ DE 20 DE AGOSTO, DE 2012, EM QUE ME VI NUM INESPERADO CAMPO DE BATALHA EM DEFESA DA PRINCESA ISABEL.

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Na manhã da segunda-feira, 20 de agosto, fui recebido pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta e Dom Roberto Lopes, acompanhado de seu assessor, Alann. O encontro havia sido marcado para eu entregar a primeira parte do meu escrito Breve Retrato Biográfico da Princesa Isabel – Do nascimento à abolição – para a causa de sua beatificação.

O estudo foi um pedido de uma comissão de especialistas do Vaticano, da Congregação para a Causa dos Santos, que muito se interessaram pela história de vida da Princesa Isabel, história esta desconhecida dos brasileiros, especialmente sua vida de fidelidade à Igreja, cheia de heróicas virtudes.

A solicitação feita em 26 de dezembro de 2011, levou-me a aprofundar ainda mais na bibliografia existente. Dos livros lidos, destaco A Princesa Isabel – A Redentora, de Pedro Calmon (1941); A Princesa e Petrópolis, de Guilherme Auler (1953), Isabel, A Princesa Redentora, de Lourenço Luiz Lacombe (1988), Princesa Isabel – Uma vida de luzes e sombras, de Hermes Vieira (1990), Princesa Isabel do Brasil, de Roderick J. Barman (2005) e a tese de doutorado Princesa Isabel (1846-1921): A ‘Política do Coração’ entre o trono e o altar, de Robert Daibert Júnior, e alguns outros estudos.

Tomei todos estes livros e os apresentei a Dom Orani, mostrando, um a um, expondo alguns trechos inclusive, e fazendo menção a estadia de uma semana em Petrópolis, numa primeira consulta aos cerca de 80.000 documentos referentes à princesa Isabel, muito bem conservados pelo Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis, ao qual tive excelente acolhida por parte de seus funcionários.

Logo após, disse a Dom Orani que estava deixando com Dom Roberto Lopes a primeira parte de meus apontamentos sobre a vida virtuosíssima da Princesa Isabel, vida santificada que muito orgulha a história do Brasil e do Rio de Janeiro. Dom Orani manifestou vivo interesse pela abertura da causa de beatificação e indagou a Dom Roberto se já havia sido obtida a licença da França para o início do processo. Ao que Dom Roberto respondeu que estavam aguardando o estudo que eu estava lhe entregando a primeira parte, para proceder aos encaminhamentos que se faziam necessários.

Foi quando, como um raio súbito em céu azul, seu assessor Allan desferiu bombástico, o primeiro golpe:

– Dom Orani, o movimento negro é contra esta causa.

E os três ficaram na expectativa do que eu tinha a dizer a respeito.

– Primeiramente gostaria de saber quem exatamente, qual grupo, qual segmento, qual corrente ideológica, etcetera. Não podemos fazer generalizações. Quem é contra e porquê?

Ao que o rapaz, de currículo acadêmico precário, recém graduado, e com uma dissertação sobre Maquiavel, julgou estar com um discurso de vanguarda repetindo chavões, eivados de reducionismos. E não demorou muito em fazer apologia a Zumbi dos Palmares, esse sim, um herói e um libertador.

Com serenidade, expliquei a Dom Orani que houve dois movimentos abolicionistas no Brasil, um deles fomentava a rebelião e a fuga dos escravos, e a confrontação contra os senhores, na lógica classista, recorrendo à via da violência. Esta foi a via de Zumbi, e muito se temia que se repetisse em nosso País o que houvera no Haiti e na guerra de Secessão, nos EUA: o derramamento de sangue.

A via adotada pela Princesa Isabel foi a solução católica, a promoção do abolicionismo pelo reformismo, pela via institucional, pela compra da alforria e a inclusão social do negro, integrado às irmandades religiosas leigas, que muito contribuiu para alforriá-los.

A própria Princesa Isabel alforriou seus escravos pessoais, e tinha convicção da solução católica, especialmente depois de visitar a Inglaterra, em 1865, e ter visto lá as origens do sindicalismo inglês, cujas propostas para equacionar os impasses criados no mundo do trabalho na era industrial não eram nada humanizadoras.

Ela mesma conheceu a capital francesa no exato dia em que lá explodiu a Comuna de Paris, e voltou daquela viagem determinada a fazer valer a solução católica, para evitar os horrores dos extremismos que afligiam a Europa e que não queria ver no Brasil tais violências. Vitoriosa na Primeira Regência, com a aprovação da Lei do Ventre Livre, conseguiu obter a libertação definitiva em 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea.

Depois da explicação, o assessor de Dom Roberto, foi mais incisivo:

– O conceito de libertadora e de redentora foi criado pelos donos do poder, na realidade, o negro (com o modelo de Zumbi) foi o protagonista de sua própria libertação.

Doeu ouvir aquilo, doeu fundo, por se tratar de um pensamento eivado de equívoco ideológico, de erro histórico, de uma visão de história e de Igreja que não condiz com a verdade dos fatos e do sentido soteriologico de ser Igreja, a partir do ensinamento de Jesus Cristo, confirmado pelo ministério petrino, ao longo dos séculos.

Fazer apologia a Zumbi, no enfoque colocado pelo assessor, é contradizer o Magistério da Igreja em relação à doutrina social explicitada admiravelmente por Leão XIII na Rerum Novarum, e insistir em colocar na sombra as virtudes excelsas da princesa Isabel, que não foi passiva nem omissa diante da questão da abolição.

Ela buscou a solução católica e foi bem sucedida nesta missão, cujo êxito marcou um dos pontos culminantes de sua vida, tendo sido reconhecida pelo povo brasileiro como redentora, e agraciada com a Rosa de Ouro, presenteada pelo papa em louvor a sua ação tão de acordo com a doutrina social cristã. Não fosse a sua determinação, a sua firmeza de decisão e a sua sabedoria, a abolição poderia ter sido protelada ainda mais (pois desde 1810 era desejo de D. João VI viabilizá-la). E se prevalecesse a lógica de Zumbi (com a via da violência), a unidade nacional brasileira poderia ter sido pulverizada por forças anárquicas que ainda hoje tentam minar o que o Brasil tem de melhor.

Historiadores da atualidade, com Leandro Narloch, confirmam que "Zumbi tinha escravos. (…) mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhassem forçados no Quilombo dos Palmares. Também seqüestrava mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo" (Guia Politicamente Incorreto do Brasil, Ed. Leya, p. 83; ver também o Dicionário do Brasil Colonial, de Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense).

Querer retirar da princesa Isabel o título de redentora, recebido em vida, pelo povo brasileiro, é apequenar a dimensão de grandeza espiritual que ela testemunhou em sua vida, especialmente cotidiana, cuja bondade inefável e sabedoria a muitos causou admiração.

E então o assessor lançou outro dardo, para que eu respondesse na frente de dom Orani e de dom Roberto:

– Atribui-se uma importância decisória à princesa Isabel que ela não teve, pois apenas substituiu seu pai no governo e por muito pouco tempo.

Já naquele segundo lance, percebi que a causa urgia ser defendida à luz da verdade histórica:

Expliquei aos senhores ali presentes que a princesa Isabel foi governante do Brasil em três períodos regenciais, que somados totalizavam mais de três anos de governo, e com prerrogativas decisórias plenas, garantidas em votação pelo parlamento brasileiro. Ela não substituiu o pai apenas, mas regeu, de fato, o Brasil, e a abolição só alcançou o êxito conhecido, por sua perseverança e determinação, e ainda a coragem de enfrentar Cotegipe, expondo com clareza seu pensamento abolicionista e substituindo-o por João Alfredo Correa de Oliveira. Determinou, em seguida, todo empenho do novo ministro na elaboração e votação da Lei Áurea, que foi aprovada, apesar da resistência de muitos proprietários rurais, que queriam ser indenizados pela perda dos escravos, mas que a princesa Isabel pelo texto enxuto apresentado e aprovado, liquidou de vez com o sistema escravagista, sem indenização. Decisões que contou com a coragem da princesa Isabel, ao que Cotegipe demitido vaticinou: "Sua Alteza, ganha a glória da abolição, mas perde o trono!"

O assessor de dom Roberto insistiu de que havia supervalorização na ação da princesa Isabel e lançou um novo torpedo:

– Dom Orani, saiba que esta é uma causa polêmica.

Ao que ressaltei:

– E qual causa de um grande santo não é polêmica?

E então, ele retrucou:

– E ainda mais: esta é uma causa política.

Ao que observei:

– E a causa de Santa Joana d’Arc, não fora também uma causa polêmica e política?

E ainda o assessor me inquiriu:

– O Conde d’Eu, marido da princesa Isabel, não era maçom? Dom Orani, me parece que ele maçom…

Ainda bem que eu levara os livros consultados, que apresentei, um a um, logo no início da audiência. Tomei a tese de doutorado de Daibert Júnior e li um trecho do capítulo "O casamento da princesa imperial: travessias do Atlântico", em que é feita uma análise do contexto do casamento da princesa Isabel, e afirma que dentre os critérios da escolha, "o marido de Dona Isabel, obviamente, precisava ser um príncipe católico". De maneira que o conde d’Eu era catolicíssimo, e de modo algum, em nenhum momento de sua vida teve envolvimento com a maçonaria. Pelo contrário, a fé da princesa Isabel foi se fortalecendo ainda mais com a convivência do conde d’Eu, que muito a ajudou, também intelectualmente, lendo junto com ela obras de profundidade espiritual, muitas vezes aconselhando e sugerindo, partilhando idéias e vivências, consolidando assim um matrimônio efetivamente venturoso, até o final da vida. Assim atestam seus biógrafos Alberto Rangel e Câmara Cascudo.

E acrescentei dizendo o que escrevera na primeira parte meu Breve Retrato Biográfico: “a princesa era reconhecidamente de uma convicção sólida, não apenas intelectual, mas daquela fé viva a mover os santos. Isso a fez melhor entender a cultura e a história de seu País, a entender o quanto a fé católica moldara a identidade e a vocação do Brasil, e a perspectiva de um dia vir a governar a levava se dedicar com mais afinco ao que ela sempre considerou como um sentido de missão, conjugar fé e política, legislação e vida, mesmo diante das forças ideológicas anticristãs que emergiam e atacavam cada vez mais os princípios e valores cristãos."

Dom Orani perguntou-me, dentre as ações beneficentes e caritativas da princesa Isabel, na vida pessoal, algo que eu pudesse destacar. Ao que lhe respondi, entre tantos exemplos edificantes, que como princesa, era tocante ver que um dos serviços escolhidos por ela como forma de ajudar a sua comunidade em Petrópolis, estava oferecendo serviços de ornamentação e limpeza da igreja, ela mesma com suas amigas, se prontificavam com regularidade e tudo faziam com esmero e alegria.

Nesse ínterim, apareceu Dom Antonio Augusto Dias Duarte, que nos cumprimentou efusivamente e ao saber que estávamos lá, entregando a primeira parte do nosso estudo, disse para Dom Orani que está rezando pelo êxito da causa de beatificação da princesa Isabel.

O arcebispo do Rio de Janeiro, que tudo acompanhava com atenção, disse novamente ser favorável à causa da princesa Isabel. E ainda lembrei que a revista Isto É havia nos procurado, desejando fazer uma matéria sobre a princesa Isabel, principalmente por causa do concurso promovido pelo SBT, que irá escolher O Maior Brasileiro de Todos os Tempos e ela está entre os 12 finalistas.

Dom Orani considerou positiva a divulgação, mas o assessor imediatamente arguiu que seria muito ruim uma publicação sobre a princesa Isabel, ainda mais falando sobre a possível abertura do processo de sua beatificação. “Não. Definitivamente isso não seria bom”, completou enfaticamente.

O assessor de Dom Roberto perguntou se eu tinha estado no Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis, e o que eu podia dizer em relação aos documentos lá existentes referentes à princesa Isabel? Apresentei a ele reportagem divulgada em vários sites católicos noticiando a nossa visita ao Arquivo do Museu Imperial, em maio deste ano, e a constatação de cerca de 80.000 documentos referente ao período da vida da princesa Isabel, cartas dela para os familiares, amigos, personalidades da vida pública, autoridades civis e religiosas, até mesmo com os papas Leão XIII e São Pio X, que se corresponderam com ela.

O assessor disse a dom Roberto que era necessário juntar ao meu texto, ao menos 50 documentos fac-símile de cartas originais da princesa Isabel, como condição para requerer do prelado francês a licença necessária para a abertura da causa de sua beatificação. Logo após, salientei a dom Roberto de que o acesso de parte da documentação somente é possível com autorização expressa de membros da família imperial, e que cada fac-símile escaneado tem um custo, de maneira que a inclusão de 50 cartas fac-símile, de originais, demandaria tempo e recursos nesse sentido.

Ao que o assessor observou:

– Veja bem, dom Orani, esta é uma causa cara. Como custeá-la?

Disse a eles que o trabalho tem sido feito em meio a minhas muitas atividades, estudando e escrevendo no tempo além das minhas obrigações diárias, e chegamos até aqui e daremos continuidade, se Deus quiser, pela convicção da fé. Pois este trabalho é movido pela convicção da santidade da princesa Isabel, tão injustiçada, há décadas, por ideólogos anticristãos.

O assessor voltou a dizer a dom Orani que a causa seria cara, demandaria estudos e viagens a Europa, etc. E sugeriu, como forma de barateá-la, formar uma equipe de estudantes universitários, como estagiários, que ele mesmo poderia orientá-los, pois a documentação sendo tão extensa, requereria mais gente, daí o grupo de jovens estudantes.

A idéia, por muito interessante que pudesse parecer, tinha um risco: o que esperar de estudantes vindos de universidades secularizadas, relativistas e com concepções ideológicas classistas e reducionistas, quando não explicitamente anticristãs, com um orientador que coloca Zumbi como protagonista da libertação dos escravos? Senti ali que a causa da princesa Isabel corria perigo, e que providências deveriam ser tomadas para evitar interferências que viessem criar mais resistências. Recorrendo ao lema de São Bento, “ora et labora”, me vi assim, mais uma vez, em nova peleja em defesa da fé, da verdade e da justiça.

Todos esses questionamentos, assim de forma inesperada, deram-me um cansaço físico, fiquei tão extenuado ao final da audiência, que até esqueci-me de tirar uma foto do encontro. Mas fiz um apelo a Dom Orani para que tomasse as providências no sentido de abrir o processo de beatificação da princesa Isabel, destacando ainda muitos outros pontos de sua vida de fé e santidade.

Hermes Rodrigues Nery é coordenador do Movimento Legislação e Vida da Diocese de Taubaté, em São Paulo.

Taubaté, 31 de agosto de 2012

Postado em: https://carloslopesshalom.wordpress.com

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TODOS DEVEM RECEBER A EUCARISTIA DIRETAMENTE DA MÃO DO SACERDOTE

Instrução geral do Missal Romano (IGMR) “160.

Reverência a Eucaristia

Não é permitido que os próprios fiéis tomem, por si mesmos, o pão consagrado nem o cálice sagrado”.

“162. [os eventuais ministros extraordinários] recebem sempre da mão do sacerdote celebrante o vaso com as espécies da Santíssima Eucaristia a distribuir aos fiéis”.

Se nem os vasos contendo as espécies podem ser tomados, quanto mais tomar por si o próprio sacramento! Nem mesmo o diácono.

“182. Depois da Comunhão do sacerdote, o diácono recebe do próprio sacerdote a Comunhão sob as duas espécies e ajuda em seguida o sacerdote na distribuição da Comunhão ao povo”.

“249. O diácono comunga […] da mão de um concelebrante, que lhe diz: O Corpo e o Sangue de Cristo (Corpus et Sanguis Christi), ao que ele responde: Amen”.

“Assim no-lo ensina São Paulo: «Vós sois Corpo de Cristo e seus membros, cada um na parte que lhe toca» (1 Cor 12, 27). Com efeito, os membros não têm todos a mesma função: é isto que constitui a beleza e a vida do corpo (cf. 1 Cor 12, 14-17). É na diversidade essencial entre sacerdócio ministerial e sacerdócio comum que se entende a identidade específica dos fiéis ordenados e leigos. Por essa razão é necessário evitar a secularização dos sacerdotes e a clericalização dos leigos”. (Papa Bento XVI aos bispos do Regional Nordeste 2, 17/09/2009)

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O SÍMBOLO TAU

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Quando vier o Espírito Santo da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudoo que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras.  (Jo 16,13)

As duas línguas bíblicas originais, hebraico e grego, possuem nos seus alfabetos a letra "Tau" (T). Este sinal gráfico adquiriu ao longo dos séculos conteúdos enigmáticos e ocupou um lugar de destaque na vida e atitudes de São Francisco de Assis, que o usou frequentemente e, mais ainda, tributou-lhe uma espécie de culto.

1 – Emblema e assinatura de São Francisco

O uso do Tau por São Francisco certificado pela testemunha ocular, Frei Tomás de Celano, que assim escreve na sua obra: "…Frei Pacífico começou a ter consolações que nunca tivera. Viu, diversas vezes, coisas que ninguém mais via. Pouco tempo depois, viu São Francisco marcado na fronte com um grande Tau, que tinha a beleza de um pavão, por seus círculos multicores." (2 cel, Nº 106). O sinal do Tau era-lhe preferido acima de todos os outros: ele o utilizava como única assinatura para suas cartas e pintava-lhe a imagem nas paredes de todas as celas.

A escolha do Tau como carimbo e como emblema para a nascente Ordem dos menores indica a importância que São Francisco atribuía a este sinal. Além disso, este costume assumiu rapidamente o aspecto de culto, e isto é um fenômeno revelador, pois desvenda toda a riqueza de uma certa espiritualidade.

A dimensão devocional, quer dizer afetivo e religioso, destacou um outro biógrafo de Francisco: São Boaventura, que fala do uso do sinal em caráter de assinatura: "O tau era um sinal muito querido do Santo. Recomendava-o muitas vezes, fazia-o sobre si mesmo antes de iniciar qualquer trabalho e o escrevia de próprio punho no final das cartas que ele enviava, como se quisesse pôr todo seu empenho em imprimir esse tau, segundo a palavra do profeta (Ez 9,4), sobre a frente daqueles que gemem e choram seus pecados, de todos os verdadeiros convertidos a Cristo Jesus" (Leg. Men. Cap. 2, Nº 9).

Sintetiza-se neste pequeno escrito, ao mesmo tempo simbólico, toda a orientação do apostolado de São Francisco: "Ele mesmo o recomendava muitas vezes por palavras e o escrevia (…), como se sua missão consistisse, conforme a palavra do profeta Ezequiel. Posteriormente explicaremos o que esta frase de Ezequiel possa significar para Francisco."

Para São Francisco o Tau não era apenas a assinatura pessoal. Frei Tomás de Celano informa que o santo usava-o como marco nas portas e muros das celas dos frades. Fazendo-nos pensar no Livro do Êxodo, segundo o qual o sinal da salvação era o sangue do Cordeiro nos portais. Para nós e para São Francisco, o sangue do cordeiro é o sangue do Cristo crucificado que nos remiu.

A informação de Celano, referente às inscrições nas paredes das celas é confirmada pelas descobertas arqueológicas. Durante a renovação da Capela de Santa Madalena, em Fonte Colombo, foi encontrado, na abertura da janela, um Tau pintado em cor vermelha, ao lado do Evangelho. A pintura é dos tempos de São Francisco.

Uma rápida revista a respeito da letra Tau na vida de São Francisco seria incompleta sem mencionar um milagre depois da sua morte, operado por São Francisco. Falam disso a "Legenda Áurea", e Tomás de Celano no "Tratado dos milagres", mostrando o culto do santo para com o "sinal da salvação": "Na cidade de Cori, na diocese de Óstia, um homem tinha perdido completamente o uso da perna, e não conseguia de modo algum caminhar e mover-se. (…) Comovido com tais implorações, lembrando os favores recebidos, apareceu de repente o Santo ao homem, que nem podia dormir. Disse-lhe que veio a seu chamado trazer-lhe remédio para a cura. Tocou a parte doente com uma varinha, que portava sobre si o sinal Tau. Logo se rompeu a úlcera e, recuperada a saúde, ficou impresso naquela parte o sinal do Tau" (nº 159).

2 – Influências diretas

a – O concílio Lateranense IV

Durante o Concílio Ecumênico, realizado em Roma no ano 1215, o papa comunicou a todos os prelados ter concedido a Francisco e aos que quisessem imitá-lo, a aprovação da vida e da Regra evangélica.

É neste mesmo Concílio que aflora o simbolismo do Tau. Inocêncio III inaugura o Concílio com uma fantástica pregação que imediatamente adquire uma larga repercussão. O fio condutor são as palavras de Cristo: "Ardentemente desejei comer esta páscoa convosco" (Lc 22,15). Lembra que "páscoa" significa "passagem" e faz votos que o Concílio, a nova Páscoa, dê início à tríplice "passagem": corporal, espiritual e eterna. A "passagem" corporal seria a armada e a recuperação de Jerusalém; a "passagem" espiritual deveria ser a mudança de um estado de coisas para outra, ou seja a conversão, a reforma da Igreja universal; enfim, a "passagem" eterna significa a passagem para a verdadeira Vida, com o auxílio dos sacramentos, principalmente a Eucaristia.

A Segunda parte da pregação, referente à passagem espiritual, é o enérgico comentário ao capítulo nono do Livro de Ezequiel. O papa faz suas as palavras de Deus ao profeta: "Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na cidade se cometem" (Ez 9,4), e acrescenta: "O Tau é a última letra do alfabeto hebraico e a sua forma representa a cruz, exatamente tal e qual foi a cruz antes de ser nela afixada a placa com a inscrição de Pilatos. O tau é o sinal que o homem porta na fronte quando com todo o seu ser revela a irradiação da cruz; quando como diz o apóstolo crucifica o corpo com os seus pecados; quando diz: ‘Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo’(…). sejam portanto os mestres desta cruz!"

Assim soava o apelo, o clamor às consciências e corações para a mobilização geral, para a cruzada de conversão e penitência. Francisco acolheu este apelo. O simbolismo do Tau e as suas ligações com Ezequiel foram bem conhecidos de Inocêncio III, como também do povo da época. No seu tratado sobre o sacramento do altar, afirma que a letra Tau é o primeiro sinal no cânon da missa começa com as palavras: "Te igitur" no qual ocupa por desígnio da providência divina e não humana, toda a página, e isto tem um significado simbólico: a inicial que na sua forma gráfica lembra a cruz, é "sinal de penitência e salvação, confiado pelo Senhor ao ministério profético de Ezequiel".

A reação de Francisco à pregação de Inocêncio foi espontânea. Acatou como um apelo dirigido diretamente a ele. O papa dizia: "Alcançarão a misericórdia aqueles que usarem o Tau, sinal da vida penitente e renovada em Cristo". Francisco quis então marcar a si e aos seus frades com este sinal, que com o tempo tornar-se-á a marca da Vocação da ordem.

O tau dará o colorido a toda à espiritualidade de Francisco, que a partir de 1215 mais ainda aparecerá como espiritualidade da cruz e da salvação, o que demonstram, entre outros, as suas orações, principalmente "Ofício da Paixão do Senhor". O Tau da penitência é o tema preferido da sua pregação. Sentia-se interiormente mobilizado pelo papa a esta cruzada.

Queria que os frades propagassem entre o povo a missão da conversão evangélica, isto é, da "passagem de Cristo". O Tau da vida sacramental, principalmente da vida eucarística (terceira parte da pregação do papa Inocêncio) também será objeto das suas preocupações. "Viver em penitência e receber o Corpo e Sangue…" são dois inseparáveis conceitos que frequentemente aparecem nas cartas de Francisco, escritas depois do Concílio. Além disto, as consequências das resoluções conciliares são visíveis em muitos aspectos da vida do Santo. Por exemplo, na "Carta aos clérigos" (redação segunda), versículo 11, que fala do dever de conservar o Santíssimo em lugares dignos e sob chaves, é simplesmente a fiel reprodução do cânon do Concílio.

O Tau é também o sinal dos vitoriosos. Francisco é bem consciente disto. Primeiro prega o Tau e depois reproduz no seu corpo (estigmas) e brilha da alegria que brota do amor é a cruz.

b – Irmãos de Santo Antônio Eremita

A escolha do emblema do Tau por Francisco corresponde à linha de ação traçada pelo Concílio Lateranense. Nesta escolha influiu mais um fato determinante: o encontro de São Francisco com os Irmãos de Santo Antônio Eremita, chamados popularmente de antonianos. Para explicar isto, percorramos um caminho um tanto longo, com cuidado pelos detalhes.

A primeira questão que devemos resolver é: que lugar ocupam os leprosos na vida de Francisco. Os leprosos eram antes de tudo um mistério que Francisco observava e contemplava. O zelo por eles é o elemento constitutivo da sua espiritualidade. Para ele, como para os contemporâneos, o mistério de Cristo leproso era bem familiar e interpretado de várias maneiras: na liturgia (no ofício lia-se o cântico do Servo de Javé segundo o profeta Isaías: "Nós o reputávamos como um castigado" Is 53,4; na arte (escultura, pintura, vitrais apresentavam Cristo com traços de leproso); enfim, a literatura que expunha a famosa lenda se São Juliano Hospitaleiro, carregando nos ombros não o leproso, mas o próprio Cristo.

O fato de São Francisco chamar os leprosos de seus irmãos cristãos, decorre de um profundo e místico conceito. Viu neles o Cristo sofredor. Ele vai mais longe: da contemplação passa para a ação. O "prólogo" da conversão de Francisco é o famoso beijo depositado no rosto de um leproso.

Em Assis havia o leprosário "Casa Gualdi" sob os cuidados dos irmãos cruzados. Francisco permanecia lá e cuidava dos doentes.

Existia um hospital onde Francisco ficou por mais vezes: Hospital de Santo Antônio, em Roma. É esta a igreja que liga Francisco aos antonianos, chamados também de irmãos hospitaleiros, por serem eles os mantenedores deste hospital. A tarefa principal dos antonianos foi cuidar dos doentes, principalmente dos leprosos.

Os antonianos tiveram o símbolo do Tau com emblema, sinal de pertencer à congregação e símbolo da vocação caritativa. Usavam a bengala, que era, na parte superior, em forma de Tau e o hábito no qual era visível este sinal… Alguns historiadores afirmam que os antonianos escolheram este sinal somente porque Santo Antônio Eremita foi representado na escultura com a bengala com uma haste vertical ou com o bastão em forma da letra Tau. A verdade é bem diferente. O culto procedia da iconografia. A aceitação do Tau, semelhança da cruz, está ligada a toda uma mística e atividade caritativa. O fato é que o Tau como símbolo da saúde entrou na consciência e na cultura religiosa do povo há muito tempo. Já em 546, durante uma solene procissão organizada por São Gall, bispo de Clermont, para afastar a peste no sul da França, nos muros de todas as casas e igrejas apareceu o "sinal reconhecido pelo povo como Tau", e a epidemia cessou. O fato é narrado pelo historiador Gregório de Tours, que vivia na época.

No encontro de São Francisco com os antonianos, em 1209-1210, é possível enxergar um importante elemento, ou talvez um primeiro estímulo que provocou no Santo a devoção para com o sinal do Tau. E tudo o que foi dito acima torna compreensível uma das tarefas que Francisco traçou para a sua ordem, isto é o cuidado terno e atento pelos infortunados e doentes: "(todos irmãos) devem estar satisfeitos quando estão no meio dessa gente comum e desprezada, dos pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de rua"(Regra não-bulada, Cap.9).

3 – Influências secundárias

Tendo já conhecido o que significava o Tau para Francisco, aprofundemos agora o sentido místico deste sinal. O esforço da pesquisa terá caráter de um tipo de "penetração" nos caminhos da tradição, sem perder de vista a finalidade principal de reconstruir uma atmosfera espiritual que envolvia São Francisco, reconstruir os elementos do seu universo, perceber, do jeito como ele e seus contemporâneos perceberam, toda a riqueza mística acumulada ao longo dos séculos, relativa ao Tau. Descobriremos conceitos, idéias, representações que perderam para nós a eloquência, enquanto que naquele tempo eram bem familiares. O simbolismo de letras e números era compreensível a todos e era tema largamente explorado pelos pregadores, pela arte e pela literatura.

a – O simbolismo gráfico do Tau

A forma gráfica da letra Tau (T) tornou-se, ao longo dos séculos, a base da teologia da cruz, desenvolvida pelos judeus, Gregos e comentadores latinos.

Para os judeus, a antiga letra "T", em sua grafia primitiva, tinha a forma de cruz: "x" ou "+". A forma da letra, na escrita hebraica, sofria transformações até receber, pouco definida a forma de um pórtico. Contudo, ainda São Gerônimo (+420) sabia que o antigo sinal "T" possuía a forma de uma cruz: "Para os judeus, e também para os Samaritanos, ainda hoje o ‘Tau’, a última letra do alfabeto, tem a mesma forma da cruz que os cristãos marcam nas suas frontes e usam como proteção"(PL 25,88).

Falando em Tau, que para os cristãos lembra a forma da cruz, vale a pena citar as palavras de Cristo antes de ser crucificado: "Se alguém quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mc 8,34). Os apóstolos não podiam interpretar a frase como referência à cruz de Cristo, instrumento de castigo romano. A cruz, da qual fala o Mestre antes de ir para Jerusalém, é simplesmente o sinal da fé (atitude interior da qual a expressão externa é a imagem), quer dizer, do amor e apego à Lei (à Torah, que se inicia com a letra Tau) e sinal de ser de Deus. Somente depois da sua morte as palavras foram interpretadas à luz do sofrimento.

A comunidade cristã assimilou o Tau como cruz, mais ainda: colocou o tau em relação com a cruz de Cristo.

Para os gregos a letra Tau também possuía a forma de cruz. A letra grega ;e formada pelo traço vertical, semelhante a letra iota (i) e pelo traço horizontal chamado "Kereia". Por isto muitas vezes à luz da cruz foram interpretadas as palavras de Jesus: Passarão o céu e a terra, antes que desapareça um Jota, um traço da Lei. (Mt 5,18)

Até para os Gregos descrentes em Cristo o Tau representava a imagem da cruz, naturalmente não a imagem da cruz de Cristo e sim, o instrumento de castigo dos escravos. Explica isto Luciano de Samosta (+200). Os gregos crentes e não-crentes, olhando o Tau, davam-lhe ainda outro significado, desconhecido para nós. Visualmente a letra representa a vela ou o mastro do navio. Não surpreende, então, todo este florescer "náutico" da exegese do Tau. Esta interpretação inspira-se na forma visual do sinal e é permeada da reminiscências da literatura. Recorre nela o fio da "Odisséia", que fala de Ulisses segurando desesperadamente o mastro do navio. Daí nasce a representação da cruz em relação à epopéia nacional dos gregos da cruz como a última "tábua da salvação" durante a tempestade…

Para os latinos a letra Tau não existe, mas todos os comentadores das Escrituras acolheram a tradição anterior. Os Enciclopedistas, temos p.ex. Isidoro de Sevilla (+630), os exegetas e pregadores populares basearam-se, para as suas interpretações, no fato de que a letra hebraica e grega "Tau" possui a forma da cruz.

Estas considerações permitem penetrar mais profundamente na mentalidade religiosa de São Francisco. Quando falava do Tau, ele também pensava na cruz de Cristo. Espontaneamente interpretava o Tau com os seguintes conceitos: sinal e símbolo eficaz da salvação para todos os que desejam ser com ele marcados. Sabia que desta maneira seguia as pegadas de uma longa tradição, a qual ao longo dos séculos anunciava, inclusive através dos escritores não-cristãos, o Cristo Redentor e Vitorioso pela Cruz.

b – O simbolismo numérico do Tau

Tendo conhecido a grafia, a forma do Tau, passamos à aritmética, aos valores numéricos do sinal.

Para compreendermos o simbolismo aritmético, precisamos saber que nem sempre se expressavam os números com os sinais numéricos. Os antigos desconheciam os números que hoje nós usamos com herança dos Árabes. Conheciam apenas o alfabeto, para formar as palavras e para registrar os valores. Aqui está o fundamento daquele cruzamento entre as palavras e os valores numéricos, a sofisticada e enganadora acrobacia praticada pelos discípulos de Pitágoras, tão sensíveis a língua dos números. Vergílios, antes de São João, foi fascinado pelo famoso símbolo numérico 666. Até os mais simples sabiam que as letras do nome de Davi, somadas, significavam o número 14. No nome Iesous, liam 888, e em IN 13, e com tanta rapidez como hoje nós lemos valores de dezenas de milhões. Surgiu até um ramo da ciência que se dedicava a estabelecer as relações entre letras e números, oferecendo as chaves e abrindo as portas para a compreensão das alegorias aritméticas.

No alfabeto grego a letra Tau representava o valor 300. Para os cristãos do círculo da cultura grego-romana, o Tau significava ao mesmo tempo o sinal da salvação e o número 300 que ocorre na Bíblia, espontaneamente trazia à tona o Tau, colocando-o no contexto da salvação ou da vitória. Explicaremos este simbolismo aritmético nos três exemplos.

A Arca de Noé

"Deus disse a Noé: ‘Faze para ti uma arca de madeira resinada (…). E eis como a farás: seu comprimento será de trezentos côvados’". (Gen 6, 4-15)

O fragmento citado tem para muitos comentadores um profundo significado, pois permite construir a "náutica" e a simbólica numérica cristianizadas. Entregam-se, então às complicadas especulações para descobrir o sentido místico dos trezentos côvados. Orígenes explica que a arca é a balsa salvífica que prefigura a cruz salvadora, pois o número 300 é igual a Tau, que é igual a mastro com a raia, que por sua vez é igual a cruz.

Na arca pode ser encontrado, com depois em toda a tradição, o duplo simbolismo, duplo sentido dialético da letra Tau; é ao mesmo tempo sinal de vida e sinal de morte; a vida eterna é dada aos homens pela morte de Deus do homem crucificado no madeiro. Percebemos que São Francisco jamais separou, na sua espiritualidade, Jesus condenado à morte do Cristo "glorioso e bendito pelos séculos". Ainda no início do século XIII, a tradicional interpretação da arca ocorria até na liturgia e assim se perpetuou na mentalidade popular. Sem dúvida, Francisco cantava o seguinte hino litúrgico: "Ligno crucis fabricatur (Arca Noe qua salvatur) Mundus a miseria" Da madeira da cruz foi construída a arca de Noé que as;vará o mundo da miséria (Analecta Mymnica, Leipzig 1890, VIII, 29).

Servos de Abraão

"Abraão, tendo ouvido que Lot, seu parente, ficara prisioneiro, escolheu trezentos e dezoito dos seus melhores e mais corajosos servos, nascidos em sua casa, e foi ao alcance dos reis até Dan." (Gen 14,14)

De que modo o Tau, valor numérico 300, entrou na interpretação dos trezentos e dezoito servos? Prestemos atenção às explicações do Pseudo-Barnaba (+ cerca de 130): "Saibam que a Bíblia, assim transcreve o número 318: INT, que equivale a IN 18 3 T 300. Dezoito como número equivale a IN e assim tens i início do nome de Jesus. A letra Tau, equivalente ao valor 300, anuncia o advento da graça pela cruz. Nas primeiras letras temos alusão a Jesus, na última, à sua cruz ".

Semelhante exposição encontramos entre os latinos, com p.ex. em Ambrósio (+397): os servos de Abraão constituem a figura dos futuros cristãos; seu número prefigura a cruz e o nome de Jesus; a vitória deles é a vitória da Graça, graças à qual foram escolhidos: "Escolha 318 para te ensinar que o que conta não é o número, mas a eleição. E escolhe 318 fiéis que acreditam em Jesus e em sua cruz, porque os 300 fiéis significam a letra grega Tau e 18 representa IN, que quer dizer Jesus".

Nesta ocasião é mister lembrar o culto franciscano do nome de Jesus, paralelo ao culto do Tau. São Francisco, ao culto do Tau, acrescentou o lírico e muito medieval culto do nome salvífico de Jesus: "Os frades que conviveram com ele sabem, que estava todos os dias e continuamente falando sobre Jesus, e como sua conversação era doce, suave, bondosa e cheia de amor (…). possuía a Jesus de muitos modos: levava sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os outros membros. Quantas vezes ao sentar-se para almoçar, ouvindo, falando ou pensando em Jesus, esquecia-se do alimento corporal e, como lemos a respeito de um santo: "Vendo, não via; ouvindo, não ouvia". Este amor pelo nome de Jesus e pela sua forma gráfica, encontra-lo-á dois séculos depois, o mestre, em São Bernadino de Sena. A palavra INS é a mais antiga forma abreviada de Jesus (que se encontra nos manuscritos e nas lápides sepulcrais) é IN, iota e eta, duas primeiras letras do nome de Jesus.

Vemos de modo claro que até os pormenores da história são analisados sob a ótica alegórica. O esforço constante em descobrir o mistério escondido por trás dos números. É uma tradição que Francisco enriquece ao seu modo; é o fluxo de idéias e conceitos que formam o clima do século XIII.

O Tau de Ezequiel

"Percorre a cidade, o centro de Jerusalém, e marca com uma cruz na fronte os que gemem e suspiram devido a tantas abominações que na cidade se cometem" (Ez 9,4).

O que foi dito a respeito deste texto, seja falando do sermão de Inocêncio III, seja da forma da letra Tau, dispensa as longas análises. Não podemos, porém, silenciar o fato de que a interpretação desta visão de Ezequiel está na base de todas as considerações sobre o Tau como sinal de cruz. A fé cristã no Messias sofredor foi predita no Antigo Testamento. Como cristãos, marcados pelo sinal da cruz no Batismo, devemos, pelo sofrimento, tornar-nos imitadores do Cristo crucificado. Assim se expressa São Gerônimo e muitos outros comentadores. O texto do Livro de Ezequiel colorirá toda a tradição, facilitando a passagem do Tau, que é igual a cruz e a cruz, que é igual a 300 o qual por sua vez, é igual a cruz, através do Tau, que é igual a 300.

Os exemplos citados conscientizam-nos que a mística do Tau não é um produto espontâneo da mente de Francisco, mas uma constante herança da longa tradição, original na idade média. Esta mística, emprestada da Igreja grega e absorvida pela Igreja latina, permanecerá como um dos mais queridos temas da exegese alegórica. Daqui podemos ter a certeza de que Francisco mergulhava nela e absorvia seus conteúdos. Todo o clero diocesano e religioso da época estudava a obra de Isidoro de Sevilla, cheios de tesouros de etimologia e alegoria. Mais ou menos era sob o fascínio da "Glosa comum", que o faziam bíblico. Esta obra era a verdadeira base de cada biblioteca. Usava-se os seus textos na pregação. A arte religiosa transformava-a em pinturas e até o mais simples eram capazes de compreender os seus símbolos. Não surpreende, portanto, o fato de que para o entusiasta dotado de fantasia visual que foi Francisco, o mistério da cruz encontrou a iluminadora e dinamizadora expressão, a ajuda na contemplação e o impulso para a ação, até ele mesmo tornar-se um dia, pelos estigmas, a expressão viva do sinal do Tau que tanto amava e ao qual prestava uma verdadeiro culto.

Escola de Formação Shalom

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