A ORAÇÃO DE LOUVOR É DIFÍCIL, MAS DOA ALEGRIA

Cidade do Vaticano (RV) – É fácil rezar para pedir graças, mas mais difícil é a oração de louvor: foi o que disse o Papa Francisco na missa desta manhã, na Casa Santa Marta.

O Papa dedicou sua homilia à Carta aos Efésios, em que São Paulo eleva com alegria a sua bênção a Deus. Trata-se de uma oração de louvor – observou – uma oração “que nós não fazemos tão habitualmente, mas que, na verdade, é pura gratuidade:

Nós sabemos rezar muito bem quando pedimos coisas, ou mesmo quando agradecemos a Ele, mas a oração de louvor é um pouco mais difícil para nós: não é tão comum louvar o Senhor. E isso nós podemos sentir melhor quando fazemos memória das coisas que o Senhor fez na nossa vida: ‘Nele – em Cristo – nos escolheu antes da criação do mundo’. Bendito és tu, Senhor, porque me escolhestes! É a alegria de uma proximidade paterna e terna”.

“A oração de louvor nos leva a esta alegria, a sermos felizes diante do Senhor. Devemos nos esforçar para recuperá-la!” – exclamou Francisco – mas “o ponto de partida” é justamente “fazer memória” desta escolha: “o Senhor me escolheu antes da criação do mundo. Mas isso não se pode entender!”:

Não se pode entender e também não se pode imaginar: que o Senhor tenha me conhecido antes da criação do mundo, que o meu nome estava no coração do Senhor. Esta é a verdade! Esta é a revelação! Se não acreditamos nisso, não somos cristãos, hein! Talvez estejamos impregnados de uma religiosidade teísta, mas não cristã! O cristão é alguém que foi escolhido, eleito no coração de Deus antes da criação do mundo. Também este pensamento enche de alegria o nosso coração: eu sou eleito! E nos dá segurança”.

“O nosso nome – observou o Papa – está no coração de Deus, precisamente nas entranhas de Deus, como a criança está dentro de sua mãe. Esta é a nossa alegria de sermos eleitos”.

É algo – continuou – que não se pode entender sozinho com a cabeça. Nem mesmo só com o coração. Para entender isso, é necessário entrar no mistério de Jesus Cristo. O mistério do Seu Filho amado: “Ele derramou o seu sangue em abundância sobre nós, com toda a sabedoria e inteligência, dando-nos a conhecer o mistério da sua vontade’. E esta é uma terceira atitude: entrar no Mistério”:

“Quando nós celebramos a Eucaristia, entramos neste Mistério, que não se pode entender totalmente: o Senhor está vivo, está conosco, aqui, na sua glória, na sua plenitude e doa mais uma vez a sua vida por nós. Esta atitude de entrar no Mistério devemos aprender a cada dia. O cristão é uma mulher, é um homem, que se esforça para entrar no Mistério. O mistério não se pode controlar: é o Mistério! Eu entro”.

A oração de louvor – concluiu o Papa – é, portanto, antes de tudo “oração da alegria”, depois, “oração de memória”: ‘Mas o que o Senhor fez por mim! Com quanta ternura me acompanhou, como se abaixou; curvou-se como o pai se curva para a criança, para fazê-la caminhar’. E, enfim, a oração ao Espírito Santo que nos conceda a “graça de entrar no Mistério, especialmente quando celebramos a Eucaristia”.

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ENTÃO OS QUE ESTAVAM NA BARCA PROSTRARAM-SE DIANTE D´ELE

por Beata Isabel da Trindade
(1880-1906), Carmelita – Último retiro, 20-21

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«Então os que estavam na barca prostraram-se diante d’Ele»

«Eles prostravam-se, eles adoravam e lançavam as suas coroas diante do trono, dizendo: "Digno és, Senhor e nosso Deus, de receber a glória, a honra e a força"» (Ap 4,10ss).

Como imitar, no céu da minha alma, esta ocupação dos bem-aventurados no céu da glória? Como prosseguir este louvor, esta adoração ininterrupta? São Paulo dá-me uma luz sobre isso quando deseja para os seus que

«Ele vos conceda, de acordo com a riqueza da Sua glória, que sejais cheios de força, pelo Seu Espírito, […] enraizados e alicerçados no amor» (Ef 3,16-17).

Estar enraizado e alicerçado no amor: tal é, me parece, a condição para exercer dignamente o ofício de «louvor à glória» (Ef 1,6). A alma que penetra e habita nestas profundezas de Deus […], que consequentemente tudo faz «n’Ele, com Ele, por Ele e para Ele» […],enraíza-se mais profundamente n’Aquele que ama com cada um dos seus movimentos, das suas aspirações e dos seus atos, por muito comuns que sejam. Tudo nela presta homenagem ao Deus três vezes santo: ela é, por assim dizer, um Sanctus perpétuo, um incessante louvor à glória!

«Eles prostravam-se, eles adoravam e lançavam as suas coroas».

Primeiramente, a alma deve prostrar-se, mergulhar no abismo do seu nada, afundar-se tão profundamente que […] encontre a verdadeira paz, imutável e perfeita, que nada transtorna, pois precipitou-se tão fundo que ninguém irá busca-la. Poderá então adorar.

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SALMO 136 (135) – CATEQUESE DO PAPA: A BONDADE DO SENHOR

19/10/2011 – Catequese que o Papa Bento XVI aos fiéis reunidos para a audiência geral.

 

Por tudo dai graças

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje, gostaria de meditar convosco um Salmo que resume toda a história de que o Antigo Testamento nos dá testemunho. Trata-se de um grande hino de louvor, que celebra o Senhor nas múltiplas e repetidas manifestações da sua bondade ao longo da história dos homens; é o Salmo 136 – ou 135, segundo a tradição greco-latina.

Aleluia. Louvai o Senhor, porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna.
Louvai o Deus dos deuses, porque sua misericórdia é eterna.
Louvai o Senhor dos senhores, porque sua misericórdia é eterna.
Só ele operou maravilhosos prodígios, porque sua misericórdia é eterna.
Ele criou os céus com sabedoria, porque sua misericórdia é eterna.
Ele estendeu a terra sobre as águas, porque sua misericórdia é eterna.
Ele fez os grandes luminares, porque sua misericórdia é eterna.
O sol que domina os dias, porque sua misericórdia é eterna.
A lua e as estrelas para presidirem a noite, porque sua misericórdia é eterna.
Ele feriu os primogênitos dos egípcios, porque sua misericórdia é eterna.
Ele tirou Israel do meio deles, porque sua misericórdia é eterna.
Graças à força de sua mão e ao vigor de seu braço, porque sua misericórdia é eterna.
Ele dividiu em dois o mar Vermelho, porque sua misericórdia é eterna.
Ele fez passar Israel pelo meio dele, porque sua misericórdia é eterna.
Ele precipitou no mar Vermelho o faraó e seu exército, porque sua misericórdia é eterna.
Ele conduziu seu povo através do deserto, porque sua misericórdia é eterna.
Ele abateu grandes reis, porque sua misericórdia é eterna.
Ele exterminou reis poderosos, porque sua misericórdia é eterna.
Seon, rei dos amorreus, porque sua misericórdia é eterna.
E Og, rei de Basã, porque sua misericórdia é eterna.
E deu a terra deles em herança, porque sua misericórdia é eterna.
Como patrimônio de Israel, seu servo, porque sua misericórdia é eterna.
Em nosso abatimento ele se lembrou de nós, porque sua misericórdia é eterna.
E nos livrou de nossos inimigos, porque sua misericórdia é eterna.
Ele dá alimento a todos os seres vivos, porque sua misericórdia é eterna.
Louvai o Deus do céu, porque sua misericórdia é eterna.

Solene oração de ação de graças, conhecida como o "Grande Hallel", este Salmo é cantado tradicionalmente no final da ceia pascal judaica e foi, provavelmente, também rezado por Jesus na última Páscoa celebrada com seus discípulos; a isso, parece de fato aludir a anotação dos Evangelistas: "Depois de terem cantado o hino, foram para o Monte das Oliveiras" (Mt 26, 30; Mc 14, 26). O horizonte do louvor ilumina, assim, o difícil caminho para o Gólgota. Todo o Salmo 136 executa-se na forma de ladainha, cantada por repetição antifonal "porque o seu amor é para sempre". Ao longo do poema, são enumeradas as muitas maravilhas de Deus na história humana e as suas intervenções em curso em favor de seu povo; e a cada proclamação da ação salvífica do Senhor responde a antífona com a motivação fundamental do louvor: o amor eterno de Deus, um amor que, de acordo com o termo hebraico utilizado, implica fidelidade, misericórdia, bondade, graça, ternura. É esse o motivo unificador de todo o Salmo, repetido de forma sempre gradual, enquanto mudam as suas manifestações pontuais e paradigmáticos: a criação, a libertação do Êxodo, o dom da terra, a ajuda providente e constante do Senhor com relação a seu povo e toda a criatura.

Após um tríplice convite a dar graças a Deus soberano (vv. 1-3), celebra-se o Senhor como Aquele que faz "grandes maravilhas" (v. 4), a primeira das quais é a criação: os céus, a terra , as estrelas (vv. 5-9). O mundo criado não é um simples cenário em que se insere o agir salvífico de Deus, mas é o início mesmo desse agir maravilhoso. Com a criação, o Senhor se manifesta em toda a sua bondade e beleza, compromete-se com a vida, revelando um desejo pelo bem do qual surge cada um dos outros atos de salvação. E, em nosso Salmo, ecoando o primeiro capítulo do Gênesis, o mundo criado é sintetizado em seus principais elementos, com particular ênfase nos astros, no sol, na lua, nas estrelas, criaturas magníficas que governam o dia e a noite. Não se fala aqui da criação do ser humano, mas ele está sempre presente; o sol e a lua existem para ele – para o homem –, para marcar o tempo do homem, colocando-o em relação com o Criador, sobretudo através da indicação dos tempos litúrgicos.

E é exatamente a festa da Páscoa que é evocada logo após, quando, passando pela manifestação de Deus na história, começa com o grande acontecimento da libertação da escravidão egípcia, do Êxodo, traçado em seus elementos mais significativos: a libertação do Egito com a praga dos primogênitos egípcios, a saída do Egito, a passagem do Mar Vermelho, o caminho no deserto até a entrada na Terra Prometida (vv. 10-20). Estamos no momento original na história de Israel. Deus interveio poderosamente para levar o seu povo à liberdade; através de Moisés, seu enviado, impôs-se ao Faraó, revelando-se em toda a sua grandeza, e, finalmente, quebrou a resistência dos egípcios com o terrível flagelo da morte dos primogênitos. Assim, Israel pode deixar o país da escravidão, com o ouro dos seus opressores (cf. Ex 12,35-36), "de cabeça erguida" (Ex 14, 8), regozijando-se no sinal da vitória. Também no Mar Vermelho o Senhor age com misericordioso poder. Frente a um Israel amedrontado por ver os egípcios que os perseguem, a ponto de se arrependerem de terem deixado o Egito (cf. Ex 14,10-12), Deus, como diz o Salmo, "dividiu o Mar Vermelho em duas partes […],fez passar Israel em seu meio […] e derrubou o Faraó e seu exército" (vv. 13-15). A imagem do Mar Vermelho "dividido" em dois parece evocar a ideia do mar como um grande monstro que é cortado em dois pedaços e, assim, torna-se inócuo. O poder do Senhor vence a periculosidade das forças da natureza e daquelas militares, colocadas em campo pelos homens: o mar, que parecia barrar o caminho para o povo de Deus, deixa passar Israel a pé enxuto, e, em seguida, fecha-se sobre os egípcios abatidos. "A mão poderosa e braço estendido" do Senhor (cf. Dt 5,15, 7,19, 26,8) mostram-se assim em toda a sua força salvífica: o injusto opressor foi vencido, engolido pelas águas, enquanto o povo de Deus "passa" para continuar sua jornada para a liberdade.

A esse caminho faz, agora, referência o nosso Salmo, recordando com uma frase brevíssima o longo peregrinar de Israel até a terra prometida: "Conduziu seu povo no deserto, porque o seu amor é para sempre" (v. 16). Essas poucas palavras contêm uma experiência de quarenta anos, um tempo decisivo para Israel, que, deixando-se guiar pelo Senhor, aprende a viver na fé, na obediência e na docilidade à lei de Deus. São anos difíceis, marcados pela dureza da vida no deserto, mas também anos felizes, de confiança no Senhor, de confiança filial; é o tempo da "juventude", como o define o profeta Jeremias falando a Israel, em nome do Senhor, com expressões cheias de ternura e nostalgia: "Lembro-me de tua afeição quando eras jovem, de teu amor de noivado, no tempo em que me seguias ao deserto, à terra sem sementeiras" (Jr 2, 2). O Senhor, como o pastor do Salmo 23, que contemplamos em uma catequese, por quarenta anos guiou o seu povo, educou-o e amou-o, conduzindo-o para a terra prometida, vencendo também as resistências e a hostilidade dos povos inimigos que queriam obstruir o caminho da salvação (cf. vv. 17-20).

No desenrolar das "grandes maravilhas" que o nosso Salmo enumera, chega-se assim ao momento do dom conclusivo, no cumprimento da promessa divina feita aos Padres: "Deu a sua terra por herança, porque o seu amor é para sempre; em herança a Israel, seu servo, porque o seu amor é para sempre" (vv. 21-22). Na celebração do amor eterno do Senhor, faz-se agora uma memória do dom da terra, um presente que o povo deve receber sem nunca apossar-se dela, vivendo continuamente em uma atitude de aceitação agradecida e grata. Israel recebe o território em que habitar como "herança", um termo que designa de modo genérico a posse de um bem recebido de outro, um direito de propriedade que, especificamente, faz referência ao patrimônio paterno. Uma das prerrogativas de Deus é a de "dar"; e agora, no final do caminho do Êxodo, Israel, destinatário do dom, como um filho, entra na terra da promessa cumprida. Terminou o tempo da peregrinação sob as tendas, numa vida marcada pela precariedade. Agora, começou o tempo feliz da estabilidade, da alegria de construir as casas, de plantar as vinhas, de viver em segurança (cf. Dt 8,7-13). Mas é também o tempo da tentação idolátrica, da contaminação com os pagãos, da autossuficiência que faz esquecer a Origem do dom. Por isso, o Salmista menciona a humilhação e os inimigos, uma realidade da morte em que o Senhor, mais uma vez, revela-se como Salvador: "Na nossa angústia, recordou-se de nós, porque o seu amor é para sempre; libertou-nos dos nossos adversários, porque o seu amor é para sempre" (vv. 23-24).

Neste ponto surge a pergunta: como podemos fazer deste Salmo uma oração nossa, como podemos apropriar-nos, para a nossa oração, deste Salmo? Importante é a estrutura do Salmo, no início e no fim: a criação. Voltaremos a este ponto: a criação como grande dom de Deus do qual vivemos, no qual Ele se revela em sua bondade e grandeza. Portanto, ter presente a criação como dom de Deus é um ponto comum para todos nós. Depois segue a história da salvação. Naturalmente, nós podemos dizer: essa libertação do Egito, o tempo do deserto, a entrada na Terra Santa e, em seguida, os outros problemas, que estão muito longe de nós, não são a nossa história. Mas devemos estar atentos à estrutura fundamental desta oração. A estrutura fundamental é que Israel recorda-se da bondade do Senhor. Nessa história, há muitos vales escuros, há muitas passagens de dificuldade e morte, mas Israel recorda-se de que Deus era bom e, então, consegue sobreviver neste vale escuro, neste vale da morte, porque se recorda do Senhor. Israel tem a memória da bondade do Senhor, de seu poder; sua misericórdia é para sempre. E isso é importante também para nós: ter uma memória da bondade do Senhor. A memória torna-se uma força de esperança. A memória nos diz: Deus existe, Deus é bom, eterna é a sua misericórdia. E assim a memória abre, mesmo na escuridão de um dia, de um período, a estrada para o futuro: é luz e estrela que nos guia. Também nós temos uma memória do bem, do amor misericordioso, eterno de Deus. A história de Israel já é uma memória também para nós, como Deus se mostrou e criou seu próprio povo. Depois, Deus se fez homem, um de nós: viveu conosco, sofreu conosco, morreu por nós. Permanece conosco no Sacramento e na Palavra. É uma história, uma memória da bondade de Deus, que nos assegura a sua bondade: o seu amor é eterno. E, depois, também nestes dois mil anos da história da Igreja, existe sempre, de novo, a bondade do Senhor. Após o período obscuro da perseguição nazista e comunista, Deus libertou-nos, mostrou-nos que é bom, que tem força, que a sua misericórdia é para sempre. E, como na história comum, coletiva, está presente esta memória da bondade de Deus, essa ajuda-nos, torna-se uma estrela de esperança, ainda que cada um tenha a sua história pessoal de salvação, e devemos realmente valorizar essa história, ter sempre a memória das grandes coisas que Ele fez na nossa vida, para ter confiança: a sua misericórdia é eterna. E se, hoje, estamos na noite escura, amanhã Ele nos liberta, porque a sua misericórdia é eterna.

Retornemos ao Salmo, porque, no final, ele retorna à criação. O Senhor – assim diz – "dá alimento a toda a carne, porque o seu amor é para sempre" (v. 25). A oração do Salmo conclui-se com um convite ao louvor: "Dai graças ao Deus dos céus, porque o seu amor é para sempre". O Senhor é Pai bom e providente, que dá herança aos seus filhos e dá a todos o alimento para viver.O Deus que criou os céus e a terra e os grandes luminares celestes, que entra na história humana para trazer a salvação para todos os seus filhos, é o Deus que preenche o universo com a sua presença de bem, cuidando de nossa vida e dando-nos o pão. O poder invisível do Criador e Senhor cantado no Salmo revela-se na pequena visibilidade do pão que nos dá, com o qual nos faz viver. E assim esse pão de cada dia simboliza e sintetiza o amor de Deus como Pai, e abre-nos para o cumprimento do Novo Testamento, aquele "pão da vida", a Eucaristia, que nos acompanha na nossa existência de crentes, antecipando a alegria definitiva do banquete messiânico no céu.

Irmãos e irmãs, o louvor benedicente do Salmo 136 fez-nos reconstituir as etapas mais importantes da história da salvação, até chegar ao mistério pascal, em que a ação salvífica de Deus atinge o seu ápice. Com alegria, celebremos, portanto, o Criador, Salvador e Pai fiel, que "amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus se fez homem para dar a sua vida pela salvação de cada um de nós, e dá-se como pão no mistério eucarístico para fazer-nos entrar na sua aliança, que nos torna filhos. A esse ponto chega a bondade misericordiosa de Deus e a sublimidade do seu "amor para sempre".

Quero, por isso, concluir esta Catequese fazendo minhas as palavras que São João escreve em sua Primeira Carta e que deveremos sempre manter presentes na nossa oração: "Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato" (I Jo 3, 1). Obrigado.

[No final da audiência, Bento XVI saudou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje queria meditar convosco o salmo 136, um solene hino de louvor que celebra as inúmeras manifestações de bondade do Senhor para com os homens. Conhecido como o “Grande Hallel”, este salmo é cantado tradicionalmente no final da Ceia pascal hebraica; isso mesmo deve ter feito o próprio Jesus na Última Ceia com seus discípulos. A antífona “eterno é o seu amor” acompanha a narração dos diversos prodígios de Deus na história. De fato, a motivação fundamental do louvor é o amor eterno de Deus: um amor manifestado já desde o início da criação e que vai se reafirmando nos prodígios do Êxodo, na longa travessia do deserto, na conquista da terra prometida, nos momentos de humilhação e desgraça. Por fim, o Salmo louva a bondade de Deus, “que a todo ser vivente alimenta”. Assim, sintetiza o amor paternal de Deus por nós e abre-nos à promessa da Eucaristia, o alimento que acompanha a nossa caminhada de fé.

Amados peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! A todos saúdo com grande afeto e alegria, de modo especial a quantos vieram do Brasil com o desejo de encontrar o Sucessor de Pedro. “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” Possa Ele sempre vos abençoar a vós e as vossas famílias! Ide em paz!

[Tradução: Canção Nova]

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SALMO 126 (125) – PAPA BENTO XVI: ABERTOS À ESPERANÇA E FIRMES NA FÉ

13/10/2011 – Catequese que o Papa Bento XVI dirigiu ontem aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.

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Queridos irmãos e irmãs:

Nas catequeses anteriores, meditamos sobre alguns salmos de lamento e de fé. Hoje, eu gostaria de refletir com vocês sobre um salmo de tipo festivo, uma oração que, na alegria, fala das maravilhas de Deus. É o Salmo 126 – segundo a numeração greco-latina, o 125 –, que celebra as grandes coisas que o Senhor realizou no seu povo e que continuamente realiza em todos os crentes.

O salmista, em nome de todo Israel, começa sua oração recordando a experiência exultante da salvação:

“Quando o Senhor restabeleceu a sorte de Sião,

pensamos que era um sonho.

Então nossa boca transbordava de sorrisos

e nossa língua cantava de alegria.” (vv. 1-2a)

O salmo fala de uma sorte restabelecida, isto é, restituída ao seu estado original, em toda a sua anterior positividade. Ou seja, parte-se de uma situação de sofrimento e de necessidade à qual Deus responde sendo a salvação e levando o orante à condição anterior, inclusive enriquecida e melhorada. É o que acontece com Jó, quando o Senhor lhe devolve tudo o que havia perdido, redobrando-lhe e ampliando uma bênção ainda maior (cf. 42,10-13); é o que o Povo de Israel experimenta quando volta à sua pátria após o exílio na Babilônia. É justamente a referência ao fim da deportação em terra estrangeira o que se interpreta neste salmo: a expressão “restabelecer a sorte de Sião” é lida e compreendida pela tradição como um “trazer de volta os exilados de Sião”. De fato, o retorno do exílio é o paradigma de toda intervenção divina de salvação, porque a queda de Jerusalém e a deportação à Babilônia foram experiências devastadoras para o povo escolhido, não só no âmbito político e social, mas também e sobretudo no campo religioso e espiritual. A perda da terra, o final da monarquia davídica e a destruição do Templo parecem um desmentido das promessas divinas, e o povo da aliança, disperso entre os pagãos, interroga-se dolorosamente sobre um Deus que parece tê-lo abandonado. Por isso, o final da deportação e o retorno à pátria são vivenciados como um maravilhoso retorno à fé, à confiança, à comunhão com o Senhor; é um “restabelecimento da sorte” que implica também na conversão do coração, no perdão, na amizade reencontrada com Deus, na conscientização da sua misericórdia e na renovada possibilidade de louvá-lo (cf. Jr 29,12-14; 30,18-20; 33,6-11; Ez 39,25-29). Trata-se de uma experiência de alegria abrumadora, de sorrisos e de gritos de júbilo, tão bela que “pensamos que era um sonho”. As intervenções divinas têm, muitas vezes, formas inesperadas, que vão além do que o homem pode imaginar; daqui a maravilha e o júbilo que se expressam no louvor: “Maravilhas o Senhor fez por nós”. É o que dizem as nações e o que Israel proclama:

“Então se comentava entre os povos:

‘O Senhor fez por eles maravilhas’.

Maravilhas o Senhor fez por nós,

encheu-nos de alegria!”(vv. 2b-3).

Deus faz maravilhas na história dos homens. Realizando a salvação, revela-se a todos como Senhor potente e misericordioso, refúgio do oprimido, que não se esquece do lamento dos pobres (cf. Sl 9,10.13), que ama a justiça e o direito e de cujo amor está cheia a terra (cf. Sl 33,5).

Por isso, diante da libertação do povo de Israel, todos os povos reconhecem as coisas grandes e estupendas que Deus realiza para o seu povo e celebram o Senhor em sua realidade de Salvador. Israel se faz eco da proclamação das nações e a repete, mas como protagonista, como destinatário direto da ação divina: “Maravilhas o Senhor fez por nós”; “por nós” ou, mais precisamente, “conosco”, em hebraico ‘immanû, afirmando assim esta relação privilegiada que o Senhor tem com seus escolhidos e que encontrará no nome Emmanuel, “Deus conosco”, com o qual se conhece Jesus, seu cume e sua plena manifestação (cf. Mt 1,23).

Queridos irmãos e irmãs, na nossa oração, devemos considerar mais frequentemente como, nos acontecimentos da nossa vida, o Senhor nos protegeu, guiou, ajudou e, assim, louvá-lo por tudo o que fez por nós. Devemos estar atentos às coisas que Deus nos dá. Estamos sempre pendentes dos problemas, das dificuldades e quase não queremos perceber as coisas boas que vêm do Senhor. Esta atenção, que se converte em gratidão, é muito importante para nós e nos cria uma lembrança do bem que nos ajuda também nas horas de escuridão. Deus realiza grandes coisas e quem experimenta isso – atento à bondade do Senhor, com a atenção do coração – está repleto de alegria. Com esta nota festiva termina a primeira parte do salmo. Ser salvos e voltar à pátria do exílio é como voltar à vida; a libertação abre ao sorriso, mas junto à esperança de um cumprimento que ainda é preciso desejar e pedir. Esta é a segunda parte do salmo, que diz assim:

“Traze de volta, Senhor, nossos exilados,

como torrentes que correm no Negueb!

Quem semeia entre lágrimas colherá com alegria.

Quando vai, vai chorando, levando a semente para plantar;

mas quando volta, volta alegre, trazendo seus feixes.”(vv. 4-6)

Se, no começo da oração, o salmista celebrava a alegria de um destino restabelecido pelo Senhor, agora o pede como algo que não se realizou ainda. Se aplicarmos este salmo à volta do exílio, esta aparente contradição se explicará com a experiência histórica, vivida por Israel, de volta a uma pátria difícil, só parcial, que induz o orante a solicitar uma posterior intervenção divina para levar à plenitude a restauração do povo.

Mas o salmo vai além do dado puramente histórico para abrir-se a dimensões mais amplas, de tipo teológico. A experiência consoladora da libertação da Babilônia está inacabada, “já” acontecida, mas “ainda não” chegou à sua plenitude. Assim, enquanto na alegria se comemora a salvação recebida, a oração se abre à esperança de uma plena realização. Por isso, o salmo utiliza imagens particulares que, com sua complexidade, remetem à realidade misteriosa da redenção, na qual se entrelaçam o dom recebido e o que ainda não chegou, vida e morte, alegria sonhadora e lágrimas penosas. A primeira imagem faz referência aos torrentes secos do Negueb, que, com as chuvas, se enchem de águas impetuosas que devolvem a vida ao terreno seco e o fazem reflorescer. A petição do salmista é, portanto, que o restabelecimento do destino do povo e a volta do exílio sejam como a água, abrumadora e imparável, capaz de transformar o deserto em uma imensa região de erva verde e flores.

A segunda imagem vem das colinas áridas e rochosas do Negueb aos campos que os agricultores cultivam para obter o alimento. Para falar de salvação, recorda-se aqui a experiência de cada ano que se renova no mundo agrícola: o momento difícil e fatigoso da semeadura e a alegria tremenda da colheita. Uma semeadura que se acompanha com lágrimas, porque se tira o que ainda poderia se converter em pão, expondo-se a uma espera cheia de inseguranças: o camponês trabalha, prepara o terreno, espalha a semente, mas, como tão bem ilustra a parábola do semeador, não se sabe onde esta semente cairá, se os pássaros a comerão, se dará raízes, se se tornará uma espiga (cf. Mt 13,3-9; Mc 4,2-9; Lc 8,4-8). Espalhar a semente é um gesto de confiança e de esperança; é necessário o trabalho do homem, mas depois se entra em uma espera imponente, sabendo que muitos fatores serão determinantes para o bom resultado da colheita e que o risco de um fracasso está sempre presente. Mas, todos os anos, o camponês repete seu gesto e lança a sua semente. Quando esta se converte em espiga e os campos se enchem de messe, então aparece a alegria de quem está diante de um prodígio extraordinário. Jesus conhecia bem esta experiência e falava dela com os seus: “Jesus dizia-lhes: ‘O Reino de Deus é como quando alguém lança a semente na terra. Quer ele esteja dormindo ou acordado, de dia ou de noite, a semente germina e cresce, sem que ele saiba como’.” (Mc 4,26-27). É o mistério escondido da vida, são as maravilhosas “coisas grandes” da salvação que o Senhor realiza na história dos homens e cujo segredo os homens ignoram. A intervenção divina, quando se manifesta em plenitude, mostra uma dimensão abrumadora, como os torrentes do Negueb e como o grão dos campos, evocador, este último, da desproporção típica das coisas de Deus: desproporção entre o cansaço da semeadura e a imensa alegria da colheita, entre a ansiedade da espera e a visão tranquilizadora dos celeiros cheios, entre as pequenas sementes lançadas na terra e a visão das gavilhas douradas pelo sol. Na colheita, tudo se transforma, o pranto acaba, deixa seu lugar a gritos de alegria exultante.

A tudo isso se refere o salmista para falar da salvação, da libertação, do restabelecimento da sorte, do retorno do exílio. A deportação à Babilônia, como toda situação de sofrimento e de crise, com sua escuridão dolorosa feita de dúvidas e de aparente distância de Deus, na verdade, diz o nosso salmo, é como uma semeadura. No mistério de Cristo, à luz do Novo Testamento, a mensagem se torna mais explícita e clara: o crente que atravessa essa escuridão é como o grão de trigo que cai na terra e morre, mas para dar muito fruto (cf. Jo 12,24); ou, retomando outra imagem querida por Jesus, é como a mulher que sofre com as dores do parto para poder chegar à glória de ter dado à luz uma vida nova (cf. Jo 16,21).

Queridos irmãos e irmãs, este salmo nos ensina que, na nossa oração, devemos permanecer sempre abertos à esperança e firmes na fé em Deus. Nossa história, ainda que marcada muitas vezes pela dor, pelas inseguranças e momentos de crise, é uma história de salvação e de “restabelecimento do destino”. Em Jesus termina o nosso exílio, toda lágrima se enxuga no mistério da sua Cruz, da morte transformada em vida, como o grão de trigo que se destrói na terra e se torna espiga. Também para nós, esta descoberta de Jesus é a grande alegria do “sim” de Deus, do restabelecimento do nosso destino. Mas como aqueles que – voltando da Babilônia, repletos de alegria – encontraram uma terra empobrecida, devastada, como também as dificuldades da semeadura fazem chorar os que não sabem se no final haverá colheita, assim também nós, depois da grande descoberta de Jesus Cristo – nossa vida, caminho e verdade –, entrando no terreno da fé, na “terra da fé”, encontramos frequentemente uma vida escura, dura, difícil, uma semeadura com lágrimas, mas seguros de que a luz de Cristo, no final, nos dá uma grande colheita. Devemos aprender isso também nas noites escuras; não esquecer que a luz está aí, que Deus já está no meio das nossas vidas e que podemos semear com a grande confiança de que o “sim” de Deus é mais forte do que todos nós. É importante não perder esta lembrança da presença de Deus na nossa vida, esta alegria profunda de que Deus entrou na nossa vida, libertando-nos: é a gratidão pela descoberta de Jesus Cristo, que veio a nós. E esta gratidão se transforma em esperança, é estrela da esperança que nos dá a confiança, é a luz, porque as dores da semeadura são o início da nova vida, da grande e definitiva alegria de Deus.

Obrigado!

[No final da audiência, Bento XVI saudou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

O Salmo 126 celebra as grandes coisas que o Senhor operou a favor do povo de Israel, e mais concretamente a sua libertação do cativeiro de Babilónia e o regresso a Sião. Trata-se duma experiência tão bela que lhes «parecia viver um sonho». As intervenções do Senhor tomam, por vezes, formas inesperadas e proporções tão grandiosas que ultrapassam quanto podemos imaginar, suscitando o júbilo e a admiração: «Grandes coisas fez por nós o Senhor»! E, enquanto celebram com «expressões de alegria» a salvação recebida, a oração abre-se à súplica pelo restabelecimento completo da sorte do povo de Deus. Em Jesus, no mistério da Cruz, a morte foi transformada em vida, como o grão de trigo que se desfaz na terra para ressurgir espiga. Que o Senhor nos conceda caminhar com Ele para a Casa do Pai, nossa verdadeira Pátria, cantando as suas maravilhas em nossas vidas, como Maria: «O Todo-Poderoso fez em Mim maravilhas: Santo é o seu nome»!

Saúdo os diversos grupos de peregrinos vindos do Brasil e demais participantes de língua portuguesa, cujos passos e intenções confio à Virgem Maria. Este mês de Outubro convida-nos a perseverar na reza diária do terço; que, desta forma, as vossas famílias se reúnam com a nossa Mãe do Céu, para cooperarem plenamente com os desígnios de salvação que Deus tem sobre vós. Com afecto concedo-vos, a vós e aos vossos familiares, a minha Bênção Apostólica.

[Tradução: Aline Banchieri]

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