NADA TE PERTURBE

por Emmir Nogueira, Co-Fundadora da Comunidade Shalom

Oração

Quer conhecer um roteiro infalível para seu dia a dia? Leia com atenção:

Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa!  Só Deus não muda. A paciência, por fim, tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta, pois só Deus basta.

Escrito há 500 anos, essa poesia de Santa Teresa de Jesus continua a ensinar o essencial: Só Deus basta! Mas, o que isso significa concretamente?

Vivemos sobressaltados, preocupados. Inquietos, passamos o dia tentando resolver mil coisas. Ansiosos, não conseguimos dormir bem. Preocupados, acabamos por meter os pés pelas mãos no desejo de evitar que aconteça o que nós consideramos “o pior”. Estressados, acabamos por nos irritar contra tudo e todos. Gritamos no trânsito, gritamos em casa, desmoronamos de cansaço.

O problema está, entre outras coisas, em achar que sabemos o que é o “melhor”  e “pior” para nós. Uma vez estabelecido o que consideramos nos convir ou não, tomamos as rédeas para determinar o que consideramos “melhor”. Ocorre que tudo, mas tudo mesmo, passa e o que ontem nos parecia “o melhor”, hoje é, visivelmente, “o pior”.

A raiz da inquietação, estresse, preocupação e ansiedade que aos poucos nos matam, contudo, reside além do fato de tudo passar, reside na fé.

Há a fé  que acredita em Deus e reza, contrita, o “Creio em Deus Pai”. Acreditar desse jeito, afirma São Tiago, até os demônios crêem e tremem. Nós, até cremos, quanto a tremer…

Há aquela “fé” que pede a Deus o que acha “necessário”, “imprescindível”,  “melhor” e fica ressentida com Deus se ele não atende seu pedido por mais que peça através de todos os meios – diga-se de passagem, nem sempre lícitos. É a fé infantil, diria, até, “birrenta”. Essa fé, “contrariada”, muda de igreja quando não é atendida, assim como criança birrenta põe cara feia e diz aos pais que não é mais filho deles.

Há a fé  madura, que crê no Evangelho e na Igreja e vive seus ensinamentos, custe o que custar. É a fé dos santos.

Há a fé  que confia em Deus e a ele se entrega inteiramente, tranquila, pois sabe que ele é Pai e sempre providencia o melhor para nós. E, para Deus, o melhor para nós é a santidade.

É essa fé madura e inteiramente confiante no amor de Deus que não se perturba com nada. Sabe ser fiel a Deus e ao Evangelho na penúria e na fartura, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Essa fé madura e confiante que é amada por Deus, não se espanta com nada. Nada a escandaliza, ainda que seja grande tristeza. Seus olhos não estão aqui na terra, mas fixos no céu. Sabe que, aqui na terra, tudo passa, tudo muda. Sabe que tudo pode nos enganar e iludir. Sabe, sobretudo, que Só Deus é o mesmo sempre. Só Deus não muda. Só o amor de Deus é sempre o mesmo, pois ele é amor em ato. Essa fé não vive para a terra nem valoriza o que à terra pertence. Vive para o céu, usando as coisas da terra para alcançá-lo.

Por isso tem paciência. Não aquela paciência de autodomínio, nem aquela que rói as unhas e balança as pernas para controlar a impaciência interior. Trata-se, aqui, da paciência-esperança, a paciência-fé, a paciência-amor.

É aquela paciência que sabe que Deus está no comando. Sabe que ele pode tudo e tudo realiza por amor. Está certa de que, no tempo de Deus – e não no seu! – ele mesmo resolverá da melhor forma de todas, sempre visando nossa santificação e a do mundo. Sabe que, ainda que tudo esteja negro, verá a vitória de Deus e que essa vitória nem sempre é tal qual pensamos.

Fé, caridade, esperança, paciência, confiança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Corretíssimo. Mas, quem é mesmo que “tem Deus”. Todos. Porém, Santa Teresa fala aqui daquele que conhece Deus não por palavras e teorias, mas pela oração e pelo amor. Em uma palavra, pelo relacionamento pessoal, relacionamento de amizade. Este, que ora com a Palavra, que tem a Deus como o centro de sua vida, que procura amá-lo em tudo, a este, nada lhe falta. Dele cuida o Pai muito melhor do que as aves do céu e os lírios dos campos, pois ele vale muito mais aos seus olhos.

Nada te perturbe, homem de pouca fé! Nada te espante, mulher de pouca esperança! Tudo, mas tudo, mesmo, passa, exceto Deus. Fica, então, com o Único que é  digno do teu amor e deixa-o cuidar de ti. Espera. Confia. Espera sempre, confia sempre. Quem tem a Deus, quem o conhece, quem confia nele, vive de forma diferente, vive de olho no céu e de coração no coração de Deus. Por isso, é tranqüilo e feliz.

Só Deus basta. Dedica-te a Ele. Deixa-te amar por ele. Ama-o. Nada, então, te perturbará.

Maria Emmir Oquendo Nogueira

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PERFEIÇÃO CRISTÃ SEGUNDO SANTA TERESA DE ÁVILA

Catequese do Papa Bento XVI – 02/02/2011

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Queridos irmãos e irmãs:

Ao longo das catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade Média, pude falar sobre alguns santos e santas que foram proclamados Doutores da Igreja por sua eminente doutrina. Hoje, eu gostaria de começar com uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja.

E iniciamos com uma santa que representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos: Santa Teresa de Jesus. Ela nasceu em Ávila, Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Em sua autobiografia, ela menciona alguns detalhes da sua infância: o nascimento "de pais virtuosos e tementes a Deus", em uma grande família, com nove irmãos e três irmãs. Ainda jovem, com pelo menos 9 anos, leu a vida dos mártires, que inspiram nela o desejo de martírio, tanto que chegou a improvisar uma breve fuga de casa para morrer como mártir e ir para o céu (cf. Vida 1, 4): "Eu quero ver Deus", disse a pequena aos seus pais. Alguns anos mais tarde, Teresa falou de suas leituras da infância e afirmou ter descoberto a verdade, que se resume em dois princípios fundamentais: por um lado, que "tudo o que pertence a este mundo passa"; por outro, que só Deus é para "sempre, sempre, sempre", tema que recupera em seu famoso poema: "Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem a Deus, nada lhe falta. Só Deus basta!". Ficando órfã aos 12 anos, pediu à Virgem Santíssima que fosse sua mãe (cf. Vida 1,7).

Se, na adolescência, a leitura de livros profanos a levou às distrações da vida mundana, a experiência como aluna das freiras agostinianas de Santa Maria das Graças, de Ávila, e a leitura de livros espirituais, em sua maioria clássicos da espiritualidade franciscana, ensinaram-lhe o recolhimento e a oração. Aos 20 anos de idade, entrou para o convento carmelita da Encarnação, sempre em Ávila. Três anos depois, ela ficou gravemente doente, tanto que permaneceu por quatro dias em coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Também na luta contra suas próprias doenças, a santa vê o combate contra as fraquezas e resistências ao chamado de Deus. Escreve: "Eu desejava viver porque compreendia bem que não estava vivendo, mas estava lutando com uma sombra de morte, e não tinha ninguém para me dar vida, e nem eu poderia tomá-la, e Aquele que podia dá-la a mim, estava certo em não me socorrer, dado que tantas vezes me voltei contra Ele, e eu o havia abandonado" (Vida 8, 2). Em 1543, ela perdeu a proximidade da sua família: o pai morre e todos os seus irmãos, um após o outro, migram para a América. Na Quaresma de 1554, aos 39 anos, Teresa chega o topo de sua luta contra suas próprias fraquezas. A descoberta fortuita de "um Cristo muito ferido" marcou profundamente a sua vida (cf. Vida 9). A santa, que naquele momento sente profunda consonância com o Santo Agostinho das "Confissões", descreve assim a jornada decisiva da sua experiência mística: "Aconteceu que…de repente, experimentei um sentimento da presença de Deus, que não havia como duvidar de que estivesse dentro de mim ou de que eu estivesse toda absorvida n’Ele" (Vida 10, 1). Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita: em 1562, funda, em Ávila, com o apoio do bispo da cidade, Dom Álvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e logo depois recebe também a aprovação do superior geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes, continuou a fundação de novos Carmelos, um total de dezessete. Foi fundamental seu encontro com São João da Cruz, com quem, em 1568, constituiu, em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento das Carmelitas Descalças. Em 1580, recebe de Roma a ereção a Província Autônoma para seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem Religiosa dos Carmelitas Descalços. Teresa termina sua vida terrena justamente enquanto está se ocupando com a fundação.

Em 1582, de fato, tendo criado o Carmelo de Burgos e enquanto fazia a viagem de volta a Ávila, ela morreu, na noite de 15 de outubro, em Alba de Tormes, repetindo humildemente duas frases: "No final, morro como filha da Igreja" e "Chegou a hora, Esposo meu, de nos encontrarmos". Uma existência consumada dentro da Espanha, mas empenhada por toda a Igreja. Beatificada pelo Papa Paulo V, em 1614, e canonizada por Gregório XV, em 1622, foi proclamada "Doutora da Igreja" pelo Servo de Deus Paulo VI, em 1970. Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros (cf. Prefácio do "Caminho de Perfeição"), ou seja, a partir da experiência. Teresa consegue tecer relações de amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz. Ao mesmo tempo, é alimentada com a leitura dos Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho. Entre suas principais obras, deve ser lembrada, acima de tudo, sua autobiografia, intitulada "Livro da Vida", que ela chama de "Livro das Misericórdias do Senhor". Escrito no Carmelo de Ávila, em 1565, conta o percurso biográfico e espiritual, por escrito, como diz a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do "Mestre dos espirituais", São João de Ávila. O objetivo é manifestar a presença e a ação de um Deus misericordioso em sua vida: Para isso, a obra muitas vezes inclui o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura fascinante, porque a santa não apenas narra, mas mostra reviver a profunda experiência do seu amor com Deus. Em 1566, Teresa escreveu o "Caminho da perfeição", chamado por ela de "Admoestações e conselhos" que dava às suas religiosas. As destinatárias são as doze noviças do Carmelo de São José, em Ávila. Teresa lhes propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais importantes, destaca-se o comentário sobre o Pai Nosso, modelo de oração. A obra mística mais famosa de Santa Teresa é o "Castelo Interior", escrito em 1577, em plena maturidade. É uma releitura do seu próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a ação do Espírito Santo. Teresa refere-se à estrutura de um castelo com sete "moradas", como imagens da interioridade do homem, introduzindo, ao mesmo tempo, o símbolo do bicho da seda que renasce em uma borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa se inspira na Sagrada Escritura, especialmente no "Cântico dos Cânticos", para o símbolo final dos "dois esposos", que permite descrever, na sétima "morada", o ápice da vida cristã em seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua atividade fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o "Livro das fundações", escrito entre 1573 e 1582, no qual fala da vida do nascente grupo religioso. Como na autobiografia, a história é dedicada principalmente a evidenciar a ação de Deus na fundação dos novos mosteiros.

Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e complexa espiritualidade teresiana. Podemos citar alguns pontos-chave. Em primeiro lugar, Santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base da vida cristã e humana: em particular, o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer das virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura. Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela se sente em consonância sobretudo com a esposa do "Cântico dos Cânticos", com o apóstolo Paulo, além de com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico.

A santa enfatiza, depois, quão essencial é a oração: rezar significa "tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama" (Vida 8, 5). A ideia de Santa Teresa coincide com a definição que São Tomás Aquino dá da caridade teologal, como amicitia quaedam hominis ad Deum, uma espécie de amizade entre o homem e Deus, quem primeiro ofereceu sua amizade ao homem (Summa Theologiae II-ΙI, 23, 1). A iniciativa vem de Deus. A oração é vida e se desenvolve gradualmente, em sintonia com o crescimento da vida cristã: começa com a oração vocal, passa pela interiorização, através da meditação e do recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e com a Santíssima Trindade. Obviamente, este não é um desenvolvimento no qual subir degraus significa abandonar o tipo de oração anterior, mas um gradual aprofundamento da relação com Deus, que envolve toda a vida. Mais que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira "mistagogia": ela ensina o leitor de suas obras a rezar, rezando ela mesma com ele; frequentemente, de fato, interrompe o relato ou a exposição para fazer uma oração.

Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação. Daí a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, para a vida de cada crente e como coração da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja: ela manifesta um vivo sensus Ecclesiae frente a episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem Carmelita com a intenção de servir e defender melhor a "Santa Igreja Católica Romana" e está disposta a dar sua vida por ela (cf. Vida 33, 5).

Um último aspecto fundamental da doutrina de Teresa que eu gostaria de sublinhar é a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final. A Santa tem uma ideia muito clara da "plenitude" de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do "Castelo Interior", na última "morada", Teresa descreve a plenitude, realizada na inabitação da Trindade, na união com Cristo mediante o mistério da sua humanidade.

Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação; ensina-nos a sentir realmente essa sede de Deus que existe em nosso coração, esse desejo de ver Deus, de buscá-lo, de ter uma conversa com Ele e de ser seus amigos. Esta é a amizade necessária para todos e que devemos buscar, dia após dia, novamente.

Que o exemplo desta santa, profundamente contemplativa e eficazmente laboriosa, também nos encoraje a dedicar a cada dia o tempo adequado à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho de busca de Deus, para vê-lo, para encontrar a sua amizade e, por conseguinte, a vida verdadeira; porque muitos de nós deveríamos dizer: "Eu não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida". Porque este tempo de oração não é um tempo perdido, é um tempo no qual se abre o caminho da vida; abre-se o caminho para aprender de Deus um amor ardente a Ele e à sua Igreja; e uma caridade concreta com nossos irmãos. Obrigado.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs,

Santa Teresa de Jesus, nascida no século XVI, é um dos vértices da espiritualidade cristã de todos os tempos, e deu início, junto com São João da Cruz, à Ordem dos Carmelitas descalços. Apesar de não possuir uma formação acadêmica, sempre soube se alimentar dos ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Suas principais obras são: "O livro da Vida"; "Caminho da perfeição"; "Castelo Interior" e "O Livro das Fundações". Entre os elementos essenciais da sua espiritualidade, podemos destacar, em primeiro lugar, as virtudes evangélicas, base de toda a vida cristã e humana. Depois, Santa Teresa insiste na importância da oração, entendida como relação de amizade com Aquele que se ama. A centralidade da humanidade de Cristo, outro tema que lhe era muito caro, ensina que a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus, a qual culmina na união com Ele pela graça, pelo amor e pela imitação. Por fim, está a perfeição, aspiração e meta de toda vida cristã, realizada na inabitação da Santíssima Trindade, na união com Cristo através do mistério da Sua humanidade.

Dou as boas-vindas a todos os peregrinos de língua portuguesa, presentes nesta audiência! Que o exemplo e a intercessão de Santa Teresa de Jesus vos ajudem a ser, através da oração e da caridade aos irmãos, testemunhas incansáveis de Deus em uma sociedade carente de valores espirituais. Com estes votos, de bom grado, a todos abençoo.

[Tradução: Aline Banchieri.]

http://www.zenit.org/article-27157?l=portuguese

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SANTA TERESA DE ÁVILA, FUNDADORA DAS CARMELITAS DESCALÇAS – 15/10

Por Padre Rohrbacher

Teresa Dávila

"Sempre no céu, estás ouvindo, meu irmão, ou então sempre no inferno! Sempre, sempre!" Assim falava a seu irmãozinho uma menina que se tornou Santa Teresa. Liam juntos as vidas dos santos. Evocando a glória dos mártires, assaltou-a o ardente desejo de morrer como tinham morrido, a fim de gozar mais cedo a felicidade eterna. "Sempre! Sempre!" diziam um ao outro.

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Nessa época ainda havia na Espanha mouros e sarracenos. As duas crianças imaginaram que o processo mais curto seria irem para as terras ocupadas pelos infiéis, mendigando, a fim de perecer nas suas mãos. Com efeito, certo dia fugiram de casa e iniciaram a jornada. Oravam a Deus, enquanto caminhavam, pedindo-lhe que cada vez mais os penetrasse com o seu santo amor, e para que aceitasse o sacrifício de suas vidas. Um dos tios das crianças encontrou-as fora dos limites da cidade e levou-as de volta para casa. Vendo que não lhes era possível chegar ao martírio, Teresa e seu irmão resolveram viver como eremitas, e improvisaram pequenos ermitérios no jardim. Teresa dava todas as esmolas que podia; mas seus recursos eram pequenos. Aos doze anos, por ocasião da morte de sua mãe, prosternou-se desfeita em lágrimas diante de uma imagem da Santa Virgem e suplicou-lhe que lhe servisse de mãe.

O fervor de Teresa amorteceu com a leitura de romances e com as conversas mantidas com uma parenta de espírito mundano. Seu pai, que era um excelente cristão, percebeu o fato, e resolveu interná-la por algum tempo num convento de religiosas. O bom exemplo despertou no coração da menina os primeiros sentimentos de piedade. Certas leituras acresceram-lhe sensivelmente as boas disposições. Resolveu consagrar-se inteiramente a Deus e no ano de 1534 ingressou num mosteiro de Carmelitas. Foi provada por longas e pequenas moléstias, no meio das quais Deus a cumulou de inumeráveis graças. A Ordem do Carmo afastara-se da sua primitiva austeridade. Teresa recebeu a inspiração de levá-lo de volta à antiga regra. Por causa disso sofreu calúnias, perseguições e maus tratos. De tudo triunfou: sua reforma foi aplicada a um grande número de mosteiros, onde até os nossos dias produz incalculáveis frutos de santidade.

"Ou morrer, Senhor, ou sofrer, é tudo que vos imploro!" Era essa a prece de Santa Teresa. "Ou morrer para ver-vos, ou sofrer pelo vosso serviço." Compreendia que, depois da felicidade de ver Deus, não há outra maior do que sofrer por ele. Meu Deus, como ainda estou longe dessa perfeição do vosso amor!

Santa Teresa, em obediência a uma ordem de seu pai espiritual, escreveu a sua própria vida. É uma leitura das mais úteis e mais agradáveis às almas piedosas. Conta-nos, não apenas o que lhe aconteceu, as graças a ela concedidas por Deus, mas também nos ensina como devemos comportar-nos nas diversas fases da vida espiritual. Deus deu-lhe a graça de ver a santa humanidade de Nosso Senhor e os anjos bons. Também viu mais de uma vez os demônios que a atacavam.

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Estando um dia no oratório, relata ela, apareceu-me o demônio sob uma forma horrível; e, como falou comigo, observei, sobretudo, como era pavorosa a sua boca. Dela saía uma grande chama sem mistura de sombra; e disse-me num tom que me fez tremer, que eu me escapara de suas mãos, mas que saberia reaver-me. Senti-me tremendamente amedrontada; fiz o sinal da cruz como pude, e ele desapareceu; mas tornou a voltar logo depois e eu não sabia como proceder; enfim, atirei água benta no lugar em que se encontrava e nunca mais ele retornou àquele mesmo lugar. Outra vez, atormentou-me durante cinco horas, com sofrimentos e dores tanto interiores como exteriores, tão terríveis que acreditei não resistir-lhes por muito tempo. As pessoas com quem me encontrava ficaram assustadas e, tal como eu, não sabiam onde estavam. Tenho o costume, nessas ocasiões, de pedir a Deus do fundo do meu coração que, se lhe aprouver prolongar a provação, então me dê forças para suportá-la; ou que, se for da sua vontade que eu permaneça no estado de provação, nele me deixe até o fim do mundo.

Sei por várias experiências que nada afugenta mais depressa os demônios do que a água benta; ela impede que retornem. O sinal da cruz afasta-os momentaneamente, mas depois voltam. Essa água deve, pois, possuir uma grande virtude; e aliviava-me muito, proporcionando-me um sensível e profundo conforto, embora eu não saiba explicar bem de que espécie é o prazer que sinto e que se difunde na minha alma, fortalecendo-a. Não são coisas imaginárias, já experimentei esse prazer muitas vezes, e depois de ter feito muitas reflexões, parece-me que é como, se atormentada por um excessivo calor e extremamente sedenta, eu bebesse um grande copo de água fria que refrescasse o meu corpo inteiro. Reconheço, e com grande prazer, que nada há no que a Igreja ordena que não seja digno de admiração, pois bastam algumas palavras para imprimir tanta virtude à água, estabelecendo tão surpreendente diferença entre a que foi benta e a que não foi. Como o tormento que eu suportava na ocasião a que me refiro não cessasse, disse às minhas irmãs que, caso não lhes temesse a zombaria, pedir-lhes-ia que me trouxessem água benta. Imediatamente foram buscá-la, e jogaram-na sobre mim, sem que me sentisse aliviada; porém, tendo eu mesma jogado a água no lugar onde estava presente aquele espírito infernal, ele fugiu no mesmo momento e encontrei-me livre de dor, mas tão cansada e abatida como se me tivessem dado várias pauladas.

Muito tempo depois, continua Santa Teresa, estando um dia em oração, pareceu-me durante um espaço de tempo que me encontrava no inferno, sem saber como fora levada para lá. Compreendi apenas que Deus desejava que eu visse o lugar preparado para mim pelos demônios e merecido pelos meus pecados. Durou muito pouco a experiência; porém, por mais anos que eu viva, não creio que me seja possível apagar essa lembrança. (…)

Não aprouve a Nossa Senhor dar-me então um conhecimento mais amplo do inferno; porém depois, em outras visões, fez-me ver castigos ainda mais terríveis para certos pecados; mas como eu não lhes sofria a dor, essas visões não me impressionaram tanto como a primeira, a que me refiro, na qual Nosso Senhor quis que eu experimentasse em espírito aqueles tormentos, de maneira tão real e tão autêntica como se o meu próprio corpo os padecesse; não podia compreender como isso se passava; mas bem compreendia que Deus me favorecia com uma grande graça; permitindo-me ver de que abismo a sua infinita misericórdia me arrancara. Pois tudo quanto até hoje vi ou ouvi contar, ou imaginei, difere tanto da verdade quanto uma cópia do original; e queimar neste mundo nada é comparado com queimar no outro mundo.

Embora já se tenham passado cerca de seis anos sobre o acontecimento que acabo de relatar, ainda hoje me sinto aterrorizada ao descrevê-lo, que o meu sangue parece gelar-se nas veias. Assim, malgrado as dores e os males que me maltratam, não posso lembrar-me do que sofri naquela ocasião, sem que tudo que possamos suportar aqui na terra me pareça desprezível. Tenho a impressão de que nos queixamos sem motivo e considero uma das maiores graças que Deus me concedeu a terrível experiência que descrevi, quando pondero o quanto me foi útil, tanto para evitar que eu receie as aflições desta vida, como para obrigar-me a procurar suportá-las com paciência, e dar graças a Deus que, segundo espero consentirá em livrar-me daqueles terríveis e torturantes castigos, cuja duração será eterna. (…)
Foi durante os quatro primeiros anos desse empreendimento que, em obediência às ordens do seu confessor, e a pedido de suas religiosas do primeiro mosteiro reformado, ela escreveu O Caminho da Perfeição, para ajudar as almas fervorosas a evitarem certos defeitos e a vencer certas tentações, que muitas vezes as detêm ou retardam no caminho da perfeição religiosa. (…)

Depois de ter explorado O Caminho da Perfeição, Santa Teresa chega ao palácio para o qual essa caminho conduz. Daí outra obra, O Castelo da Alma, cuja finalidade também aponta.

Entre outras que a obediência me obriga a fazer, poucas há sobre as quais me tenha parecido tão difícil escrever como a oração, seja por não ter Nosso Senhor me dado bastante espírito para bem desempenhar a tarefa, seja porque sinto há três meses um ruído contínuo na abeca, e uma fraqueza tão grande, que não poderia, a não ser muito penosamente, escrever para tratar de negócios importantes e urgentes. Mas como seu que a obediência pode tornar possível o que nos parece impossível, resolvo-me a fazê-lo alegremente, malgrado a resistência da natureza, que confesso, a isso se opõe, porque não possuo suficiente virtude para suportar doenças contínuas e, ao mesmo tempo, sobrecarregar-me com centenas de ocupações de toda espécie. Assim sendo, é unicamente da bondade de Deus que espero a mesma assistência que me prestou em ocasiões ainda mais difíceis. (…)

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A Espanha era nesse tempo uma terra abençoada que não cessava de produzir santos e santas. Os principais cooperadores de Santa Teresa eram São João da Cruz e São Pedro de Alcântara. E, o que fala a favor da nação espanhola, o povo amava e venerava esses santos e santas. Assim, informados do rumo de Santa Teresa nas suas freqüentes viagens, os moradores do campo postavam-se nos caminhos para vê-la passar e pedir-lhe a benção. A notícia da sua chegada precedia-a de um lugar a outro, e a honra de hospedá-la era disputada. Aquela solicitude confundia-a; gostaria de poder subtrair-se a seus efeitos.

Certa vez, tendo-lhe as demonstrações de veneração que lhe tributavam, parecido mais insuportáveis do que o frio e a escuridão da noite, partiu três ou quatro horas antes do nascer do sol, povoado para o qual afluíra uma enorme quantidade de pessoas, que já a recebera com aclamações e que se dispunha a acompanhá-la triunfalmente. Outra vez, porém, não pode deixar de sensibilizar-se diante do que um camponês fez para festejá-la. Pois, inteirado de que ela deveria passa pela aldeia onde morava, mandou preparar-lhe o melhor jantar possível; reuniu toda a família em casa, e mandou trazer seus rebanhos, a fim de que tudo quanto lhe pertencesse fosse abençoado pela Santa. Porém, como Teresa não consentisse em interromper a viagem, o camponês acompanhado por filhos e rebanhos, foi-lhe ao encontro. Aquele ato a enterneceu e ela recomendou ao Senhor a família inteira.

Às fadigas das viagens, juntavam-se graves enfermidades; mas a coragem de Teresa tudo a fazia suportar alegremente. Precisou recorrer àquela força de alma que lhe era própria quando repuseram seu braço esquerdo no lugar, causando-lhe dores tremendas. Duas vezes aquele braço fora quebrado; a primeira em Ávila, em 1578; a outra em Vila-Nova de Xare, em 1580. Ficou, mesmo, aleijada o resto da vida em conseqüência do primeiro acidente, fruto de uma desastrosa queda de escada. Levaram muito tempo à procura de uma pessoa capaz de atender à fratura; e, quando a prioresa de Medina lhes enviou uma mulher com prática daquele gênero de operações, o braço já estava ligado.

Teresa terminara, em 1582, de fundar o convento de Burgos e já se pusera a caminho de Ávila quando recebeu um convite bastante insistente da Duquesa de Alba, que lhe pedia o favor de ir vê-la de passagem. Embora tivesse Às votas com suas velhas enfermidades, e atacada por uma espécie de paralisia, aliada a freqüentes vômitos, a Santa apresentou-se em Alba no dia 20 de setembro, acompanhada pelo padre Antônio de Jesus, que fora buscá-la em Medina. Passou várias horas conversando com a duquesa e, em seguida, deixou-a para acolher-se ao convento da sua ordem. Sentia-se extremamente fatigada, e como seus males piorassem dia a dia, compreendeu que seu fim estava próximo. No dia 30 de setembro teve um fluxo de sangue acompanhado de sintomas inquietantes. Contudo, ainda assistiu à missa aquele dia e comungou com grande fervor. Daí por diante permaneceu na cama até a morte. A Duquesa de Alba visitava-a com freqüência e servia-a com a mais terna afeição. A irmã Ana de Saint-Barthélemy, sua querida companheira, que mais tarde fundou um dos primeiros conventos das Carmelitas da França, não a deixava nem de dia e nem de noite.

No dia 1 de Outubro, depois de ter passado quase toda a noite em oração, Teresa mandou chamar o padre Antônio de Jesus pois desejava confessar-se. Terminada a confissão, o santo religioso exortou-a a pedir ao Senhor que não a tirasse ainda do mundo. Teresa respondeu humildemente que não podia mais ter serventia na terra; em seguida, despediu-se de suas religiosas, dando-lhes contínuas provas de afeição com seus últimos conselhos embebidos de carinho. Dizia-lhes: "Conjuro-vos, pelo amor de Deus, que observeis estritamente a regra e as constituições e não escolhais como modelo esta indigna pecadora que vai morrer. Cuidai, de preferência, de perdoar-lhe". Desfeitas em lágrimas, as irmãs só lhe respondiam com soluços.

No terceiro dia de outubro, Teresa sentiu-se mais fraca do que nunca; pediu os sacramentos, que lhe foram levados, Assim que avistou o santo viático, suas forças como que se reanimaram; o rosto iluminou-se, e o ardor da fé transpareceu-lhe nos olhos. Voltou-se para Jesus Cristo e, tendo sentado para recebê-lo mais respeitosamente, exclamou num santo transporte: "Ó meu Senhor e meu Esposo, eis que se aproxima a hora tão ardentemente desejada! Aproxima-se o momento da minha libertação …. Seja feita a vossa vontade! Chegou a hora em que deixarei meu exílio, e na qual minha alma encontrará na vossa presença a felicidade pela qual suspira há tanto tempo!"

Às nove horas da noite, pediu a Extrema-Unção, que recebeu com grande piedade. Pouco depois, tendo-lhe o padre Antônio perguntado se desejava ser enterrada no Convento de Ávila, respondeu-lhe: "Como! Não há nada neste mundo que me pertença? E não me darão aqui um pedaço de terra?" Seu fervor recrudescia, à medida que as forças a abandonavam. Ouviram-na repetir muitas vezes os versetos do salmo Miserere e, sobretudo, o seguinte: Meu Deus, não rejeitareis um coração contrito e humilhado. Recitou-o até o momento em que perdeu o uso da palavra. As dores da sua agonia prolongaram-se até a manhã seguinte. Sucumbindo, então, ao peso dos males, inclinou a cabeça no braço da Irmã Ana de Saint-Barthélemy, e permaneceu calmamente nessa posição até às nove horas da noite, com os olhos fitos num crucifixo que tinha nas mãos.

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O sono dos justos coroou seus trabalhos e suas virtudes na noite de 4 a 5 de outubro de 1582. Foi nessa mesma noite que Gregório XII reformou o calendário, inesperadamente suprimindo dez dias; e por efeito dessa supressão, o dia que se seguiu à morte de Santa Teresa ficou sendo considerado 15 de outubro, embora fosse apenas o dia 5.

A Santa morreu com sessenta e oito anos de idade, depois de ter passado vinte e sete no Convento da Encarnação, e mais vinte nos diversos conventos reformados. Os sofrimentos da morte não ficaram impressos na sua fronte; ao contrário, as rugas da velhice desapareceram-lhe do rosto e os membros conservaram a mesma flexibilidade que possuíam em vida. Seu corpo foi sepultado no coro interno das Carmelitas de Alba, onde permaneceu até 1585, quando o Capítulo Geral dos Carmelitas Descalços mandou trasladá-lo para o Convento de São José de Ávila, sede da reforma. Essa trasladação não foi processada com a discrição necessária para que a família do Duque de Alba dela não tivesse notícia. Queixou-se a Roma, pois, e obteve, no ano seguinte, uma ordem do Papa, na qual ele, mandava restituir ao Convento de Alba os despojos mortais da sua santa fundadora.Foram eles levados para lá no dia 25 de abril de 1586 e ainda hoje se conservam no mesmo lugar, sob um belo mausoléu. Até mesmo a corrupção respeitou as relíquias da Santa. As verificações levadas a efeito por ocasião dessa dupla mudança deram a conhecer o prodígio. O corpo foi encontrado em perfeito estado, tão flexível e tão perfeito como no momento da morte de Teresa; e asseguram que ainda se conserva no mesmo estado.

Nada há mais autêntico do que os atos preparados para servir de base à canonização de Santa Teresa. Foram assinados por uma grande quantidade de pessoas respeitáveis, cuja maior parte testemunhara os fatos que atestava. Paulo V determinou ao Arcebispo de Toledo, aos Bispos de Ávila e de Salamanca que fizessem investigações nos próprios lugares onde os fatos tinham ocorrido. Feitas as averiguações, o processo verbal foi enviado a Roma, onde três editores, cuidadosamente escolhidos, discutiram todos os fatos nele relatados, antes que os Cardeais da Congregação dos Ritos os submetessem a novo exame. Tendo Paulo V falecido, sucedeu-lhe Gregório XI; e este, após os sufrágios unânimes de todos os consultores, autorizou o culto prestado a Santa Teresa, por uma bula, no mês de março de 1621. Os atos da canonização contêm, com pormenores os vários milagres operados pela virtude das relíquias da Santa, ou por sua intercessão, O santo Bispo de Taronha, Didaco Yepez, inseriu a relação desses milagres no seu trabalho sobre a Santa.

Fotos: santiebeati.it
(Vida dos Santos, Padre Rohrbacher, Volume XVIII, p. 192 à 215 )

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