O ORGULHO

Por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África), Doutor da Igreja 
Discursos sobre os salmos, Sl 85, 2-3

amor e orgulho

«Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador.»

«Inclinai, Senhor, os vossos ouvidos, respondei-me» (Sl 85,1).

O Senhor não inclina o ouvido para o rico, mas para o pobre e indigente, para o que é humilde e confessa as suas faltas, para o que implora misericórdia e não para o que se sente saciado, se engrandece, se auto-elogia como se nada lhe faltasse e diz:

«Dou-Te graças por não ser como este cobrador de impostos.»

Enquanto este fariseu rico exaltava os seus méritos, o pobre publicano confessava seus pecados. […]

Todos os que recusam o orgulho são pobres perante Deus e sabemos que Ele inclina o seu ouvido para os pobres e para os indigentes; para os que reconhecem que a sua esperança não pode assentar no ouro, nem no dinheiro, nem nesses bens que se possuem em abundância, mas temporariamente. […] Quando alguém despreza em si mesmo tudo aquilo que o orgulho inflama é um pobre de Deus. Deus inclina para ele o seu ouvido, porque conhece os sofrimentos do seu coração […]

Aprendei pois a ser pobres e indigentes, tendo ou não algum bem neste mundo. Pode encontrar-se um mendigo orgulhoso e um rico trespassado do sentimento da sua própria miséria. «Deus resiste aos orgulhosos», quer se cubram de seda ou de farrapos; «e concede a sua graça aos humildes» (Tg 4,6; Pr 3,34), possuam ou não bens deste mundo. Deus considera o interior: é isso que Ele pesa e examina; tu não vês a balança de Deus, mas Ele põe no prato da balança os teus sentimentos, os teus projectos, os teus pensamentos. […] Se ao teu redor ou em ti há alguma coisa que te leva à auto-suficiência, rejeita-a. Que Deus seja toda a tua segurança. Sê um pobre de Deus, para que Ele te preencha de Si mesmo.

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PÔS-SE COM ELES A CAMINHO

Por Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona (Norte de África), Doutor da Igreja
Sermão 235, 1-3; PL 38, 118-119

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«Pôs-Se com eles a caminho»

Depois da ressurreição, o Senhor Jesus encontrou no caminho dois dos Seus discípulos, que conversavam sobre o que tinha acontecido. Ao vê-los tão tristes, perguntou-lhes:

«Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?»

Esta passagem do Evangelho traz-nos uma grande lição, se a soubermos compreender. Jesus aparece, mostra-Se aos discípulos e não é reconhecido. O Mestre põe-Se com eles a caminho, e é Ele próprio o caminho (Jo 14,6). Mas eles não estão ainda no verdadeiro caminho; quando Jesus os encontra, tinham perdido o caminho. Enquanto morava com eles, antes da Paixão, tinha-lhes predito tudo: os sofrimentos por que passaria, a Sua morte, a Sua ressurreição ao terceiro dia. Tudo lhes anunciara; mas a Sua morte fizera-os perder a memória […].

«Nós esperávamos que fosse Ele O que viria redimir Israel.»

Como, discípulos, vós esperáveis e agora já não esperais? Apesar de Cristo estar vivo, tendes em vós morta a esperança? Sim, Cristo está vivo. Mas Cristo vivo encontrou mortos os corações dos discípulos. Surge diante dos seus olhos, e eles não se apercebem; mostra-Se, e continua escondido deles. […] Caminha com eles e parece segui-los, e é Ele quem os conduz. Eles vêem-No mas não O reconhecem, «porque os seus olhos estavam impedidos de O reconhecer». […] A ausência do Senhor não é uma ausência. Crê apenas, e Aquele que não vês está contigo.

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RECORDA-TE DO DIA DE SÁBADO, PARA O SANTIFICAR

por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja – O Génesis em sentido literal, 4, xiii/24-xiv/25

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«Recorda-te do dia de sábado, para o santificar» (Ex 20,8)

Agora que estamos no tempo da graça que nos foi revelada, a observância do Sábado, antigamente simbolizada pelo repouso de um único dia, foi abolida para os fiéis. Com efeito, neste tempo de graça, o cristão observa um Sábado perpétuo, se fizer todo o bem que faz na esperança do repouso que há-de vir e se não se gloriar das suas boas obras como se fossem um bem que tivesse por si mesmo, e não de algo que tivesse recebido.

Assim, compreendendo e recebendo o sacramento do baptismo como um Sábado, quer dizer, como o descanso do Senhor no Seu Sepulcro (Rm 6,4), o cristão repousa das suas obras para caminhar, desde então, numa vida nova, reconhecendo que Deus actua nele. Deus é que repousa e age em simultâneo, por um lado concedendo à Sua criatura a gestão que lhe convém e, por outro lado, usufruindo em Si mesmo de uma tranquilidade eterna.

Nem Deus Se cansou ao criar o mundo, nem refez as Suas forças deixando de criar, mas quis, através destas palavras da Sua Escritura [«Deus repousou, no sétimo dia» (Gn 2,2)], convidar-nos a desejar o repouso, dando-nos o mandamento de santificar esse dia.

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TARDE TE AMEI (Santo Agostinho)

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"Tarde te amei,

ó beleza tão antiga e tão nova,

tarde te amei!

Eis que estavas dentro e eu fora.

Estavas comigo e não eu contigo.

Exalaste perfume e respirei.

Agora anelo por ti.

Provei-te,

e tenho fome e sede.

Tocaste-me

e ardi por tua paz."

 

É muito famoso este poema ou oração de Santo Agostinho (que também já foi musicado) e consta de seu livro Confissões, veja a seguir o texto completo de onde foi tirado:

"Ó eterna Verdade, verdadeira Caridade e querida Eternidade! Tu és o meu Deus e por ti suspiro dia e noite. E quando, pela primeira vez te conheci, foste tu quem me elevaste para ti, para fazer-me ver que havia alguma coisa a ver e que eu não era capaz de vê-la. Fortaleceste a fraqueza do meu olhar, brilhando com força sobre mim. Estremeci de amor e temor. Dei-me conta da imensa distância que me separava de ti, pela enorme diferença que há entre tu e eu. Como se eu ouvisse a tua voz, falando-me do alto: Sou alimento de adultos: cresce e poderás te nutrir de mim! E tu não me transformarás em tua carne, como sucede com a comida temporal, mas Eu te transformarei em mim.

Eu buscava o caminho para adquiri vigor, que me fizesse capaz de saborear-te, mas não o encontrava, até que abracei com o Mediador entre Deus e os seres humanos, Cristo Jesus, também ele homem, que está acima de todas as coisas, Deus bendito por todo o sempre, que me chamava, dizendo: Eu sou o caminho da verdade e da vida! Ele é o que mescla aquele alimento, que eu não podia assimilar, com a carne, já que a Palavra se fez carne, para que, em atenção ao nosso estado de infância, para que fosse como leite Sua Sabedoria, pela qual todas as coisas tinham sido criadas.

Tarde eu te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde te amei! E tu estavas dentro e não fora de mim, e assim, enquanto por fora de mim eu te buscava, e, disforme como era, me atirava sobre as coisas formosas que tu criaste. E Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo! Prendiam-me longe de ti aquelas coisas que, se não estivessem em ti, não existiriam sequer. Tu me chamaste e gritaste e rompeste minha surdez! Brilhaste e resplandeceste e curaste a minha cegueira! Exalaste teu perfume e o aspirei e agora anseio por ele! Eu te provei e agora sinto fome e sede de ti! Tu me tocaste e desejei, com ânsia, a paz que procede de ti!"

(Do livro Confissões de Santo Agostinho)

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