ESCOLHER OS QUE NÃO RETRIBUEM

Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897)
Carmelita, Doutora da Igreja 
Manuscrito autobiográfico C, 28rº-vº (trad. ed. Carmelo 1996)

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«E serás feliz por eles não terem com que te retribuir»

Notei (e é muito natural) que as Irmãs mais santas são as mais amadas; procura-se conversar com elas, [e] prestam-se-lhes serviços sem que os peçam. […] As almas imperfeitas, pelo contrário, não são nada procuradas; as pessoas mantêm-se, sem dúvida, em relação a elas, dentro dos limites da cortesia religiosa, mas, receando talvez dizer-lhes algumas palavras pouco amáveis, evitam a companhia delas. […] Eis a conclusão que daí tiro: devo procurar, no recreio, nas licenças, a companhia das Irmãs que me são menos agradáveis, [e] exercer junto dessas almas feridas o ofício do Bom Samaritano [Lc 10,30-35].

Uma palavra, um sorriso amável, bastam, muitas vezes, para alegrar uma alma triste; mas não é exclusivamente para atingir esse objectivo que quero praticar a caridade, pois sei que bem depressa desanimaria: uma palavra que terei dito com a melhor intenção poderá ser interpretada completamente ao contrário. Assim, para não perder o meu tempo, quero ser amável para com todas (e em particular para com as Irmãs menos amáveis) para dar alegria a Jesus e corresponder ao conselho que Ele dá no Evangelho mais ou menos nestes termos:

«Quando derdes um banquete, não convideis os vossos parentes nem os vossos amigos, não vão eles também convidar-vos, por sua vez, recebendo [vós] assim a vossa recompensa; mas convidai os pobres, os coxos, os paralíticos, e sereis felizes por eles não vos poderem retribuir, pois o vosso Pai, que vê no segredo, vos recompensará» [Mt 6,4].

Que banquete poderia uma carmelita oferecer às suas Irmãs, senão um banquete espiritual composto de caridade amável e alegre?

Quanto a mim, não conheço outro, e quero imitar São Paulo, que se alegrava com os que encontrava alegres; é verdade que chorava também com os aflitos [Rm 12,15], e algumas vezes as lágrimas devem aparecer no banquete que quero oferecer, mas procurarei sempre que essas lágrimas se transformem em alegria [Jo 16,20], já que o Senhor ama os que dão com alegria [2Cor 9,7].

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CALENDÁRIO ECLESIÁSTICO (FESTAS FIXAS E MÓVEIS)

Fonte: http://blog.cancaonova.com/leandrocouto/calendario-eclesiastico/

INTRODUÇÃO

É o calendário oficial da Igreja Católica Apostólica Romana, sendo adotado, via de regra, em todos os países católicos e também em alguns protestantes. Ele é misto, sendo regulado tanto pelo ano solar como pelo lunar, dando origem às festas móveis.

CALENDÁRIO DAS FESTAS MÓVEIS

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Observações:

1) A Festa do Sagrado coração de Jesus Comemora-se sempre no 2º. Domingo após Pentecostes

2) * ”Paixão”, acima, refere-se à sexta feira que antecede a Páscoa. Não confundir com “Domingo da Paixão” (hoje o  5º. Domingo da Quaresma)  que é o Domingo que antecede Ramos.

POR QUÊ A IGREJA ESTABELECEU AS FESTAS MÓVEIS?

Nos tópicos seguintes iremos estudar por quê a Quarta-Feira de Cinzas e a  Páscoa não possuem data fixa de comemoração.

Todas as festas da Igreja que tem como ponto de referência a Páscoa, são denominadas festas móveis porque baseadas no calendário lunar (judaico) e adaptadas ao nosso calendário (gregoriano). Comecemos relembrando, em resumo, o significado da Páscoa Judaica e da Páscoa Cristã:

PASCOA JUDAICA (breve resumo) – No Antigo Testamento, sabemos que Moisés, sob a guia divina, tornou-se chefe do povo oprimido que encontrava-se sob o jugo dos egípcios, adversários do povo eleito, sob o comando do Faraó que usava de seus poderes terrenos para contrariar os planos divinos. Deus manifesta seu poder através de Moisés, mediante diversos sinais e castigos, mas o coração endurecido do Faraó não acena com nenhum sinal de arrependimento. Durante a libertação do povo guiado por Moisés, Deus institui a celebração da Páscoa através de Moisés e Aarão, mandando dizer a toda a assembléia de Israel que tomasse um cordeiro que deveria ser imolado em data determinada, devendo seu sangue ser tomado, posto sobre as duas ombreiras e sobre a verga da porta da casa. Deus disse ainda que naquela noite passaria através do Egito para exercer sua justiça, ferindo de morte os filhos primogênitos dos Egípcios, mas que passaria adiante das casas marcadas com o sangue do cordeiro. E Deus mandou seu Anjo, e assim foi feito.

“Conservareis a memória daquele dia, celebrando-o como uma festa em honra do Senhor: Fareis isto de geração em geração, pois é uma instituição perpétua” (Ex 12, 14)

Desta forma ficou instituída a a festa da Páscoa, comemorada até os dias atuais pelo povo judeu. O extermínio dos filhos dos egípcios testemunha que o povo eleito, libertado, terá que viver daí em diante, no temor de Deus e reconhecido o seu grande benfeitor. (Veja tudo sobre a instituição da Páscoa no Livro do Êxodo, cap. 12)

PÁSCOA CRISTÃ (breve esumo) – A instituição da Páscoa Cristã encontra-se na imolação de Cristo. Enquanto na primeira festa de Páscoa Deus liberta o povo da escravidão e proclama a sua Aliança com o povo de Israel, na segunda, o próprio Deus torna-se o Cordeiro Imolado para libertar o povo do jugo do pecado e do demônio. Desta vez, o Sangue de Jesus, do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, definitivamente liberta toda a humanidade com sua Paixão, Morte e Ressurreição.

“Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”. (I Cor 5, 7)

* * * * * * * * *

Recordando:  Memorizados os aspectos centrais da Páscoa Judaica e da Páscoa Cristã, recordemos que Jesus veio ao mundo em cumprimento das Escrituras e por Seu desígnio foi crucificado justamente no dia da preparação da festa da Páscoa, para que, a partir de sua Paixão, Morte e Ressureição fosse instituída a Nova Aliança. Para que fosse instituída a grande e solene Páscoa, como num reflexo pleno da primeira festa de Páscoa.

CONCLUINDO:

Como a festa da Páscoa Judaica, coincide exatamente com o dia da imolação de Cristo, estabeleceu-se já naquele momento, por desígnio de Deus, o dia 14 de Nisã (do calendário judaico ou hebraico), como data de referência à comemoração da Páscoa Cristã. (Encontro da Primeira com a Segunda Aliança)

Assim, a Páscoa judaica é sempre celebrada na 1ª. lua cheia da primavera do hemisfério norte, na noite de 14 para 15 de Nisã . A Páscoa Cristã ficou fixada como o 1ª Domingo posterior à referida 1ª lua cheia, ou seja, no primeiro domingo após a comemoração da Páscoa dos Judeus.

Como o calendário judaico é baseado nos ciclos da lua, explica-se os motivos da variação em nosso calendário, que é solar e por isso, para nós, o Domingo de Páscoa varia entre 22 de março e 25 de abril. Fixado, assim, a festa da Páscoa para determinado ano, todas as outras festas também se movem desde a septuagésima até Corpus Christi, conforme a tabela do início deste artigo.

Em síntese: É usado como referência não o nosso calendário, mas sim o  judaico. Fixada a data da Páscoa pelo calendário judaico, adaptamos tal data ao nosso para que a partir daí, possamos estabelecer as datas, desde a septuagésima até Corpus Christi, conforme da grade abaixo. Estabelecido o dia da Páscoa, aí sim, todas as outras festas móveis o acompanham.

O Carnaval apesar de ser uma festa pagã, também se move com o calendário eclesiástico e é sempre comemorado sete domingos antes do Domingo de Páscoa. As festas são permitidas até a quarta-feira de cinzas, quando inicia-se a Quaresma, tempo de 40 dias de jejum e abstinência em preparação à festa da Páscoa, ou seja, data que celebramos a Ressurreição de Cristo.

Festas Móveis – Tem por referência a Páscoa e são as seguintes:

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Obs: A Festa do Sagrado coração de Jesus Comemora-se sempre no 2º. Domingo após Pentecostes

PRINCIPAIS FESTAS FIXAS

Como o próprio nome sugere, “festas fixas” são aquelas cujas datas de comemoração não variam, permanecem sempre imutáveis conforme estabelece o Calendário Romano Geral. São tipificadas por festa ou solenidade. As demais comemorações que não pertençam à grade abaixo, por exemplo, de um santo padroeiro, são tipificadas em memória.

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ORAI POR AQUELES QUE VOS PERSEGUEM

por Bem-aventurado Tito Brandsma
Mártir, carmelita holandês (1881-1942) – Convite ao heroísmo, na fé e no amor

Grasp

«Eu digo-vos: […] orai por aqueles que vos perseguem»

Muitas vezes ouvimos dizer que vivemos tempos maravilhosos, tempos de grandes homens. […] É compreensível que haja quem deseje que se erga um chefe forte e capaz. […] Essa espécie de neo-paganismo [o nazismo] considera toda a natureza como uma emanação do divino […]; acredita que há raças mais puras e mais nobres que outras. […] Daí vem o culto da raça e do sangue, o culto dos heróis do próprio povo.

Partindo de uma idéia tão errônea, essa maneira de ver pode conduzir a erros capitais. É triste ver quanto entusiasmo e quantos esforços são postos ao serviço dum tal ideal, falso e sem fundamento! Contudo, podemos aprender com o nosso inimigo. Com a sua filosofia mentirosa, podemos aprender a purificar o nosso próprio ideal e a melhora-lo; podemos aprender a desenvolver um grande amor por esse ideal, a suscitar um imenso entusiasmo e mesmo a disponibilidade para viver e morrer por ele; a fortalecer a coragem para o encarnar, em nós próprios e nos outros. […]

Quando falamos da vinda do Reino e quando rezamos para que ele venha, nunca pensamos numa discriminação com base na raça ou no sangue, mas na fraternidade de todos os homens, uma vez que todos os homens são nossos irmãos – sem excluir mesmo aqueles que nos odeiam e nos atacam -, em ligação estreita com Aquele que faz nascer o sol sobre os bons e sobre os maus (cf Mt 5,45).

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AMONTOAR PARA SI PRÓPRIO OU SER RICO COM OS OLHOS POSTOS EM DEUS?

por S. Basílio (cerca 330-379)
Monge e Bispo em Capadócia, doutor da Igreja – Catequese 31

GANANCIA

Amontoar para si próprio ou ser rico com os olhos postos em Deus?

«Que hei-de fazer? Vou aumentar os meus celeiros!» Porque eram as terras deste homem tão produtivas, se ele fazia tão mau uso da sua riqueza? É para mais intensamente se ver a manifestação da imensa bondade de um Deus que estende a Sua graça a todos, «pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5,45). […] Eram estes os benefícios de Deus para com este rico: uma terra fecunda, um clima temperado, abundantes colheitas, bois para o trabalho, e tudo o que assegurasse a prosperidade. E ele, que dava em troca? Mau humor, taciturnidade e egoísmo. Era assim que agradecia ao seu benfeitor.

Esquecia que pertencemos todos à mesma natureza humana; não pensou que devia distribuir o que lhe sobrava aos pobres; não fez nenhum caso destes mandamentos divinos: «não negues um benefício a quem precisa dele, se estiver nas tuas mãos concedê-lo» (Prov 3,27), «não se afastem de ti a bondade e a fidelidade» (3,3), «partilha o teu pão com quem tem fome» (Is 58,7). Todos os profetas, todos os sábios lhe gritavam estes preceitos, mas ele fazia ouvidos de mercador. Os seus celeiros rachavam, muito pequenos para o trigo que lá se acumulava, mas o seu coração não estava satisfeito. […] Ele não queria desfazer-se de nada, mesmo não chegando a armazenar tudo. Este problema incomodava-o: «Que hei-de fazer?» perguntava constantemente. Quem não teria piedade de um homem assim obcecado? A abundância tornava-o infeliz […]; lamentava-se tal e qual como os indigentes: «Que hei-de fazer? Como hei-de alimentar-me, vestir-me?» [….]

Observa, homem, quem foi que te cumulou de dons. Reflecte um pouco sobre ti próprio: Quem és tu? O que é que te foi confiado? De quem recebeste esse encargo? Porque fostes tu o escolhido? Tu és servo do bom Deus; tu estás encarregado dos teus companheiros de serviço. [… «Que hei-de fazer?» A resposta é simples: «Saciarei os famintos, convidarei os pobres. […] Vós todos a quem falta o pão, vinde possuir os dons concedidos por Deus, que jorram como que de uma fonte».

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CONVIDAI PARA AS NÚPCIAS TODOS OS QUE ENCONTRARDES

Por Gabriel Frade, professor de Liturgia e Sacramentos

Comentário à Liturgia da Palavra do 28º Domingo do Tempo Comum – Is 25, 6-10a; Sl 22 (23), 1-3a.3b-4.5.6; Fl 4, 12-14.19-20; Mt 22, 1-14 –, redigido pelo professor Gabriel Frade. Natural de Itaquaquecetuba (São Paulo), Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica.

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28º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Leituras: Is 25, 6-10a; Sl 22 (23), 1-3a.3b-4.5.6; Fl 4, 12-14.19-20; Mt 22, 1-14

Ide às encruzilhadas e convidai para as núpcias todos os que encontrardes.” (Mt 22, 9)

[No Tempo comum] comemora-se (…) o próprio mistério de Cristo em sua plenitude, principalmente aos domingos.” (Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, n. 43)

A liturgia deste domingo nos oferece uma imagem extremamente bela. Num certo sentido essa imagem é um pouco aquilo que na verdade é a própria liturgia: uma grande festa de encontro.

A primeira leitura do profeta Isaías nos apresenta Deus como aquele que organiza um amplo banquete, preparando “para todos os povos, sobre esta montanha, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas…” (Is 25, 6).

O mais curioso, é que pela referência ao local do banquete – “esta montanha” nome usual para indicar a colina de Sião, local onde está edificada Jerusalém (Cf. 2 Rs 19, 31; Sl 48, 27; Zc 8, 3; Hb 12, 22; etc.) –, era de se esperar que os convidados fossem os membros do povo eleito; no entanto, numa das poucas passagens do Antigo Testamento sobre uma concepção mais universal de experiência com Deus, fala-se de “todos os povos”.

A “re-velação” – do ponto de vista etimológico “tirar e por o véu” – é feita a todos os povos, já que a “cortina que se estendia sobre todas as nações” (v. 7) será arrancada justamente “sobre esta montanha”. Neste ponto vale lembrar que no Novo Testamento há uma passagem muito significativa onde se fala simbolicamente do véu do santuário do Templo: ele é rasgado de alto a baixo no momento da morte de Jesus (ver Mt 27, 51 e paralelos).

O texto fala ainda de um estado d’ânimo sereno, do momento que o próprio Deus “enxuga as lágrimas de todos os rostos” já que ele “fez desaparecer a morte para sempre”.

A morte que, dentro da perspectiva bíblica, entrara no mundo devido ao pecado da humanidade será finalmente aniquilada por Deus: “Senhor, se levardes em conta nossas faltas, quem poderá subsistir? Mas em vós encontra-se o perdão, Deus de Israel” (Antífona de entrada).

De fato, essa imagem de uma realidade transformada será retomada com muita ênfase também no Novo Testamento onde, por exemplo, a liturgia eterna descrita no livro do Apocalipse indica a destruição definitiva da morte e a comunhão com Deus não mais sobre “esta montanha”, mas agora numa “Jerusalém nova” (Ap 21).

É preciso dizer que já no Antigo Testamento, também a ideia do banquete associado à comunhão profunda com Deus estava bem presente, especialmente dentro de um contexto litúrgico. No livro do Levítico (Lv 1-7), por exemplo, encontramos uma extensa descrição dos sacrifícios que eram ofertados diante de Deus. Dentre estes havia aquele que tinha uma parte da vítima oferecida ao Senhor e o restante era consumido de forma ritual pelo oferente e pelo sacerdote. Este era um dos modos pelos quais o fiel entrava em comunhão profunda com Deus.

Ao se comunicar com os homens, Deus de certo modo respeita nossa estrutura antropológica. O ato de comer para os seres humanos não é apenas o momento no qual se consome alimento para manter o corpo em vida, como ocorre geralmente com os animais, mas se reveste de conotações altamente simbólicas.

Normalmente, dividir a mesa com alguém implica num gesto de comunhão. Se há possibilidade de escolha, dificilmente iremos preferir comer com algum desconhecido, preferimos sempre que possível comer com aqueles que nos são caros, que nos dão prazer pela sua companhia; temos que observar porém, que a culta moderna do fast food, da comida rápida, que embora seja de praticidade inegável, nos dificulta uma compreensão mais profunda dessas afirmações já que esta cultura tem também contribuído em muito para a diminuição de certos valores humanos.

Para mim preparais a mesa… com óleo me perfumais a cabeça e meu cálice transborda” (Salmo responsorial). Deus mesmo nos prepara uma mesa. A ação primeira parte de Deus: ele nos quer junto de si; ele tem prazer em nos ter em companhia e para isso não mede esforços em nos conceder sua graça: “Ó Deus, sempre nos preceda e acompanhe a vossa graça para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer” (Oração do dia).

A cena do Evangelho retoma a mensagem da primeira leitura. Na continuação da leitura do Evangelho de Mateus proposta pela liturgia da palavra destes domingos, temos a descrição agora de um banquete messiânico. Jesus diante da perseguição e das críticas dos chefes dos judeus, narra a parábola do banquete nupcial: “O Reino dos Céus é semelhante a um rei que celebrou as núpcias do seu filho (…) (…) eis que preparei meu banquete, meus touros e cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde às núpcias” (Mt 22, 2.4).

A parábola continua dizendo que apesar da grandiosidade da festa e da importância do “dono” da festa, os convidados não só desprezam o convite como chegam a maltratar e até mesmo a matar os servos do rei que tinham a incumbência de apenas convidar os convivas.

Os antigos orientais eram povos que tinham uma grande preocupação com suas relações humanas. Desprezar um convite de algo tão importante quanto a festa de casamento era algo inadmissível e imperdoável, quanto mais a festa do filho de um rei. Podemos apenas imaginar os sentimentos que Jesus provocara em seus ouvintes ao desfilar diante de seus olhos essas imagens.

Diante da negação dos convidados, o rei não se faz de rogado: manda seus servos irem pelos caminhos para convidar os que encontrassem: “maus e bons” (v. 10).

Uma interpretação mais comum desta parábola vê nessas imagens Deus, como o rei que organiza o banquete, os profetas seriam os servos desse rei e os primeiros convidados seriam os judeus que se negaram a participar da boda do filho do rei, neste caso uma alusão ao próprio Jesus. No desfecho, outros serão convidados: imagem de outros povos reunidos no novo Israel que é a Igreja.

Chama-nos a atenção o fato de que os últimos convidados sejam classificados como “maus e bons”. Essa magnanimidade de Deus se faz ouvir numa outra passagem de Mateus (Mt 5, 45) e nos faz compreender que Deus oferece sua graça a todos os homens e mulheres, e quer a conversão de todos para si. Mas Deus, como é bem sabido, não faz violência à nossa liberdade…

Continuando a parábola, aparece uma figura misteriosa: alguém foi ao banquete sem a veste nupcial. Para nós, seria nossa veste “de gala”, condizente com a grandeza de certos eventos sociais. Há alguma dificuldade nessa imagem do evangelho, pois poderíamos nos perguntar sobre o seguinte fato: se as pessoas se encontravam pelos caminhos, como nos faz saber a parábola, como era possível que estas pessoas chegassem aí com vestes de festa, e somente uma não estivesse trajada adequadamente?

É preciso ver aí um símbolo e, como tal, buscar algum significado mais profundo.

De fato, São Cirilo de Jerusalém em suas catequeses mistagógicas interpreta essa passagem em sentido batismal: a falta da veste, isto é, da veste branca entregue no dia do batismo e conservada pelo cristão durante toda a oitava pascal durante as celebrações – e que era deposta somente no domingo sucessivo (domingo in albis) – era símbolo de todo processo de iniciação cristã, de mudança concreta de vida que culminava com o recebimento do batismo.

Paralelamente a este fato batismal, recuperado em seu sentido mais pleno pelo RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), ainda hoje nas profissões monásticas o rito da vestição guarda um significado especial: vestir um hábito religioso é o símbolo de uma realidade mais profunda, é mudança concreta de vida, de atitudes e que são assumidas livremente pelo candidato. Lembrando que essas mudanças deveriam ser anteriores à vestição, afinal, como diz o adágio de nossa sabedoria popular: “o hábito não faz o monge”.

A verdade, é que em se tratando da celebração da eucaristia, todos somos de fato convidados para participar de um banquete: “Felizes os convidados para o Banquete nupcial do Cordeiro”. A pergunta é: quantos de nós trazemos a veste nupcial, isto é, quantos de nós procuramos corresponder ao amor de Deus em nossa própria vida, quantos de nós nos preocuparmos de fato com o nosso próximo?

Os ricos empobrecem, passam fome, mas aos que buscam o Senhor, não falta nada” (Antífona da comunhão).

São Paulo na segunda leitura nos dá mostras desse equilíbrio entre a graça de Deus e a resposta do homem: tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta”.

Ele, que escreve aos filipenses provavelmente de alguma prisão, encontra motivações para agradecer à generosidade da comunidade: “No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. O meu Deus proverá com abundância a todas as vossas necessidades”.

Ou seja, uma comunidade que realmente participa das celebrações é uma comunidade que está também atenta às necessidades dos irmãos. É uma comunidade que ao experimentar a gratuidade de Deus e na sua imitação, se preocupa em fazer com que todos participem do grande banquete da eternidade, não medindo esforços para isso.

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BENTO XVI: A CORREÇÃO FRATERNA

04/09/11 – Intervenção por ocasião do Ângelus

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Queridos irmãos e irmãs:

As leituras bíblicas da Missa deste domingo convergem no tema da caridade fraterna na comunidade dos crentes, que tem sua fonte na comunhão da Trindade. O apóstolo Paulo afirma que toda a Lei de Deus encontra sua plenitude no amor, de maneira que, nas nossas relações com os outros, os dez mandamentos e qualquer outro preceito se resumem em “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (cf. Romanos 13, 8-10). O texto do Evangelho, tirado do capítulo 18 de Mateus, dedicado à vida da comunidade cristã, nos diz que o amor fraterno comporta também um sentido de responsabilidade recíproca, razão pela qual, se meu irmão comete uma culpa contra mim, eu devo ser caridoso e, antes de mais nada, falar com ele pessoalmente, dando-lhe a conhecer que o que ele disse ou fez não é bom. Essa maneira de agir se chama correção fraterna: não é uma reação à ofensa sofrida, mas surge do amor pelo irmão. Santo Agostinho comenta: “Aquele que te ofendeu, ofendendo-te, inferiu a si mesmo uma grande ferida; e tu não te preocupas pela ferida de um irmão teu? (…) Tu deves esquecer a ofensa que recebeste, não a ferida do teu irmão” (Sermões 82, 7).

E se o irmão não me escutar? Jesus, no Evangelho de hoje, indica uns passos: primeiro, é preciso voltar a falar-lhe com outras duas ou três pessoas, para ajudá-lo a perceber o que fez; se, apesar disso, ele rejeitar ainda a observação, é necessário dizê-lo à comunidade; e se ele não escutar nem sequer a comunidade, é preciso fazer-lhe perceber a separação que ele mesmo provocou, separando-se da comunhão da Igreja. Tudo isso indica que há uma corresponsabilidade no caminho da vida cristã: cada um, consciente dos seus próprios limites e defeitos, está chamado a receber a correção fraterna e a ajudar os outros com este serviço particular.

Outro fruto da caridade na comunidade é a oração conjunta. Jesus diz: “Eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles” (Mateus 18,19-20). A oração pessoal certamente é importante, e mais ainda, indispensável, mas o Senhor garante sua presença à comunidade que – ainda que seja muito pequena – está unida e unânime, porque reflete a realidade de Deus Uno e Trino, perfeita comunhão de amor. Orígenes diz que “devemos nos exercitar nesta sinfonia” (Comentário ao Evangelho de Mateus 14, 1), ou seja, nesta concórdia na comunidade cristã. Devemos nos exercitar tanto na correção fraterna, que requer muita humildade e simplicidade de coração, como na oração, para que se eleve a Deus a partir de uma comunidade verdadeiramente unida a Cristo. Peçamos tudo isso por intercessão de Maria Santíssima, Mãe da Igreja, e de São Gregório Magno, papa e doutor, a quem ontem recordamos na liturgia.

[Tradução: Aline Banchieri]

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